Como descobrir o que gosto?

Você chegou ao BDSM e não sabe o que gosta. “Ainda não sei” é uma resposta válida. Este guia mostra como descobrir suas preferências kink sem pressão, com checklists, escrita e comunidade.

Sobre este texto: Adaptado de três artigos do Submissive Guide: “Getting Started at the Kinky Buffet” de Moonlight (2014), “How Do I Know What I Like? I’m Brand New” e “Those First Few Baby Steps into BDSM and Submission” de Luna Carruthers (2010 e 2013). Tradução e adaptação por BDSM Brasil.

A pergunta que todo mundo tem vergonha de admitir

Quando você começa a explorar o BDSM e encontra outras pessoas, uma das primeiras perguntas que alguém vai fazer é: o que você curte? E se a sua resposta honesta for “ainda não sei”, há uma boa chance de que você sinta que precisa inventar alguma coisa, calar a boca ou sair correndo.

Mas “ainda não sei” é uma resposta completamente válida. Ainda mais para quem está começando. A maioria das pessoas experientes já esqueceu que passou pelo mesmo lugar. Este artigo é para você, que está exatamente nesse ponto.

O perigo do buffet kinky

Imagine que o universo BDSM é um buffet imenso que vai de uma ponta a outra de um salão. Há pratos que você já conhece, outros que nunca imaginou existir, e uma variedade que vai de coisas suaves a coisas que fazem você franzir o cenho.

Prato 1: a abordagem ansiosa

Você começa pela primeira extremidade e pega um pouco de tudo porque tudo parece incrível. Empilha o prato até a borda, senta, e começa a devorar. Rápido demais. Os sabores se misturam, o estômago começa a reclamar, e você não consegue mais dizer exatamente o que comeu ou o que gostou.

Prato 2: a abordagem consciente

Você caminha pelo buffet inteiro primeiro, sem colocar nada no prato. Só olha. Depois volta e escolhe dois ou três itens que despertaram sua curiosidade. Come devagar, presta atenção em cada sabor, e sabe exatamente o que vai querer pedir da próxima vez, e o que definitivamente não vai.

No BDSM não é diferente. A tentativa de absorver tudo o mais rápido possível deixa você confusa, sem saber o que gostou, e sem conseguir aprofundar nada.

O fenômeno de querer saber tudo imediatamente e se envolver em tudo ao mesmo tempo tem um nome na comunidade: sub frenzy. É real, é comum, e vale conhecer antes de cair nele.

O período de iniciação: o que realmente acontece

Algumas coisas importantes sobre o período de início:

  • Ninguém tem todas as respostas. Nenhuma pessoa pode dizer como sua experiência vai ser ou como seu relacionamento vai funcionar.
  • As definições não precisam ser resolvidas agora. Esses termos são emoções e comportamentos antes de serem categorias fixas.
  • Experiência não é o mesmo que expertise. Alguém com três meses de exploração intensa e reflexiva pode ter mais clareza do que alguém que passou anos sem se aprofundar.

Como descobrir o que você gosta: ferramentas práticas

1. Listas de atividades BDSM

Uma lista de atividades (BDSM checklist) é um documento que reúne dezenas ou centenas de práticas kink com um sistema de classificação. São ferramentas de autoconhecimento, não formulários de contrato. Leia com curiosidade, não com pressão.

2. Escreva suas fantasias

O que te deixa excitada? Escreva sem censura. As fantasias são um mapa do que sua mente considera desejável. Uma abordagem prática: pegue um caderno e responda: que tipo de dinâmica de poder aparece nas minhas fantasias? Sou eu que entrego o controle ou que o tomo? Que emoções estão presentes?

3. Leia, assista, converse

Livros de não-ficção sobre BDSM, ficção erótica kink, fóruns de discussão, grupos online: cada um desses recursos pode ajudar a clarear o que te atrai e o que não te atrai.

4. Comunidade presencial

Munches são encontros sociais de pessoas kinky em ambientes comuns, como cafeterias ou restaurantes. Não há cenas, não há julgamento, e há quase sempre alguém que passou exatamente pelo que você está passando agora.

Digerir é tão importante quanto consumir

Uma das habilidades mais subestimadas no início é a capacidade de parar e processar o que você está aprendendo. Escrever é uma forma poderosa de fazer esse processamento. Com o tempo, você vai perceber padrões que sua mente consciente talvez não consiga ver de imediato.

“Pode ser que você não goste de couve de bruxelas nas primeiras cinco vezes e encontre ela preparada de um jeito diferente de repente não está tão ruim. O mesmo acontece com o kink.” (Moonlight, Submissive Guide)

Você está aprendendo sobre você mesma

O BDSM é um espelho. Dê a si mesma a permissão de ser iniciante, de mudar de ideia, de não saber ainda. Esse é o estado certo para começar.

Fontes

  1. MOONLIGHT. “Getting Started At the Kinky Buffet”. Submissive Guide, 2014. Disponível em: submissiveguide.com. Acesso em: jun. 2026.
  2. CARRUTHERS, Luna. “How Do I Know What I Like? I’m Brand New”. Submissive Guide, 2013. Disponível em: submissiveguide.com. Acesso em: jun. 2026.
  3. CARRUTHERS, Luna. “Those First Few Baby Steps into BDSM and Submission”. Submissive Guide, 2010. Disponível em: submissiveguide.com. Acesso em: jun. 2026.
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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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