O bondage japonês pode não ser sexual?
Parece bem claro que ultimamente a palavra Shibari (as vezes até Kinbaku) viraram ‘moda’. Tem sido constantemente compartilhada nas redes sociais, aparece no horário nobre da televisão e até mesmo os esnobes da Vice querem tirar algum lucro disso. Você não precisa mais se esgueirar pela porta dos fundos de sex shops encardidos pra conseguir uma cópia do pornô de Yukimura San para ver imagens de Shibari. Elas estão em todos os lugares. Nunca foi tão fácil de conseguir aulas, achar eventos de cordas por perto ou encontrar potenciais parceiros. É como se o bondage estivesse vivendo uma era dourada para vender workshops e tutoriais online, mas qual é o preço dessa popularidade?
No Japão, o Shibari apareceu como uma prática erótica e de BDSM. E majoritariamente pornô. Na sua essência ainda é. E não é à toa, em uma cultura na qual você precisa esconder seus sentimentos constantemente, ser amarrado e ‘torturado’ permite que você se expresse abertamente e não há nada mais erótico para os japoneses do que expressões faciais reais (bem, talvez fluidos e bundas).
Mas a forma como a palavra Shibari tem sido usada por muitos ocidentais ultimamente mudou. O bondage tem sido mostrado como algo artístico que pertence aos museus, os modelos exigem ficar amarrados sem serem tocados, o bondage de cura é uma coisa que existe agora e tudo se desenvolve de uma forma que o melhor rigger é aquele que atinge a forma mais acrobática com um harness/uma amarração de quadril. Você nem precisa se sentir atraído pelo seu rigger (ou seu modelo)!
Não me entenda mal. Eu respeito o que os outros fazem. Eu não sou contra pessoas assexuais ou pretendo forçar alguém a fazer algo com o qual não se sente confortável. Mas você não pode deletar o desejo e a interação sexuais de outras pessoas apenas porque você assim o quer. É como jogar roleta russa com contato sexual. Alguém, talvez seus parceiros ou estudantes, eventualmente podem se sentir mal com suas próprias emoções e se machucarem. Ou até pior, outros podem tirar vantagem dessa vulnerabilidade. Não deveríamos ensinar que contato sexual no bondage é ok e normal? Que isso PODE ACONTECER? E então decidimos se queremos jogar ou ir adiante com alguém ou não, nós estabelecemos nossos limites. Eu acredito que bem menos acidentes ocorreriam se as pessoas fossem mais conscientes e exigentes com quem elas jogam. Mas não, preferem ensinar que devemos amarrar sem qualquer contato físico.
Por que temos tanto medo de admitir que somos seres sexuais? Que temos desejos, sentimos atração ou rejeitamos pessoas? Admitindo que gostamos e queremos alguém não significa que vamos transar loucamente (às vezes até queremos haha) mas sim que somos honestos com o que queremos e com QUEM queremos. Não tem nada pior no bondage para mim que ser desonesto, e isso vale para modelos, riggers e educadores.
Eu sinto que a essência se perdeu em algum lugar. Eu vi com meus próprios olhos num rope jam duas modelos conversando sobre seus penteados enquanto estavam sendo amarradas (numa sessão, não durante um ensaio). E isso me fez pensar no por quê alguém passaria por esse nível de estresse se nem se importam com a jornada ou com seu parceiro. Eu suspeito que possa ser um problema de ego. Algumas pessoas só querem sempre ser o centro das atenções.
E voltando a usar o Shibari como motivo, eu tenho o a sensação constante de que a forma que ele é usado é apenas mais uma estratégia de marketing. Porque seria bem mais fácil chamar de acrobacias com corda ou yoga com cordas, mas você precisa chamar de Shibari ou Kinbaku para se sentir no direito de promover suas oficinas dentro desta comunidade já popular e fazê-los soar mais exóticos e atraentes para novos clientes. Isso é muito mais fácil do que começar a construir seu próprio caminho, sua própria comunidade, e se esforçar no desenvolvimento de algo novo. Mas talvez possamos falar sobre esse tema outro dia…
fonte original:
https://www.margout.com/kinbaku/where-is-the-problem-on-praising-asexual-shibari/