1. A fantasia que virou um mundo
Em 1966, o filósofo e escritor americano John Norman publicou o primeiro romance de uma série que se tornaria uma das mais longas da ficção científica: as novelas de Gor. Com mais de trinta volumes, os livros descreviam um planeta-espelho da Terra onde a humanidade viveria segundo uma “ordem natural” — e nessa ordem, as mulheres existiam para servir. Não como escolha, não como fantasia negociada: como essência, como destino biológico e cósmico.
Até aí, poderíamos tratar isso como o que é: ficção científica de má qualidade, mistura de espada, feitiçaria e orientalismo vitoriano com uma camada grossa de misoginia filosófica. O problema começa quando a ficção deixa de ser ficção. Quando pessoas reais passam a organizar suas relações, identidades e comunidades inteiras em torno dos valores de um universo fictício que afirma que a subordinação feminina não é roleplay — é lei natural.
Este artigo examina esse percurso — das origens orientalistas das fantasias de escravidão à Second Life Goreanista, do sexismo eroticizado aos movimentos masculinistas contemporâneos — para entender onde uma fantasia termina e uma ideologia começa.
2. O universo de Gor: ficção científica, Orientalismo e escravidão erotizada
O historiador Peter Tupper, em sua análise da sadomasoquismo na cultura ocidental (A Lover’s Pinch, 2018), traça uma linha direta entre as fantasias orientalistas do século XIX e o universo de Norman. O Orientalismo europeu produziu um repertório imenso de harens, escravas de olhos claros, sultões cruéis e mercados de carne humana.
“A fantasia do Oriente exótico e erótico perdurou tanto que se tornou um clichê. […] A série Gor transplantou a tradição orientalista para outro planeta, substituindo o Oriente árabe pelo planeta Gor, e os guerreiros árabes pelos ‘homens de Gor’.”
— Peter Tupper, A Lover’s Pinch: A Cultural History of Sadomasochism (2018)
O que Norman fez foi pegar o arsenal fantasioso do Orientalismo vitoriano — a ideia de que em certas culturas, mulheres são naturalmente propriedade — e transplantá-lo para um contexto de ficção científica com uma justificativa filosófica coerente. Em Gor, a submissão feminina não é prática cultural contingente: é derivada de uma “lei natural” quasi-biológica apoiada por uma espécie alienígena superior chamada Sacerdotes-Reis.
O que é o Orientalismo erótico
O termo “Orientalismo”, cunhado pelo crítico Edward Said em 1978, descreve o conjunto de representações com que o Ocidente construiu o “Oriente” como espaço de mistério, excesso e devassidão sexual. Na fantasia erótica, esse repertório se expressou em harens, mercados de carne humana e escravidão erotizada. O universo de Gor é uma versão espacial desse repertório: o Oriente ficou em outro planeta, mas a hierarquia de gênero é idêntica.
3. Do livro à vida: o Goreanismo como estilo de vida
Se Norman criou um universo literário, foram os seus leitores que criaram uma comunidade. O Goreanismo como lifestyle começou a se organizar nos anos 1980, mas foi a internet que lhe deu escala — primeiro nos fóruns e IRC, depois no Second Life. A pesquisa de Tjarda Sixma sobre as comunidades Goreanas no Second Life (2008) identificou um dado perturbador:
“De uma lista de cinquenta SIMs Goreanos, apenas sete tinham regras explícitas sobre consentimento, enquanto nos outros, o aprisionamento não-consensual era uma possibilidade.”
— Tjarda Sixma, The Gorean Community in Second Life (2008), apud Tupper (2018)
Em 86% dos espaços Goreanos pesquisados, a ausência de regras de consentimento era a norma. A “saída do servidor” era o equivalente digital do “se não quisesse, saía” — um raciocínio que, fora do universo virtual, reproduz a lógica dos agressores.
A estrutura hierárquica Goreanista
- Hierarquia é papel negociado
- Qualquer gênero pode dominar ou submeter
- Limites existem e são respeitados
- Safeword é direito irrevogável
- Cena tem início, meio e fim
- A submissão é um dom, não uma obrigação
- Hierarquia é ordem natural permanente
- Dominância masculina é biológica/cósmica
- Submissão feminina é destino, não escolha
- Safeword é incompatível com a filosofia
- 24/7: a escravidão não tem fim de cena
- A submissão é uma verdade, não um presente
4. O consentimento que quase não aparece
No BDSM, o consentimento não é detalhe protocolar: é o fundamento ético que transforma uma interação potencialmente violenta em algo completamente diferente. Os frameworks SSC, RACK e PRICK colocam o consentimento — informado, revogável, entusiasta — como condição necessária para que uma prática seja BDSM e não agressão.
O Goreanismo filosófico, em sua versão mais consistente, não pode acomodar esse framework. Se a submissão feminina é natural, se a kajira existe para servir, o consentimento torna-se conceitualmente impossível — porque uma escrava que tem o direito de recusar não é, por definição Goreanista, uma escrava de verdade.
⚠️ Quando a fantasia se torna armadilha
Algumas comunidades Goreanas oferecem a estrutura da escravidão como solução para inseguranças — especialmente para mulheres jovens. A ideologia fornece identidade (“você é uma kajira por natureza”), comunidade (“seu Mestre te protege”) e roteiro (“é assim que as mulheres deveriam ser”). O problema: a saída da estrutura é apresentada como traição à própria essência, não como exercício de autonomia. Isso é manipulação, não fantasia.
5. Sexismo erotizado: quando a hierarquia vira valor
O que distingue GOR de práticas consensuais de escravidão BDSM não é a intensidade da submissão — é o estatuto ontológico que se atribui à hierarquia. No BDSM, a hierarquia dom/sub é instrumental: serve ao prazer. Na ideologia Goreanista, a hierarquia é constitutiva: ela revela a verdade.
Os pesquisadores Peter Glick e Susan Fiske descreveram, em 1996, dois tipos de sexismo que frequentemente coexistem:
| Dimensão | Sexismo Benevolente | Sexismo Hostil |
|---|---|---|
| Tom | Protetor, cavalheiresco | Depreciativo, agressivo |
| Visão da mulher | “Frágil, pura, precisa de proteção” | “Manipuladora, perigosa, inferior” |
| No Goreanismo | “O Mestre protege sua kajira” | “Mulher livre é aberração” |
| Função | Sedução inicial | Controle e punição |
6. BDSM crítico versus Goreanismo: uma distinção necessária
A comunidade BDSM tem estado em tensão com o Goreanismo desde que as comunidades se tornaram vizinhas na internet. A distinção não é entre pessoas, mas entre dois sistemas filosóficos que se contradizem no fundamental.
| Questão | BDSM consensual | Goreanismo ideológico |
|---|---|---|
| Origem da hierarquia | Negociação entre iguais | Natureza ou ordem cósmica |
| Papel do consentimento | Fundamento ético da prática | Conceito ocidental inadequado |
| Saída possível? | Sim, sempre | Implica negar a própria natureza |
| Identidade de gênero | Qualquer pessoa pode dominar ou submeter | Dominância masculina / submissão feminina como norma |
| Perspectiva crítica | Encorajada | Resistida como “confusão feminista” |
O SAMOIS, fundado em São Francisco em 1978 — a primeira organização de mulheres sadomasoquistas do mundo — surgiu precisamente para defender o BDSM como prática legítima e insistir que o consentimento e a agência feminina eram inegociáveis.
7. No horizonte: Redpill, MGTOW e a nova direita masculinista
O Goreanismo não é o único herdeiro do projeto de naturalizar a dominação masculina. Nos anos 2010, um conjunto de movimentos emergiu nas margens da internet que compartilha com o Goreanismo a premissa central — as mulheres são naturalmente submissas e os homens naturalmente dominantes — mas sem o disfarce da fantasia erótica.
O movimento Red Pill propõe que a “verdade” sobre as relações entre homens e mulheres foi encoberta pelo feminismo. O MGTOW (Men Going Their Own Way) conclui que as mulheres são naturalmente parasitas e manipuladoras, e propõe que os homens simplesmente se recusem a se relacionar com elas.
⚠️ A continuidade ideológica
Goreanismo, Redpill e MGTOW compartilham uma premissa: a hierarquia de gênero não é construída socialmente, mas reflete uma verdade natural ou evolutiva. A diferença é de tom e estratégia: o Goreanismo eroticiza essa premissa, o Redpill a instrumentaliza para “conquistar mulheres”, e o MGTOW a usa para justificar o afastamento total. O ponto de chegada é o mesmo: as mulheres não são agentes autônomas cujas escolhas merecem respeito.
As comunidades BDSM precisam estar atentas ao risco de que sua linguagem — dominação, submissão, escravidão, treinamento — seja capturada por ideologias que retiram dessas práticas o único elemento que as torna legítimas: o consentimento.
“A distinção entre expressão consensual da sexualidade e violação brutal desaparece quando lemos apenas pelo conteúdo temático — quando apenas notamos as imagens de poder em cenários sexuais.”
— Peter Tupper, A Lover’s Pinch (2018)
Este artigo é o primeiro de uma série que pretende examinar os movimentos masculinistas contemporâneos — Redpill, MGTOW, incel culture — e suas intersecções com o universo kink.
8. Conclusão: o que a fantasia revela
Uma pessoa que explora a submissão como papel em uma cena consensual está fazendo algo radicalmente diferente de uma pessoa que afirma que a submissão feminina é a ordem natural do universo. A primeira usa a hierarquia como ferramenta de prazer e crescimento. A segunda usa o prazer como vetor de uma hierarquia que já existiria independentemente do desejo.
O BDSM, em sua melhor versão, é um espaço de subversão: onde homens podem submeter-se, onde mulheres podem dominar, onde a negociação explícita torna visível que todo poder é construído, negociado, e pode ser devolvido quando assim se decide.
Entender essa distinção não é apenas filosoficamente importante. É, para muitas pessoas que entram em contato com essas comunidades, literalmente uma questão de segurança.
Fontes e Referências
- TUPPER, Peter. A Lover’s Pinch: A Cultural History of Sadomasochism. Lanham: Rowman & Littlefield, 2018.
- NORMAN, John. Série Gor (35+ volumes). New York: Ballantine Books, 1966–.
- SIXMA, Tjarda. “The Gorean Community in Second Life.” Journal of Virtual Worlds Research, v.1, n.3, 2008.
- FATE, Artemis. “The Problems of Gor — Part 1.” Alphaville Herald, 27 nov. 2006.
- WILSON, Jeremy. “Behind Gor, a ‘Slave Master’ Subculture of Sexual Deviance.” Daily Dot, 31 mar. 2014.
- SCOTT, Catherine. Thinking Kink. Jefferson: McFarland, 2015.
- GLICK, Peter; FISKE, Susan T. “The Ambivalent Sexism Inventory.” Journal of Personality and Social Psychology, v.70, n.3, 1996.
- SAMOIS (org.). Coming to Power. Boston: Alyson Publications, 1982.
- SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 [1978].
- RUBIN, Gayle. “Thinking Sex.” In: VANCE, C. (org.). Pleasure and Danger. Routledge, 1984.
- WEISS, Margot. Techniques of Pleasure. Durham: Duke University Press, 2011.