BDSM é sobre homens mandarem em mulheres? Desmontando o mito

A ideia de que o BDSM é uma prática de dominação masculina sobre mulheres é um dos equívocos mais comuns — e mais refutados. Um olhar histórico, neurológico e demográfico sobre a realidade da prática.

Resposta direta

Não. Existe o estigma cultural de que há mais dominantes homens do que mulheres no BDSM — a prática real contradiz isso consistentemente. Há muitas mulheres dominantes, muitos homens submissos, pessoas de todos os gêneros em todos os papéis, e switches que transitam livremente entre posições.

O BDSM é sobre o papel que você deseja ocupar e o que te dá prazer — não sobre estereótipos de papéis de gênero. E sua história, que remonta às comunidades leather dos anos 1970, inclui desde o início mulheres, lésbicas e pessoas queer como protagonistas.

De onde vem esse mito?

A associação entre BDSM e dominância masculina tem raízes em múltiplas camadas culturais que se sobrepõem e se reforçam mutuamente.

O mito

“BDSM é o homem no comando — ele amarra, ela obedece. É uma fantasia masculina de controle sobre o corpo feminino.”

A realidade

Mulheres dominantes existem em grande número, tanto no BDSM erótico quanto em relacionamentos com dinâmica de poder estrutural (FLR). A narrativa dominante = homem é um reflexo da cultura, não da prática.

A influência da cultura de massa

A popularização do BDSM nos meios de comunicação — especialmente após Cinquenta Tons de Cinza (2011) — consolidou na imaginação pública a imagem de um homem rico e controlador como figura dominante. O problema: essa narrativa representa uma configuração — heterossexual, com homem dominante — amplificada pela ficção mainstream.

A dupla invisibilidade: cultura e política

Gayle Rubin, em “The Leather Menace” (1982), documenta como comunidades S/M inteiras — incluindo as de lésbicas — sofreram perseguição legal e ostracismo dentro do próprio movimento feminista, forçando-as à invisibilidade por décadas. O ambiente hostil não eliminou as mulheres do BDSM; silenciou-as.

O cérebro não tem sexo: o que a neurociência diz

O mito invoca frequentemente uma afirmação pseudocientífica: a existência de um “cérebro masculino” predisposto ao controle e um “cérebro feminino” orientado à obediência. A neurociência cognitiva contemporânea desfaz essa premissa de forma sistemática.

Gina Rippon, professora emérita de neuroimagem cognitiva da Aston University e autora de Gênero e os nossos cérebros (Rocco Digital, 2021), cunhou o termo neurossexismo para descrever o uso distorcido de dados de neuroimagem para confirmar estereótipos de gênero preexistentes.

“Poucas tragédias podem ser maiores do que a atrofia da vida, o encerramento prematuro de um potencial, por um limite imposto de fora e falsamente identificado como interno.”

— Stephen Jay Gould, epígrafe de Gênero e os nossos cérebros (RIPPON, 2021)

O argumento central de Rippon é que o cérebro humano é profundamente plástico — ele se reorganiza ao longo de toda a vida em resposta às experiências e ao ambiente social. Não há uma arquitetura cerebral fixa determinada pelo sexo biológico. O que existe são cérebros moldados por um mundo social profundamente generificado.

O cérebro mosaico

Em 2015, Daphna Joel et al. analisaram mais de 1.400 exames cerebrais e mapearam 116 regiões cerebrais. Resultado: menos de 6% dos cérebros eram consistentemente “masculinos” ou “femininos” em suas características estruturais. A vasta maioria apresentava um mosaico individual — uma combinação única de características, com ampla variabilidade entre indivíduos do mesmo sexo. Cérebros não são binários. São mosaicos.

O que a pesquisa mostra

Os dados demográficos contradizem consistentemente a narrativa do “homem no comando”. O estudo de Richters et al. (2008), publicado no Journal of Sexual Medicine, encontrou que as motivações para o BDSM são semelhantes entre homens e mulheres — e que mulheres participam em todos os papéis, incluindo como dominantes. Walker e Kuperberg (2018) mostraram que mulheres e pessoas queer frequentemente disruptam o binário dominante/submisso, questionando a própria estrutura binária.

“People with sexual interests in bondage and discipline, sadomasochism or dominance and submission (BDSM) have been seen as psychologically disturbed… data from this study do not support this view.”

— Richters et al. (2008), Journal of Sexual Medicine

O SM lésbico: a organização que o movimento ignorou

Em 13 de junho de 1978, em São Francisco, 17 mulheres fundaram a SAMOIS — a primeira organização lésbica de S/M do mundo. Conforme relata Pat Califia em “A Personal View of the History of the Lesbian S/M Community” (1982), essas mulheres praticavam S/M não apesar do feminismo, mas como parte de uma sexualidade feminina plena, negada e silenciada.

“S/M was a part of women’s sexuality. It was possible to do it and survive.”

— Pat Califia, Coming to Power (SAMOIS, 1982)

Linha do tempo: o SM lésbico organizado

1978

Fundação da SAMOIS em São Francisco — primeira organização lésbica S/M do mundo

1981

Fundação da Lesbian Sex Mafia (LS/M) em Nova York

1982

SAMOIS publica Coming to Power. Gayle Rubin publica “The Leather Menace”

1988

Califia edita The Lesbian S/M Safety Manual — primeiro manual técnico BDSM para mulheres

Femdom: a dominância feminina em perspectiva

O campo da dominância feminina — Femdom — tem uma literatura extensa com décadas de produção intelectual. Alguns títulos centrais:

Lady Green / Janet W. Hardy

The Sexually Dominant Woman

Greenery Press, 1994/1998. Um dos primeiros guias práticos escritos especificamente para mulheres que querem explorar a dominância sexual.

Pat Califia (ed.)

The Lesbian S/M Safety Manual

Lace/Alyson Publications, 1988. Primeiro manual técnico de segurança BDSM escrito por e para mulheres.

Elise Sutton

Female Domination

Explora a dominância feminina como identidade e estilo de vida, indo além do roleplay.

Peter Tupper

A Lover’s Pinch: A Cultural History of Sadomasochism

Rowman & Littlefield, 2018. Rastreia as raízes do BDSM moderno — mostrando como a imaginação sadomasoquista sempre cruzou gêneros, classes e culturas.

Homens submissos: a face invisível do BDSM

Se mulheres dominantes são sub-representadas na narrativa cultural, homens submissos são quase completamente invisíveis. A masculinidade hegemônica associa homens com controle — o que torna o desejo de submissão em homens não apenas estigmatizado externamente, mas carregado de conflito interno. Isso não significa ausência: no FetLife, maior rede social kink do mundo, o número de homens que se identificam como “submissive” é comparável ao de mulheres com a mesma identificação.

“The male submissive is not weak. He is a man secure enough in his masculinity to offer his trust and vulnerability to a woman he respects.”

— Elise Sutton, Female Domination (2006)

Todos os gêneros em todos os papéis

Configurações comuns no BDSM real

M/f — Homem dominante, mulher submissa (a mais visível na cultura mainstream)
F/m — Mulher dominante, homem submisso (Femdom — amplamente praticado)
F/f — Dinâmica lésbica D/s (profundas raízes históricas)
M/m — Dinâmica gay D/s (forte tradição na leather community)
Switch — Pessoas que transitam entre papéis dependendo do contexto

A diversidade de configurações não é uma exceção à regra — é a regra. Não existe uma configuração “padrão” do BDSM que seja mais legítima ou mais representativa que as outras.

O que realmente define os papéis no BDSM?

Se não é o gênero que define quem domina e quem se submete, o que é? A resposta é simples: o desejo. No BDSM ético, os papéis são escolhidos, negociados e reconfiguráveis. Você é dominante porque gosta de liderar — porque isso te dá prazer. Você é submisso porque gosta de entregar o controle — porque isso também te dá prazer.

“The dominant/submissive dynamic is not about gender. It is about trust, power, and the erotic energy that flows between two people who have consciously chosen their roles.”

— Lady Green (Janet W. Hardy), The Sexually Dominant Woman (1998)
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Conclusão

O mito de que BDSM é “sobre homens mandarem em mulheres” é exatamente isso: um mito. É um reflexo de preconceitos culturais sobre gênero e sexualidade projetados sobre uma prática muito mais rica e diversa — construída em grande parte pelas mãos de mulheres que se recusaram a deixar seus desejos serem silenciados.

A neurociência confirma o que a história e os dados empíricos já haviam mostrado: não existe um “cérebro masculino” programado para dominar nem um “cérebro feminino” destinado a submeter. O BDSM é sobre poder — não sobre gênero. É sobre querer, acordar, confiar e entregar — não sobre cumprir expectativas culturais de como homens e mulheres devem se comportar.

Fontes e referências

CALIFIA, Pat. Coming to Power. Boston: Alyson Publications, 1982.
RUBIN, Gayle. “Thinking Sex.” In: VANCE, Carole S. (ed.). Pleasure and Danger. Boston: Routledge & Kegan Paul, 1984.
NEWMAHR, Staci. Playing on the Edge. Bloomington: Indiana University Press, 2011.
RIPPON, Gina. Gênero e Os Nossos Cérebros. Lisboa: Gradiva, 2019.
NORDLING, N. et al. “Differences and Similarities…” Journal of Homosexuality, v. 50, n. 2/3, 2006.
BECKMANN, Andrea. The Social Construction of Sexuality and Perversion. Palgrave Macmillan, 2009.
RICHTERS, J. et al. “Demographic and psychosocial features of participants in BDSM.” Journal of Sexual Medicine, 2008.

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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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