Este é um post convidado de Erika McClean.
Há um chicote no meu armário que é uma antiguidade. É do tipo que cocheiros usavam em suas equipes de cavalos ao conduzir uma carruagem. Quando eu fui particularmente má, ou boa, o Mestre desengata aquele brinquedinho da corda em que ele fica pendurado. Esses momentos, em que ele está atrás de mim com o chicote nas mãos, são alguns dos mais estressantes que já experimentei durante as sessões de jogo. É excitante, mas apavorante, esperar pelo movimento do braço dele para trás e pela primeira lambida ardente contra minha pele. Depois de uma sessão com aquilo, sinto uma calma e uma serenidade saciada que praticamente nada mais consegue igualar. Por quê? Existem muitas respostas emocionais e até espirituais para isso. Mas sou forçada a concluir que, no fundo, são as endorfinas.
Então, meus companheiros viciados em adrenalina, chegamos enfim àquela que provavelmente é a mais prazerosa das substâncias naturais do corpo que nós, jogadores de BDSM, adoramos nos encharcar: as endorfinas. Endorfinas não são hormônios; são neurotransmissores. Neurotransmissores (ou NTs, para abreviar) são substâncias químicas no cérebro usadas pelas células nervosas para enviar sinais entre si. A maioria dos outros químicos que mencionei são tanto hormônios quanto NTs, mas a diferença básica entre os dois é que hormônios atuam em todo o corpo, enquanto NTs agem apenas no Sistema Nervoso Central, que inclui o cérebro e a medula espinhal.
As endorfinas liberadas no cérebro reagem com uma parte das células nervosas chamada receptores opioides. É exatamente o mesmo local dos neurônios afetados por drogas como morfina, codeína e afins. Porém, enquanto opiáceos externos como a morfina são altamente viciantes, as endorfinas não são consideradas assim. Você pode pensar que isso é porque substâncias naturais do corpo não são tão potentes quanto as farmacêuticas, mas estaria enganado. Das cerca de 20 variedades de endorfinas no cérebro, pelo menos uma delas (chamada beta-endorfina) é mais potente que a morfina.
As endorfinas têm o efeito maravilhoso de bloquear a dor e ainda proporcionam uma sensação de euforia. Elas também aumentam a sua tolerância à dor assim que começam a agir e diminuem suas inibições emocionais. São as responsáveis pela chamada “euforia do corredor” em maratonistas, mas, vou ser honesta, acho que levar chicotadas é uma maneira muito mais divertida de chegar lá. Os dois maiores gatilhos para a liberação desse “remédio natural” são a dor e o estresse. Durante uma cena, normalmente ambos estão presentes em abundância. Quando a cena termina, aquela calma, a sensação de que sua cabeça está envolta em algodão ou aquela leveza que te faz flutuar (eu costumo dizer que parece que meu sangue virou xarope dourado e cintilante) vêm do barato químico que a dor te proporcionou.
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Outra coisa que talvez você ache interessante é que pode usar isso a seu favor ao planejar uma cena. Se você tem uma tolerância baixa à dor, ou ao menos mais baixa do que gostaria, pode “enganar” seu corpo para liberar endorfinas e assim aumentá-la. Fazer bastante exercício induz a liberação de endorfinas, assim como acupuntura, comer pimentas bem ardidas, meditação, exercícios de respiração e massagens. Saber disso é útil porque, se você está se sentindo carente ou está em um relacionamento à distância, pode recorrer a esses métodos para obter um alívio quando demorar muito entre uma cena e outra.
Ou, talvez, experimentar fazer uma cena em etapas, como quando o dentista passa um anestésico tópico antes de aplicar a injeção de Novocaína. Ao trabalhar em estágios, usando pequenas doses de dor e estresse seguidas de curtos intervalos para permitir que seu corpo produza sua própria versão de “anestesia tópica”, você pode conseguir ultrapassar seus limites muito mais do que o normal. Claro, tenha em mente que uma corrente de endorfinas no sangue é basicamente como estar um pouco chapada e suas habilidades de tomar decisões podem não estar no auge, então é essencial que seu Dom(me) seja sensível a isso.
Existem muitos outros químicos cerebrais importantes para o funcionamento do corpo e que provavelmente desempenham um grande papel em por que fazemos o que fazemos. A dopamina, por exemplo, que é ligada ao “centro de recompensa” do cérebro. São esses elementos que sempre me pareceram os mais relacionados à minha necessidade de Dominação, à minha vontade de me submeter aos pés do meu Mestre. Espero que eles te deem ideias para explorar mais profundamente seus próprios impulsos de submissão.
Erika McLean, do SnugglySubWear.com, se formou na Husson University. Ela vive no Maine com seu marido Dom, três filhos e animais de estimação.