A Origem da Educação BDSM no Brasil — Parte 2

HISTÓRIA DO KINK · BDSM Brasil A Origem da Educação BDSM no Brasil Parte 2 — “Sadomasoquismo erótico” vira subcultura (1986–1995) Por BDSM Brasil · 2026 Série: A Origem da Educação BDSM no Brasil. A Parte 1 cobriu os anos 1960–1985: Wilma Azevedo, a ABS e o Fantasy Club. Esta Parte 2 acompanha como o…

Série: A Origem da Educação BDSM no Brasil. A Parte 1 cobriu os anos 1960–1985: Wilma Azevedo, a ABS e o Fantasy Club. Esta Parte 2 acompanha como o sadomasoquismo erótico passou de rede informal de leitores para subcultura organizada, entre 1986 e 1995.

Em dezembro de 1992, cinco pessoas entraram num bar chamado Dom Quichoppe, em São Paulo. Nenhuma delas sabia que estava fundando a primeira organização brasileira com função educativa estruturada voltada ao sadomasoquismo.

Mas para chegar a esse momento, é preciso entender o que aconteceu nos seis anos anteriores, e o que acontecia naquele mesmo ano no cinema, nas lojas de disco e nas danceterias paulistanas.


O SM e as redes de liberação sexual

A pesquisa de Regina Facchini (Unicamp) revela uma conexão que não é óbvia: entre os praticantes de sadomasoquismo erótico dos anos 1970 e 1980 e as redes de ativismo feminista e homossexual que emergem no mesmo período da abertura política. Não é uma relação de identidade, mas de proximidade e circulação.

Segundo Facchini e Machado (Cadernos Pagu/Unicamp), entrevistas com praticantes indicaram “conexões entre redes de ativistas feministas, ativistas homossexuais, engajados na luta contra a ditadura militar no período da abertura política no Brasil e a participação em grupos de reflexão ou publicações voltados para a ampliação dos limites das condutas sexuais tidas como aceitáveis.”

Isso tem uma consequência prática importante: o vocabulário do SM no Brasil — mesmo o de Wilma, informal e baseado em experiência, não em teoria — se desenvolve num ambiente em que ideias como consentimento, autonomia sexual e recusa à patologização já circulam.

É nesse ambiente de efervescência, e não a despeito dele, que o sadomasoquismo erótico brasileiro dos anos 1980 constrói sua primeira linguagem de legitimidade.

Os classificados como pedagogia informal (1983–1992)

Na ausência de internet, grupos presenciais estáveis ou bibliotecas especializadas, a educação BDSM brasileira acontecia por dois canais paralelos: os textos de Wilma e os classificados em revistas eróticas como Internacional, Ele & Ela e Fiesta.

A dinâmica era lenta e cara. Quem buscava parceiros para práticas SM comprava a revista, enviava anuncio e aguardava meses até vê-lo publicado. O contato subsequente era feito por caixa postal. A compilação histórica do Desejo Secreto descreve esse processo como “achar uma agulha num palheiro.”

Mas esse sistema cumpria uma função educativa real. Ao circular anuncios, cartas e relatos entre praticantes dispersos pelo país, criava um conjunto de informações partilhadas. Wilma funcionava como nó central dessa rede: cada leitóra que se reconhecia num conto descobria que não estava sozinha. Esse reconhecimento é a base de qualquer educação comunitária.

1992: o SM vai ao cinema, ao disco e às danceterias

Em 1992, algo muda na visibilidade cultural do SM. A compilação do Desejo Secreto registra o ano como aquele em que “uma onda de SM inundou a cultura”: Instinto Selvagem, Gemidos de Prazer e Lua de Fel chegavam aos cinemas; Madonna lançava o álbum Erotica e o livro Sex, carregado de estética SM.

Wilma descreve: “Toda essa explosão cultural de ideias SM repercutiu no ano seguinte. Em 93, as danceterias paulistanas começaram a exibir uma onda light com referência ao tema.”

Esse momento é importante porque altera o terreno em que o discurso de legitimação opera. Quando o SM aparece no cinema comercial, fica mais difícil mantê-lo no código da “perversão”.

O SoMos nasce de um bar em São Paulo (dezembro de 1992)

Em 9 de dezembro de 1992, cinco pessoas se encontraram no bar Dom Quichoppe, em São Paulo. Uma delas era Cosam Atsidas, o mesmo que havia tentado fundar a ABS em 1983. Outra era SaMara, que viria a ser a Mistress Bárbara Reine.

Esse encontro deu origem ao SoMos, o primeiro grupo estruturado com função educativa explícita no universo SM brasileiro. A compilação do Desejo Secreto descreve Bárbara Reine como a “pioneira que encabeçou o grupo SoMos, agregando praticantes e atuando com propósitos educativos promovendo munches e posteriormente workshops sobre diversos temas de interesse da comunidade.”

O SoMos introduz no Brasil dois formatos já existentes na cena norte-americana e europeia:

  • Munch: encontro informal em local público para socialização entre praticantes sem a pressão de uma “cena”. Serve como porta de entrada para iniciantes.
  • Workshop: sessões educativas sobre técnicas, segurança, negociação e práticas específicas. Transforma o conhecimento tácito em conteúdo transmissível.

O SoMos ficou ativo por cerca de dez anos, até meados de 2002, operando em São Paulo e ocasionalmente no Rio de Janeiro.

O SoMos faz com o BDSM o que grupos de consciêntização feministas fizeram com outras identidades: cria um espaço onde a experiência individual se torna conhecimento coletivo.

BBS, mIRC e a chegada da internet (1993–1995)

Enquanto o SoMos consolidava sua presença presencial, uma nova infraestrutura começava a mudar as possibilidades de conexão. A compilação do Desejo Secreto registra que ferramentas como Videotexto/VTX, BBS e mIRC “aceleraram as interações e ajudaram a consolidar uma comunidade SM/BDSM organizada no Brasil, quando a internet ainda engatinhava.”

Esse momento de transição é quando o vocabulário começa a mudar. O termo “sadomasoquismo erótico” começa a conviver com o acrônimo BDSM, que chegava pelos canais digitais anglofônos. Junto com a sigla chegavam outros termos: top, bottom, dom, sub, safeword, SSC.

A Parte 3 desta série trata da transição de nomenclatura, da chegada do acrônimo BDSM ao Brasil e do que mudou quando a comunidade brasileira encontrou a cena internacional pela internet.


O que essa fase nos diz sobre educação kink

Entre 1986 e 1995, a educação BDSM brasileira passa de rede dispersa de leitores para conjunto de espaços de encontro. O SoMos mostra que o modelo educativo baseado em encontros presenciais e workshops é viável no Brasil, mesmo sem recursos. E a chegada das primeiras ferramentas digitais coloca em movimento uma mudança na linguagem que vai redefinir toda a geração seguinte.

Fontes

  1. FACCHINI, Regina; MACHADO, Sarah Rossetti. Do Sadomasoquismo Erótico ao BDSM. Cadernos Pagu, Unicamp.
  2. AZEVEDO, Wilma. Sadomasoquismo sem Medo. São Paulo: Iglu, 1998.
  3. Site Desejo Secreto. Compilação histórica organizada por Equina Nur de ALUCARD, 2019–2020. Arquivado no projeto BDSM Brasil.
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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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