Breve ensaio sobre a noção de privilégio
Breve ensaio sobre a noção de privilégio
Texto extraído de http://sindeloke.wordpress.com/, sob o título “On the difference between Good Dogs and Dogs That Need a Newspaper Smack”
Tradução: Airton Moreira Jr.
Privilégio. É uma palavra estranha, não é? Um dos mais básicos conceitos cotidianos nos círculos de militância; temos muitas frasezinhas inúteis e irritantes que gostamos de usar como “chek your privilege” [“atente ao seu privilégio”] e muitas de nossas convenções de diálogo são construídas em torno de um mútuo acordo (ou pelo menos uma tentativa de acordo mútuo) sobre quem tem privilégio, e quando e como compensar isso. Mesmo assim é uma palavra bastante estranha, opaca, mesmo se você nunca usou antes ou não faz parte desses círculos. Além disso, a forma como usamos tal palavra também funciona como um marcador cultural — como “Tolkienesque” [“literatura Tolkienesca”] ou “Hall-of-Famer” [termo relativo à cultura das celebridades] ou “heteronormativo”: você pode ter razoável certeza de que um grande número de pessoas estúpidas irá imediatamente parar de te ouvir e parar de levá-lo a sério no momento em que usá-la.
O fato de que as pessoas são estúpidas, contudo, não é novidade. E na realidade esse é o motivo porque o conceito de privilégio é importante — porque privilégio não diz respeito à estupidez. Não é uma coisa má, ou uma coisa boa, ou algo com um juízo moral ou de valor de qualquer tipo ligado a ele. Ter privilégio não é algo que você pode mudar geralmente, mas tudo bem, porque não é algo que você deva se envergonhar, ou se sentir mal por isso. Ser informado de que você tem um privilégio, ou que você é socialmente privilegiado, não é um insulto. É uma lembrança! A chave para lidar com o privilégio não é se preocupar com isso, ou tentar negá-lo, ou pedir desculpas por tê-lo, ou tentar se livrar dele. Basta prestar atenção a ele, e saber o que isso significa para você e as pessoas ao seu redor. Ter privilégio é como ter pés grandes. Ninguém te odeia por ter pés grandes! Eles só querem que você preste atenção e tenha cuidado por onde você andar.
Neste ponto, talvez eu devesse realmente começar a falar sobre o que é privilégio.
Bem, estamos na internet, então vamos começar com uma definição do Google. Como sempre, o googledefs é pouco abrangente, mas totalmente adequado para nossos propósitos aqui, particularmente a segunda entrada:
“Se você falar de privilégio, você estará falando sobre o poder e a vantagem que apenas um pequeno grupo de pessoas possui, geralmente por causa de sua riqueza ou sua classe social elevada.”
Este é o coração da idéia. Privilégio é uma regalia… um conjunto de oportunidades, benefícios e vantagens que algumas pessoas têm e outras não. Por exemplo, se está chovendo na parte da manhã, e você se levantar, se vestir, subir no carro quentinho em sua garagem, dirigir até o estacionamento coberto no trabalho, e entrar no edifício ao lado, você não irá se molhar. Se você sair e esperar no ponto de ônibus, em seguida fazer a baldeação entre um ônibus e outro, em seguida ir a pé do ponto de ônibus para o trabalho, você irá se molhar. Não se molhar, portanto, é um privilégio concedido a você que possui um carro e garagem. Até aqui o raciocínio é simples, certo?
Alguns exemplos de privilégios sociais funcionam exatamente da mesma maneira, e eles são os mais fáceis de se entender. Por exemplo, um motorista negro jovem do sexo masculino possui uma probabilidade muitíssimo maior de ser parado pela polícia do que uma motorista mulher idosa e branca. Ser menos vezes parado — receber o benefício da dúvida por uma autoridade — é, neste caso, um privilégio de ser branco (não estou entrando no fator de gênero aqui, a interseccionalidade é assunto para um post totalmente diferente).
Ok, mais uma vez, até aqui o raciocínio é simples. E até agora, não há muito a ser feito sobre isso, certo? Você não vai, enquanto uma pessoa branca, fazer questão de ser parado pela polícia com mais freqüência, e ninguém está pedindo para você fazê-lo (bem, eu não estou, pelo menos). Portanto, se alguém diz “atente ao seu privilégio”, ou se eu disser para você ter cuidado onde você está colocando seus pés, o que diabos isso significa?
Bem, este é o ponto em que as coisas ficam um pouco complicadas de se entender. Porque a maioria dos exemplos de privilégio social não é tão simples. Tomemos, por exemplo, um pouco do básico sobre o privilégio masculino:
“Um homem tem o privilégio de andar através de um grupo de mulheres estranhas sem ter que se preocupar sobre ser assediado com palavras e gestos, ou ser descaradamente alvo de olhares libidinosos (‘comida com os olhos’), ou receber sugestões explicitamente sexuais.”.
Uma resposta masculina muito comum a este apontamento é “isso é um privilégio? Eu adoraria se um grupo de mulheres fizesse isso para mim”.
E essa resposta, bem aqui, é um exemplo perfeitamente brilhante do privilégio masculino.
Para explicar como e por que, contarei uma longa metáfora para você. Na verdade, pode-se até qualificá-la como parábola. Seja paciente comigo, porque se isso tornará tudo bem claro, valerá a pena o tempo perdido.
Imagine, se desejar, uma pequena casa, construída em algum lugar fresco, mas não frio, talvez em algum lugar em Ohio, e habitada por um cão e um lagarto. O cão é grande, um tanto peludo e nórdico, como um Husky ou Lapphund — um desses cães hábeis em puxar trenós na neve. O lagarto é pequeno, uma lagartixinha melhor adaptada à vida em uma floresta tropical em algum lugar abafado. Nenhum deles alguma vez viveu em qualquer outro lugar, nem encontrou qualquer outra criatura; para os fins deste exercício, esta pequena casa é a totalidade do seu universo.
O cão, assim como era de se esperar, liga o ar condicionado da casa. Realmente exagera, o tempo todo — este cão foi criado para caçar alces na tundra, ou seja, mesmo o inverno em Ohio é um pouco quente para o seu gosto. Se puder fazer a casa chegar aos 10°C, ele estará quase feliz.
A lagartixa não pode fazer muito para controlar a temperatura — ela tem minúsculos dedos pequenos, ela não pode manejar o termostato ou transformar os mostradores do ar condicionado. Às vezes, quando há uma luz incandescente por perto, ela pode enroscar-se perto dela e pegar um pouco de calor dessa maneira, mas na maioria das vezes, na maior parte do tempo, ela tem que viver de acordo com o que o cão escolhe. Isto é, obviamente, muito frio para ela — ela é uma lagartixa. Ela não apenas não tem pêlo, ela é uma criatura de sangue frio! Tal temperatura faz dela lenta e doente, e impregna seu universo inteiro. Talvez aqui e ali ela consiga encontrar pequenos espaços de calor, mas se ela quer fazer alguma coisa, como comer ou assistir televisão ou conversar com o cão, ela tem que se mover pela casa fria.
Agora, lembre-se, ela nunca conheceu qualquer outra coisa. Para ela, o mundo apenas é assim — frio, doloroso e insalubre, até mesmo perigoso, e ela lida com isso como pode. Mas talvez uma pequena parte dela pense, “hey, isso não deveria ser assim”; alguma minúscula semente crescente de rebelião que diz que ela está bem ao lado de uma lâmpada quente e que é assim que ela deveria estar o tempo todo.
E ela e o cão são parceiros, em certo sentido, não é? Eles vivem nesta casa juntos, eles afetam um ao outro, tudo o que eles têm é um ao outro. Então, um belo dia, ela vê o cão brincando com o ar condicionado de novo, e ela diz “hey, Cão, escuta, quando você faz isso, acaba me fazendo passar muito frio”.
O cão olha para ela, dá de ombros, e continua girando o mostrador do ar condicionado.
Isto não acontece pelo fato do cão ser um idiota.
Isso acontece porque o cão não tem a mais puta noção do que o lagarto acabou de dizer.
Considere o seguinte: ele é um cão nórdico em um clima temperado. A palavra “frio” é algo completamente sem sentido para ele. Ele nunca passou frio em toda a sua vida. Ele vive em um ambiente que é perfeitamente adequado para ele, completamente alinhado com o seu nível de conforto, um mundo que cresceu com as ferramentas certas para ele sobreviver e controlar, diretamente constituído para a maneira como ele nasceu.
Então a lagartixa tenta explicar para ele. Ela diz: “bem, hey, como você se sentiria se eu abaixasse a temperatura sobre você?”
O cão diz “uh … parece bom para mim.”
O que ela realmente quis dizer, é claro, é “como você se sentiria se eu fizesse você passar frio”. Mas ela não pode fazê-lo passar frio. Ela não tem as ferramentas ou o poder para isso, o mundo que eles compartilham não é constituído de uma forma que permita isso — ela simplesmente não é fisicamente capaz de fazer o mesmo dano a ele que ele está fazendo a ela. Ela até poderia fazer ele sentir algum tipo de dor, eu tenho certeza que ela poderia esfaqueá-lo com um palito ou colocar algo horrível em sua comida ou algo do tipo, mas esta forma específica de dor, ele nunca, jamais entenderá — não é algo que pode ser infligido sobre ele, dada a natureza do mundo em que vivem e a forma como tal mundo é inclinado a favor do cão, neste caso. Então ele não consegue captar o que ela está dizendo a ele, e segue machucando-a.
A maioria dos privilégios é assim.
Um estadounidense, masculino, heterossexual, por causa de quem ele é e da cultura na qual ele vive, não sente e não consegue sentir o stress, a repugnância, e a ameaça direta por trás de um assédio com palavras ou gestos da mesma maneira que uma mulher sente. Sua criação deu-lhe pêlos e patas grandes o suficiente para manusear os mostradores e resfriá-lo num ambiente temperado. Quando a mulher diz “você não tem que aturar ser alvo de olhares maliciosos (‘comido com os olhos’)” o que ela quer dizer é: “você não tem que sempre ter cautela diante do interesse sexual alheio”. Isso é privilégio masculino. Não diz respeito somente a algo que não acontece com os homens, mas que nunca vai ter o mesmo peso, mesmo que aconteça.
Então, o que isso significa? E o que estamos pedindo que você faça, quando dizemos “atente ao seu privilégio” ou “seu privilégio está a mostra”?
Ora, muito simples, queremos que você entenda quando você “tem pêlo”. E, conseqüentemente, quando isso significa que você deve saber ouvir. Veja, o cão não é um idiota apenas por abaixar a temperatura. Até onde ele sabe está tudo bem, certo? Ele verdadeiramente não faz idéia da dor que provoca, ele nem sequer sabe sobre ela. Ninguém pensa que ele é uma pessoa totalmente ruim por acidentalmente fazer mal.
Eis quando ele se torna um idiota: o minuto em que a lagartixa diz: “olha, você está me machucando”, e ele diz: “o quê? Não, eu não estou. Este negócio de “frio” nem mesmo existe, se existisse eu saberia, eu nunca senti isso. Você está fantasiando. Não está frio aqui. Está tudo bem por causa da pêlo, por causa de patas, porque veja só, você pode enrolar-se em torno desta lâmpada, porque às vezes o meu pratinho com água está muito morno e eu fico de boca calada e lido com isso, obviamente a temperatura não é motivo pra este grande problema que você está trazendo, ademais você nunca teve de lidar com sarna de qualquer maneira, minha vida é tão difícil”.
E então o cão apenas ignora. Porque ele pode. Isso é o privilégio de possuir pêlo, de ser um cão em Ohio. Ele não tem que pensar nisso. Ele não tem de conviver diariamente com o frio. Ele não tem idéia do que está falando, e ele nunca, jamais será forçado a aprender. Ele pode continuar fazendo a lagartixa miserável até o dia que os dois morrerem, e ele nunca irá sofrer por isso para além do leve incômodo diante da reclamação. E ela, por sua vez, começa a tentar não congelar até a morte.
Então, é bem simples: não seja esse cachorro. Se você for heterossexual e um gay diz: “Não intitule seu livro como “Beautiful Cocksucker”, isso é estúpido e ofensivo”, ouça e acredite nele[1]. Se você é branco e um negro diz: “realmente, agora, estamos todos ficando um pouco cansados desses filmes ‘What These People Need Is A Honky’, por favor escreva um filme melhor”, ouça e acredite nele[2]. Se você é homem e uma mulher diz “essa historinha é um exemplo perfeito de por que as mulheres não lêem quadrinhos,” ouça e acredite nela[3]. Talvez você não veja nada de errado com isso, talvez você ache que é apenas um bando de chatos criticando sua visão artística genial, talvez pareça como um carnaval imenso sobre algo que não é tão importante para você. É ÓBVIO QUE NÃO É, VOCÊ “TEM PÊLO”. No entanto, só porque você, particularmente, não pode sentir tais dores, não quer dizer que elas não sejam reais. Tudo isso pode significar que você tem privilégios. Isso não é uma coisa ruim. Você não pode simplesmente ajudar os outros a nascerem com pêlo. Cada um de nós tem algum tipo de privilégio sobre alguém. O que importa é se estamos conscientes disso, e o que nós escolhemos fazer a partir dessa constatação, e não ignorar as preocupações válidas e reais das pessoas que não compartilham das nossas particularidades.
[1] Tal frase remete a um caso específico no qual a autora Barbara Sheridan usou tal título (em inglês, algo como “Um lindo boqueteiro”) em seu livro de temática erótica e personagens gays. Leia mais em: http://bit.ly/oo2NhN
[2] “O que essas pessoas precisam é de um branquelo” é uma expressão que sintetiza um gênero de filmes Hollywoodianos nos quais cabe a um personagem branco, ocidental, o papel de salvar ou resgatar aqueles personagens que representam os colonizados, em geral de outras etnias e culturas e mais pauperizados. Filmes como “Avatar” e “Dança com Lobos” são exemplos de tais alegorias, assim como as novelas de época globais nas quais cabe aos personagens brancos o “favor” de apoiar ou mesmo lutar pelo fim da escravidão dos negros. Tais filmes reproduzem a idéia do protagonismo do branco ocidental frente aos grupos colonizados e/ou subalternizados, negando a estes a possibilidade de serem os protagonistas do próprio destino. Uma discussão sobre essa frase pode ser encontrada nesse post— e nos seus comentários: http://bit.ly/qy7t8z
[3] Diversas críticas já apontaram a inserção erótica e subalterna das mulheres no universo das personagens das histórias em quadrinhos, dificultando inclusive a identificação do público feminino com as histórias e personagens e afastando-o dos quadrinhos tradicionais. Uma dessas análises pode ser encontrada aqui: http://bit.ly/nILQIJ