Liturgia minha doce psicodelia

Análise etimológica e crítica do uso do termo “liturgias BDSM” no Brasil, que é gramaticalmente inviável e historicamente associado a práticas abusivas.

Liturgia minha doce psicodelia

Liturgia, minha doce psicodelia

Texto de Lorde San

Muita gente vai torcer o nariz, mas a verdade é que a liturgia bdsm é uma invenção tupiniquim e vem servindo há anos como desculpa para abusos. É uma psicodelia perpetuada como regra, que ao analisarmos com atenção, vemos que não é a versão brasileira de um protocolo bdsm e sim uma base insana para criação de regras abusivas.

Para entender o porquê de liturgia bdsm ou liturgia pessoal serem uma improbabilidade léxico-gramatical e não uma versão brasileira de protocolos bdsm ou protocolos pessoais, precisamos analisar a etimologia de ambas as palavras:

Liturgia

1. Etimologia

A palavra liturgia vem da língua grega e é composta de dois elementos: leitos, que quer dizer público, e érgein, que significa fazer. Juntando-se estes dois elementos pelo radical e acrescentando-se-lhes o sufixo formador de substantivos, tem-se leit-o-erg-ia ou leitourgia. O primeiro elemento leitos é derivado da palavra léos, forma dialetal de láos, que significa povo. O segundo elemento da palavra é um verbo desusado, mas sobrevivente no futuro érxoi e no substantivo érgon, que quer dizer trabalho. Do substantivo liturgia tirou-se o concreto litourgos ou liturgos — funcionário público, — e o verbo litourgein, — exercer função pública. De láos, — povo, — origina-se laico, laical, leigo. Portanto, liturgia, liturgo, lutúrgico, laico, leigo, laical pertencem a uma mesma família de palavras, pois todos procedem da raiz láos ou léos, povo.

2. Significado

A palavra liturgia se encontra na antigüidade grega com dois significados, — um profano e outro religioso.

a) Significado profano. Em Atenas, liturgia era o serviço públicoexercido pelos cidadãos ricos a suas expensas. Chamava-se liturgoaquele que exercia essa função. Assim, o chorégos, que pagava os cantores nos teatros, o trierarcha, que provia as belonaves do Estado, o gymnasiarcha, que superentendia o gymnasium, eram todos liturgos.

b) Significado religioso. A versão dos Setenta deu o nome de liturgia ao serviço público do templo de Jerusalém. Daí, a palavra veio a ter o significado de função sacerdotal e de serviço ritualístico do templo. Foi este o sentido que prevaleceu e se consagrou na linguagem oficial do Cristianismo.

3. Definição

Portanto, no uso religioso, liturgia é o serviço público oficial da Igreja e corresponde ao serviço oficial do templo na Antiga Lei. Abrange, pois, todo o conjunto de funções oficiais, os ritos, as cerimônias, orações e sacramentos.

“A Sagrada Liturgia, escreve Pio XII, é o culto público que o nosso Redentor rende ao Pai como cabeça da Igreja e que a sociedade dos fiéis rende a seu Fundador e, por ele, ao Pai”. (Enc. Mediator Dei et Hominum, n.17).

Duas são as condições de liturgicidade: não basta que o serviço seja público; é preciso que também seja oficial. Mas esta condição é fácil de reconhecer, pois a Igreja tem os seus livros oficiais e, por isso, só devem ser considerados litúrgicos os serviços cujo rito é regulamentado nesses livros.

Assim, são liturgicos:

A missa, o breviário, a bênção do Santíssimo Sacramento, a procissão de Corpus Christi, as Vésperas, a administração dos sacramentos, a procissão das Rogações, etc.

Não são litúrgicas:

a) As devoções particulares de qualquer espécie, como as três ave-marias de Santo Afonso;

b) As devoções aprovadas ou mesmo recomendadas pela Igreja, mas que não se encontram nos livros oficiais, como, por exemplo, o rosário e a coroinha de Nossa Senhora;

c) As devoções públicas não oficiais, como as procissões da Semana Santa, as peregrinações e outras.

(Texto retirado do livro” A Missa,dogma-liturgia”, do Cônego F.M. Bueno de Sequeira,

com censor e imprimatur de 1949. Ed. Andes)

Protocolo

Na Grécia antiga , um livro era composto por folhas de papiro coladas umas às outras para formar um rolo. A primeira folha desse longo rolo, na qual constavam, como hoje, os dados fundamentais do livro, chamava-se em grego protokollon, palavra formada por proto- (primeiro, inicial) e kollon, forma verbal de kollema (colado um ao outro), derivado de kolla (cola). Ou seja, inicialmente protokollon significou “a folha colada em primeiro lugar” e assim passou ao latim protocollum.

Em espanhol, protocolo aparece desde 1611 com o sentido de “atas de conferência”, normas de cerimonial ou passos a dar em ordem rigorosa para obter um fim determinado. Este último sentido, que também existe no inglês protocol, foi adotado na informática para designar a ordem das tarefas de um computador que, por serem realizadas sem intervenção humana, devem ser planejadas com rigorosa precisão (protocolo de Internet, protocolo de correio eletrônico).

Fonte elcastellano.org

À partir da etimologia da palavra liturgia, entendemos que a sua aplica dentro do BDSM, embora seja gramaticalmente impossível, implicaria em que ela fosse igual para todos os dominadores, e estivesse escrita em forma de documento a ser seguido por todos de igual forma.

Haveria a possibilidade ainda, de ser usada dentro de clãs, onde o ancião criador do clã, cria uma liturgia a ser seguida por todos os membros do clã. Mas não existe jeito ou maneira de se usar a palavra a nível pessoal.

Acredito que devido a forma com que o BDSM se desenvolveu no Brasil, é que adotou-se (burramente) o uso da palavra liturgia para descrever protocolos dentro de uma relação de dominação e submissão.

Aqui tudo começou bagunçado, misturando fetichistas sexuais com goreanos, e ambos com kinksters bdsm, e como em gor, existem regras, protocolos, rituais que foram copiados pelos dominadores da época (já que era a única referência que possuíam), para não serem confundidos resolveram lançar mão de uma palavra que conotasse importância, hierarquia, liderança de TOP para BOTTOM, e acabaram escolhendo burramente a palavra liturgia.

A aplicação dessa palavra é uma psicodelia, é um devaneio perigoso por conta da base de abuso que ela cria. A consensualidade é sublimada de forma velada a partir de protocolos abusivos, amparados, pela importância dada a liturgia. Qualquer sandice é tida como sã e questionar não é um direito da pessoa que se submete, pois não é litúrgico questionar aquilo que o dominante decidiu.

A liturgia garente ao dominante plenos poderes diante do serviente fazendo com que a troca consensual de poder se transforme num “control freak” (transtorno psicológico da mania de controle), o que constitui um abuso.

Desta maneira, dentro da subcultura BDSM brasileira, a maioria dos dominadores são na verdade abusadores com mania de controle, que fazem uso de um conceito que não possui aplicação dentro do contexto, para “blindar” o abuso que cometem.

Por outro lado, temos a palavra protocolo, para definir o conjunto de regras pessoais adotado por um TOP em relação ao BOTTOM.

Pode ser usado a nível pessoal, para descrever rituais, modos de comportamento, etiquetas, negociações, cores e definições de cores para coleiras, procedimentos a serem adotados dentro de reuniões públicas (com práticas fetichistas ou não), atendendo assim todas as necessidades de definição dentro do universo BDSM.

Em todos os países onde o BDSM é praticado, a palavra protocolo é usada dentro da dominação e submissão, exceto no Brasil, onde a palavra é substituída por outra que não possui uma aplicação possível.

Concluindo

A liturgia durante anos tem se prestado a acobertar abusos contra a consensualidade, limitando o estilo de vida a ficar preso dentro do acrônimo, marginalizando tudo que seja diferente de DS (dominação e submissão) e SM (sadismo e masoquismo erótico). Moldando mulheres em objetos sexuais inanimados e sem direitos que não sejam o de proporcionar prazer aos possuidores dos mesmos e limitando fetichismos dentro da subcultura.

Liturgia BDSM não existe de verdade, verdadeiros praticantes possuem protocolos.

Lorde S

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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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