Conflito não é Abuso

Explora a distinção crucial entre conflito interpessoal e abuso, e por que confundir os dois pode ser prejudicial para relacionamentos e comunidades.

Conflito ≠ Abuso no BDSM

Por que confundir essas coisas enfraquece a cena, a ética e a proteção real

O BDSM é um território onde palavras importam. Muito.
Consentimento, abuso, limite, cuidado, poder, responsabilidade — esses termos não são metáforas. Eles são ferramentas éticas, construídas ao longo de décadas justamente para evitar que práticas intensas, simbólicas e emocionalmente carregadas se transformem em violência real.

Por isso, quando conceitos como “tóxico”, “abusivo” ou “violento” passam a ser usados de forma indiscriminada dentro da cena, o dano não é apenas semântico. Ele é estrutural.

Assim como fora do BDSM, dentro da comunidade kink também existe hoje uma tendência preocupante: qualquer desconforto emocional, frustração relacional ou conflito mal resolvido passa a ser nomeado como abuso. O efeito colateral disso é grave: quando tudo vira abuso, nada mais é claramente abuso.

Essa é exatamente a reflexão central que Conflict Is Not Abuse nos convida a fazer — e que se torna ainda mais urgente quando aplicada ao BDSM.

BDSM não é um espaço sem conflito — e nunca foi

Existe uma fantasia perigosa, especialmente entre iniciantes, de que relações BDSM “bem-feitas” são relações sem atrito, sem erro, sem frustração. Isso é falso.

O BDSM lida com poder, vulnerabilidade, fantasia, trauma, desejo e projeção. Conflitos são inevitáveis. Eles surgem:

  • na negociação
  • na quebra de expectativas
  • no aftercare que não acontece como o esperado
  • na diferença de leitura de uma cena
  • na gestão de vínculos contínuos (D/s, M/s, TPE)
  • na frustração entre desejo e limite

Nada disso, por si só, é abuso.

Confundir conflito com abuso dentro do BDSM enfraquece exatamente aquilo que a cena mais preza: negociação, responsabilidade e reparação.

Quando o rótulo “abusivo” vira atalho emocional

É comum ouvir na cena frases como:

  • “Aquele Dom foi tóxico comigo.”
  • “Aquilo foi abusivo.”
  • “Me senti violentado.”

E aqui é preciso muito cuidado: sentir dor emocional não equivale automaticamente a ter sofrido abuso.

📌 Exemplo comum na cena
Um sub entra numa relação D/s esperando mais atenção, validação ou constância. O Dom, dentro do que foi negociado, mantém uma postura mais distante ou funcional. O sub se frustra, se sente rejeitado e, ao invés de nomear isso como dor relacional, chama o Dom de abusivo.

O que houve ali foi sofrimento real — mas não necessariamente abuso.

Segundo Schulman, esse tipo de movimento evita a responsabilidade emocional: a pessoa não precisa olhar para suas expectativas, limites ou necessidades; basta deslocar tudo para o outro como agressor.

No BDSM, isso é particularmente perigoso porque destrói a cultura do diálogo pós-cena, substituindo-a por exclusão, cancelamento ou difamação informal.

Conflito no BDSM é parte da ética — não falha dela

No BDSM ético, conflito não é sinal de que algo “deu errado”.
É sinal de que algo precisa ser elaborado.

Conflitos legítimos surgem quando:

  • uma fantasia negociada não produz a experiência emocional esperada
  • alguém descobre um limite emocional depois da cena
  • há erro de leitura corporal ou emocional
  • o aftercare é insuficiente ou inadequado
  • expectativas implícitas não foram verbalizadas

Isso exige conversa, escuta e reparação, não acusação automática.

Schulman aponta que tratar conflito como abuso impede qualquer possibilidade de transformação. No BDSM, isso significa impedir aprendizado, amadurecimento e refinamento da prática.

A armadilha do “autocuidado” como fuga do conflito

Dentro da cena, uma ideia tem sido usada de forma distorcida: a noção de “autocuidado”.

Sim, autocuidado é essencial.
Não, autocuidado não é:

  • dar ghosting após uma cena intensa
  • bloquear alguém sem explicação depois de uma relação D/s
  • sair de um vínculo acusando abuso sem abrir espaço para conversa
  • usar shunning (isolamento social) como punição moral

📌 Exemplo prático no BDSM
Uma pessoa participa de uma cena de humilhação consensual. Depois, sente vergonha, ambivalência ou queda emocional (sub drop). Em vez de falar sobre isso, corta contato e acusa o Top de ter sido abusivo.

Aqui, o que faltou foi educação emocional sobre drop, processamento e integração da cena — não ética por parte do Top.

Schulman é clara: evitar conflito pode ser, em si, uma forma de violência relacional, porque nega ao outro qualquer possibilidade de escuta, ajuste ou reparação.

Responsabilidade mútua: o coração do BDSM ético

No BDSM saudável, a pergunta central não é “quem errou?”, mas:

  • “O que aconteceu entre nós?”
  • “O que cada um trouxe para essa dinâmica?”
  • “O que pode ser ajustado?”

Essa lógica está alinhada tanto com Schulman quanto com os fundamentos clássicos da cena.

📌 Exemplo clássico
Uma cena de impacto passa do ponto emocional para o bottom, mesmo sem ultrapassar limites físicos negociados. O bottom sente-se emocionalmente exposto demais.

Isso não faz automaticamente do Top um abusador.
Faz do momento um convite à conversa, revisão de sinais, ajuste de ritmo e renegociação.

No BDSM, maturidade não é ausência de conflito — é capacidade de atravessá-lo.

Quando NÃO é conflito no BDSM — e sim abuso

Aqui está o ponto crítico: nem tudo é conflito. E Schulman deixa isso muito claro.

No BDSM, não estamos falando de “zonas cinzentas” quando há:

🚩 1. Violação explícita de limites ou consentimento

  • Ignorar safeword
  • Pressionar alguém a ultrapassar limites já negociados
  • Punir emocionalmente alguém por usar safeword

Isso não é conflito. É abuso.

🚩 2. Uso da dinâmica D/s para controle fora do combinado

  • Isolamento social não negociado
  • Controle financeiro não acordado
  • Decisões sobre vida pessoal sem consentimento explícito

Isso é abuso estrutural de poder.

🚩 3. Gaslighting dentro da cena

  • “Você imaginou isso.”
  • “Todo sub aguenta isso.”
  • “Se você fosse realmente sub, não se sentiria assim.”

Isso destrói a autonomia psíquica do outro.

🚩 4. Ciclo repetido de dano sem mudança

  • Pedido de desculpas seguido da repetição do comportamento
  • Promessas vazias sem ajuste real

Isso caracteriza padrão abusivo, não falha pontual.


Por que essa distinção é vital para a comunidade BDSM

Confundir conflito com abuso:

  • banaliza denúncias reais
  • cria medo de diálogo
  • incentiva cancelamentos em vez de educação
  • empobrece a ética da cena
  • transforma o BDSM em território de vigilância moral, não de responsabilidade

Schulman alerta que, quando tudo vira abuso, recorremos cada vez mais a punição, exclusão e autoridade externa, em vez de cuidado comunitário e resolução responsável.

No BDSM, isso mata a transmissão de conhecimento, a mentoria e a construção de cultura segura.

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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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