CNC — Consentimento Não-Consensual – Fundamentos, Consentimento e Psicologia

CNC — Consentimento Não-Consensual

Fundamentos, Consentimento e Psicologia

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Verossimilhança • Consentimento Antecipado • Negociação • Safewords • Psicologia

Rape Play • Sleep Play • Struggle Play • TPE • Edge Play • Todos os corpos

Artigo-âncora • Material de referência educacional

Fontes:

Taormino — The Ultimate Guide to Kink (2012) • Wiseman — SM 101 (1996)

Brame — Different Loving (1993) • Hardy & Easton — The New Bottoming Book (2001)

Princess Kali — Enough to Make You Blush (2015) • Lehmiller — Tell Me What You Want (2018)

Mollena Williams-Haas em Taormino (2012) • Shelby Devlin — shelbydevlin.com

Nota do autor

Este texto não é um guia de “como fazer CNC”. Existem dezenas desses na internet, a maioria com as mesmas recomendações genéricas: negocie, use safeword, faça aftercare. Tudo isso é verdadeiro…e insuficiente.

O que proponho aqui é diferente: uma análise em profundidade do que é CNC como definição realista, como o consentimento opera dentro dele, e por que as pessoas o desejam e o que acontece nas camadas fisicas e psicológicas quando o praticam.

Este é um texto para quem quer refletir, não apenas fazer. Porque fazer sem refletir, nesse campo, é o caminho mais curto para o dano.

Cada tema será dividido em blocos, de forma a trazer o conteudo de uma forma mais leve e de melhor compreensão, porem, os blocos se comunicam entre si, para criar um quadro completo, sem uma parte ele tem seu entendimento comprometido, então a leitura total dos blocos é fundamental.

Este material foi construído a partir do cruzamento de fontes autores educacionais da tradição BDSM — Taormino, Wiseman, Brame, Hardy e Easton, Princess Kali — (dos quais falarei em outro posts sobre suas trajetorias dentro da comunidade) e as minhas proprias. Trazendo a experiência prática vivida em comunidade, e com um conceito que proponho como lente organizadora: a verossimilhança.

Se esses conceitos forem úteis para você refletir sobre sua própria prática, terá cumprido seu papel. Se não for, descarte-o e fique com o que lhe serve.

Eu não me responsabilizo pelas palavras dos autores, suas convicções ou vivencias.

O que trago pra esse material é experiência e proficiência de tais autores em minhas proprias pesquisas, praticas e reflexões sobre os temas abordados. Criando um material proprio, a partir do conhecimento que construi em minhas proprias vivencias e da minha parceira e submissa. 

Nota importante:
Este artigo aborda o tema de Consensual Non-Consent (CNC) exclusivamente sob uma perspectiva educativa e dentro dos princípios de consentimento explícito, informado e negociado entre adultos capazes.
CNC, no contexto do BDSM, refere-se a uma fantasia estruturada que envolve acordos prévios claros, limites definidos, mecanismos de interrupção (safewords) e responsabilidade mútua.

Este conteúdo não incentiva, justifica ou normaliza qualquer forma de violência real, coerção, abuso ou prática sem consentimento.

Práticas que envolvam ausência de consentimento real são crime e configuram violência.

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PARTE 1 DE 3

PARTE I — FUNDAMENTOS CONCEITUAIS

O que é CNC, como se manifesta e o conceito de verossimilhança

#CNC #fundamentos #verossimilhança #fantasia #cena #dinâmica

1. O que é CNC — e o que não é

Consensual Non-Consent (CNC) — ou Consentimento Não-Consensual — é frequentemente tratado como sinônimo de rape play. Essa equivalência é um erro conceitual que empobrece a compreensão da prática e gera confusão tanto para iniciantes quanto para praticantes experientes.

CNC não é uma prática. É uma categoria ampla, que engloba múltiplas modalidades de cena e de dinâmica. O que todas essas modalidades têm em comum é um elemento estrutural: em todas elas, existe um acordo prévio em que uma ou mais partes consentem em participar de experiências nas quais o consentimento será,dentro de um enquadramento específico, APARENTEMENTE ausente, suspenso ou removido.

A distinção é sutil mas crucial: o consentimento não é eliminado. É deslocado no tempo. É dado antes, e a experiência posterior incorpora a aparência de ausência de consentimento como parte constitutiva do que foi consentido. Tendo como base fundamental que mesmo durante a pratica, ela não está ausente de fato, apenas está “escondida” pelo veu da cena.

O rape play é uma das expressões possíveis do CNC — provavelmente a mais conhecida e a mais controversa. Mas CNC também inclui cenas de captura e sequestro, interrogatório, coerção psicológica, sleep play (somnophilia consensual), struggle play (resistência física), dentre varias outras estruturas em que o poder de decisão sobre determinadas áreas foi delegado de forma “permanente” ou “retirado” de maneira aparentemente “forçada”.

Tratar CNC como “rape play” é como tratar BDSM como “bater em alguém”. Tecnicamente contém a possibilidade, mas reduz um campo complexo a uma única expressão e geralmente a mais sensacionalista.

Quando alguém diz “eu pratico CNC” sem especificar mais nada, está fornecendo tanta informação quanto alguém que diz “eu pratico esporte”.

Você não sabe se é xadrez ou MMA.

Essa imprecisão não é apenas acadêmica. Tem consequências práticas.

Se um casal diz “queremos tentar CNC” mas cada um está imaginando uma coisa diferente, ela pensando em rough sex com palavras de commando e ele pensando em sequestro simulado, a negociação já falhou antes de começar, porque não estão falando da mesma pratica nem com um mesmo proposito de como obter prazer com ela.

No proximo bloco conversaremos sobre como construer repertorio para abordar, identificar e mapear os subtipos de praticas de CNC.

Até a proxima.

Ass.: Fera


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