Reflexão · Shibari · Comunidade · BDSM Brasil
Encontre Alegria em Ser Iniciante pelo Maior Tempo Possível
ou: Abraçando a Mente do Principiante
por LennartZwielicht · BDSM Brasil
Em minha experiência como treinador (dois esportes), professor e instrutor de corda, observei frequentemente uma urgência desesperada de superar o rótulo de ‘iniciante’ o mais rápido possível.
Muitas pessoas sentem inadequação simplesmente por serem novas. Esta pressão sufoca a excitação pura de explorar algo novo. Leva a uma mentalidade onde aparecer experiente se torna mais importante do que realmente construir a fundação necessária para o verdadeiro domínio.
- Está tudo bem não ser “bom” (ainda): Curiosidade é o ato de se interessar por aspectos do mundo que você ainda não entende. Para ser curioso, primeiro precisa admitir que não sabe.
- O Ego é o obstáculo: Sentir vergonha de ser iniciante não é um reflexo das suas habilidades; é um reflexo de um ego inseguro.
- O perigo da pressa: Se você se apressa para parecer experiente, começará a pular o básico “entediante”. Mas é exatamente nessas perguntas e nesse básico que o verdadeiro domínio nasce.
- Liberdade na humildade: Pensar em si mesmo como iniciante oferece a liberdade máxima: a liberdade de falhar, experimentar e ser surpreendido.
1. Abraçando a Mente do Principiante (Shoshin)
Tinha 19 anos quando fui apresentado ao conceito de Shoshin (初心), ou “Mente do Principiante”, através da meditação Zen. Foi uma revelação. Popularizado no Ocidente pelo mestre Zen Shunryu Suzuki em seu livro Zen Mind, Beginner’s Mind, sua aplicação prática vai muito além do zafu de meditação.
No estado de Shoshin, você aborda cada situação como se a estivesse encontrando pela primeira vez. Paradoxalmente, quanto mais próximo de um “nível de especialista”, mais disciplina é necessária para manter essa mentalidade.
Para cultivar a Mente do Principiante:
- Substitua Julgamento por Curiosidade: Em vez de rotular instantaneamente uma experiência como “boa” ou “ruim”, simplesmente pergunte: “O que é isso?”
- Reconheça o Infinito: Sempre há uma camada mais profunda de compreensão disponível, independente do seu rank ou anos de experiência.
- Cultive o “Eu Não Sei”: Quando alguém explica algo que você acha que já entende, resista ao impulso de dizer “Ja sei.” Escute com ouvidos frescos.
- Foque no Processo, Não no Pico: Em práticas como Shibari ou Tantra, afaste-se de perseguir um resultado específico. Ancore seu foco inteiramente na sensação imediata.
2. Identifique e Entenda a Insegurança do Ego
O ego raramente diz “Estou com medo.” Em vez disso, fala a linguagem da impaciencia e da comparação. Você pode identificar a interferência do ego quando sente:
O Impulso de Performar: Do Ser para o Mostrar
Em um ambiente de aprendizado, o ego desloca seu foco da experiência interna para a aparência externa. Você se encontra se perguntando “Pareço que sei o que estou fazendo?” Você começa a “representar” o papel de um rigger em vez de realmente ser um. Sua consciência somática se fecha. A sessão se torna uma performance em vez de uma conexão profunda.
O Reflexo “Já Sei Isso”: A Armadura do Conhecimento
Esta é a barreira mais perigosa ao crescimento. Quando um professor oferece uma dica fundamental, o ego imediatamente reage com: “Já sei isso, só estava fazendo diferente desta vez.” Você para de ouvir antes de a frase terminar. A maestria não é encontrada aprendendo 1.000 coisas diferentes; é encontrada vendo as 1.000 camadas diferentes dentro de um único movimento básico.
A Armadilha da Comparação: A Escala Injusta
O ego prospera na hierarquia. Ele escaneia constantemente a sala para ver onde você “se classifica”. Você olha para a pessoa no próximo tapete que pratica há uma década e sente uma pontada de vergonha. Para fechar a lacuna entre seu Dia 10 e o Ano 10 dela, você tenta pular para padrões avançados — o que leva ao “mal estar técnico”: fazendo coisas complexas mal porque nunca se permitiu ser um iniciante desajeitado.
3. A Arte da Dissolução do Ego: De Defesa para Presença
Exponha o Segredo: O Poder de Nomear
O ego prospera na escuridão. Quando se sentir sobrecarregado, confuso ou “desajeitado”, quebre o fôlego nomeando a insegurança em voz alta: “Estou me sentindo um pouco sobrecarregado agora” ou “Estou lutando para sentir a conexão porque estou preocupado em acertar esse nó.”
Redefina “Especialização”: Presença Sobre Informação
Veja o “Mestre” não como alguém que sabe tudo, mas como alguém que é o mais presente. Um verdadeiro mestre é simplesmente um iniciante que nunca desistiu e que falhou tantas vezes que o fracasso perdeu sua “ferroada”.
“Eu não sei como te amarrar. Sei como manusear corda e conheço variações de padrões que funcionam para diferentes pessoas, mas temos que descobrir juntos o que funciona especificamente para você.”
Celebre o Momento Desajeitado: O Humor como Arma
O ego é incrivelmente sério. Quando um nó escorrega, quando você perde o equilíbrio numa semi-suspensão — sorria para isso. Um erro só é um “fracasso” se o ego consegue narrá-lo. Se você encontra o erro com humor interno, priva o ego do drama de que precisa para sobreviver.
O Turno do “Serviço”: Dissolvendo o Eu
Em Shibari, pergunte-se: “O que a corda precisa agora? Como a pele do meu parceiro está reagindo? Onde está a respiração dele?” Quando você está verdadeiramente a serviço do momento, o “Eu” desaparece. Não há espaço para o ego sentar em seu trono quando todo o seu ser está ocupado ouvindo a corda, a respiração e a alma do outro.
4. Encontre a Tribo Certa: Protegendo o Ecossistema do Seu Crescimento
Afaste-se do Elitismo: O Red Flag do “Guarda”
Quando alguém trata você com desrespeito ou zombaria porque lhe falta experiência, estão revelando suas próprias limitações, não as suas. Gatekeeping quase sempre é um sinal de insegurança profunda. Se você sente que precisa “ganhar” o respeito humano básico através do domínio técnico, está na sala errada. Vá embora.
Ambientes elitistas não produzem mestres; produzem imitadores arrogantes.
Verdadeiros Especialistas São Pontes, Não Muros
Um verdadeiro mestre não esqueceu como era lutar com o primeiro nó. Uma comunidade saudável é aquela que venera o iniciante, porque o iniciante traz a energia fresca que mantém a comunidade viva. Procure mentores e colegas que valorizam sua curiosidade mais do que seu nível de habilidade atual.
Questione a Hierarquia
Você encontrou uma comunidade que curte. Ótimo. Mas nunca seja “leal” a um grupo apenas porque faz você se sentir em casa. Questione a hierarquia. O cronograma de workshops faz sentido para você? Eles te dão a liberdade de criar seu próprio caminho? Te empoderam para jogar com as técnicas ensinadas, ou exigem que siga estritamente sua autoridade?
Em Shibari, enfrentamos um problema estrutural: muito do que é ensinado tem raízes na indústria adulta, onde as performances são projetadas para um certo visual. Você provavelmente não está fazendo isso por negócios; está fazendo por alegria própria. Pode certamente aprender com a experiência técnica desses mestres, mas é sábio manter uma mentalidade crítica e adaptar essa expertise aos seus interesses privados.
5. Você Não Precisa Se Tornar um Mestre para Experienciar Alegria
Aprecie a conexão que é capaz de experienciar agora, neste momento. Isso é suficiente. De fato, pode ser suficiente para sempre.
Pense assim: Você pode ser um dançarino que nunca aprende mais do que alguns passos básicos, mas ainda assim tem a vida da festa em cada evento. Não precisa ser prima-bailarina para sentir a música.
O mesmo se aplica à sua prática. Em Bondage: pode experienciar uma conexão profunda usando apenas técnicas básicas sem nunca fazer um padrão elaborado — e ainda assim encontrar total realização no momento compartilhado. Em Tantra: pode ser um praticante profundamente respeitoso simplesmente estando plenamente ciente do que seu parceiro precisa neste exato segundo.
6. A Mente do Principiante da Perspectiva do Bottom
É fácil focar principalmente no Rigger ao discutir a Mente do Principiante. Mas Bottoms podem igualmente cair na armadilha de querer demais, cedo demais. Quase metade das vezes que tenho que acalmar casais em workshops, a força motriz por trás da pressa vem do Bottom.
Se um Bottom foca apenas na “próxima grande coisa”, perde a profundidade profunda do que está acontecendo agora. Para o Bottom, a Mente do Principiante significa:
Liberar a Performance: Liberdade da “Resposta Perfeita”
O ego do Bottom frequentemente se manifesta como o desejo de ser o “modelo perfeito”. Você pode sentir uma pressão subconsciente de mostrar ao parceiro que a técnica dele está funcionando, levando-o a exagerar suas reações. Você “perfoma” euforia, luta ou imobilidade porque pensa que seu parceiro precisa dessa validação.
“Enquanto você está performando, não pode verdadeiramente sentir a conexão potencial.”
A Abordagem Shoshin: Reconheça que não deve ao parceiro uma reação teatral específica. A verdadeira intimidade acontece quando você para de agir. Se uma sensação é sutil, deixe-a ser sutil. Ao liberar a necessidade de performar, permite que você e seu parceiro se conectem com o eu real, não com um personagem que está interpretando.
Feedback Somático Honesto: A Sabedoria da Pele
Focar na meta (por ex., “Quando finalmente subimos?”) cria uma tensão mental que te puxa para fora do corpo e para o futuro. A Abordagem Shoshin: traga toda a sua curiosidade para o contato presente. Como o atrito da fibra natural parece contra sua pele agora? Como a temperatura muda? Em vez de empurrar pela complexidade, encontre a profundidade infinita dentro de um nó simples.
Protegendo o Processo do Rigger
Aprender a amarrar é uma tarefa cognitiva de alto risco. O Rigger está gerenciando física, segurança e estética ao mesmo tempo. Quando o Bottom empurra por mais, frequentemente sobrecarrega a capacidade do Rigger. A Abordagem Shoshin: Entenda que é o co-criador do ambiente de aprendizado do Rigger. Ao permanecer paciente e satisfeito com o “básico”, dá ao parceiro o presente do tempo.
Conclusão
Em última análise, a “Mente do Principiante” não é um estágio que se deixa para trás, mas um santuário que deve ser ativamente protegido. O verdadeiro domínio em Shibari, Tantra ou qualquer prática profunda não reside na complexidade do padrão, mas na qualidade da sua presença.
Quando paramos de performar e começamos a ser — quando valorizamos o momento quieto, desajeitado e honesto acima da fachada polida — finalmente abrimos a porta para a conexão genuina. Então, dê-se permissão de ser “ainda não” um especialista. Mantenha-se curioso, mantenha-se vulnerável, e encontre alegria em ser iniciante pelo maior tempo possível.
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