Meus Erros Espero que Não Se Tornem os Seus

Sete lições aprendidas ao longo de uma jornada no BDSM: o que fica online, subfrenzy, safewords, maçãs podres, valores sagrados, amor e o efeito Dunning-Kruger.

Iniciantes · Segurança · BDSM Brasil

Meus Erros Espero que Não Se Tornem os Seus

por Fransisca · BDSM Brasil

Texto de Fransisca — traduzido e adaptado pelo BDSM Brasil. Uma reflexão honesta sobre sete lições aprendidas ao longo de uma jornada no BDSM — compartilhada com a esperança de que outros possam aprender sem precisar cometer os mesmos erros.

Com este texto quero compartilhar algumas lições que aprendi desde o início da minha jornada até agora. Essas lições são baseadas em minhas experiências pessoais. O motivo pelo qual quero compartilhá-las é que acho que alguns poderão aprender com meus erros e, espero, não cometer os mesmos. Não quero apresentar meus raciocínios como verdade ou fatos — alguns podem não concordar com o que vou escrever, e tudo bem. Para outros, pode ser muito útil, e é tudo que quero alcançar.

As sete lições:

  • Lição 1: o que vai pra internet, fica na internet
  • Lição 2: subfrenzy
  • Lição 3: safewords são ok!
  • Lição 4: toda comunidade tem suas maçãs podres
  • Lição 5: meus 5 valores sagrados
  • Lição 6: o amor existe
  • Lição 7: o efeito Dunning-Kruger

Contexto

Comecei minha jornada no BDSM online. Estava imensamente intrigada com o BDSM (que eu achava ser apenas bondage simples e ceder controle, sem considerar o aspecto de confiança e conexão numa dinâmica — inexistente na minha visão na época). Era adolescente, sabia que não podia pedir a algum colega aleatório para tentar isso comigo, então recorri ao mundo online.

Começou com algumas experiências sexuais (das quais me arrependo, certamente porque nem sempre fui cuidadosa o suficiente) com pessoas em sua maioria mais velhas. Depois conheci alguém, também mais velho, que queria me ensinar os truques. De certa forma fui muito sortuda em tê-lo conhecido, porque como novata extremamente ansiosa por experiência online, poderia ter ido muito pior do que foi. Ele me ensinou tudo e era o “cara perfeito” — estabeleceu o padrão do que eu queria num Dominante na vida real: mais velho, estrito, com uma aura dominante, muito experiente.

Lição 1
O que vai pra internet, fica na internet

Embora relacionamentos online possam funcionar, e tenham definitivamente me ajudado a crescer e me descobrir, é perigoso. A quantidade de babacas e manipuladores que encontrei é incrível. Muito poderia ter dado errado. Cometi erros estúpidos como compartilhar meu nome completo real, tirar fotos e vídeos comprometedores com meu rosto. Fiz isso porque me sentia sozinha no mundo real com meus interesses e queria explorar.

O ponto que quero fazer é: mesmo que relacionamentos online sejam divertidos e emocionantes, cuidado com o que você compartilha. Nunca com o rosto, raramente com nome real, e nunca compartilhe sua localização.

Lição 2
Subfrenzy

Após alguns anos de treinamento online, achei que sabia tudo e estava pronta para dar meus primeiros passos no mundo real. Queria finalmente sentir o que era ser submissa e focar em dor. Era ansiosa para começar minha jornada nesse mundo todo novo que descobri.

Essa fome — essa necessidade — de finalmente tentar algo na vida real, combinada com minha idade jovem (19 anos), ser novata e ter um corpo objetivamente atraente, significava que eu era presa não apenas online, mas também nos munches que frequentava.

Quando você finalmente tem algo que ansiou por muito tempo ao alcance, toda racionalidade vai embora. É precisamente sobre o que quero alertar. Minha primeira sessão com meu mentor foi num quarto de hotel com minha fixada em uma Cruz de Santo André. Nada ruim aconteceu e ele foi respeitoso — MAS a quantidade de perigos em que me coloquei por causa da frenzy… Eu, com 19 anos, amarrada num quarto de hotel com alguém que tinha controle total sobre mim. Ele poderia ter me abusado, ultrapassado meus limites, feito coisas que me teriam deixado destruida por anos.

Por isso recomendo sempre ir primeiro a clubes e espaços públicos: construa essa conexão, não apresse as coisas, preencha um formulário de BDSM (ambas as partes), observe outros casais e suas dinâmicas.

Lição 3
Safewords são ok!

Não quero envergonhar minha primeira dinâmica — fui eu quem implorou para começar. Sou uma people pleaser, certamente naquela época em que me sentia uma novata enorme e tudo que queria era agradar. Queria agradlo e estar no meu melhor comportamento. Isso não é absurdo de querer, mas nesse caso foi um pouco perigoso — porque me levou a nunca ousar dizer minha safeword. A única vez que ousei dizer foi “laranja” (não VERMELHO) porque não queria decepcioná-lo.

Tanto o sub quanto o Dom têm TODO O DIREITO de dizer vermelho e parar a sessão a qualquer momento. Isso eu sabia, mas não queria reconhecer ao mesmo tempo.

Uma dica prática: algumas pessoas praticam as safewords durante o jogo para mostrar o que realmente significam. Vermelho é parada total com comunicação sobre o que deu errado. Laranja é uma pausa durante o jogo. Trabalho com vermelho, laranja e verde (o sistema de semáforo), mas cada dinâmica tem suas próprias safewords.

Lição 4
Toda comunidade tem suas maçãs podres

Após o fim desse relacionamento, senti imediatamente falta da rush de ser submissa de alguém. Tinha uma imagem utópica da comunidade — acreditava firmemente que todos no BDSM eram abertos, honestos, valorizavam comunicação, confiança e respeito. Enquanto certamente não quero trazer vergonha à comunidade que adoro, aprendi que, assim como no mundo real, o mundo BDSM também tem algumas maçãs podres.

Tive três instâncias onde coisas não ok aconteceram comigo durante jogos/dinâmicas. A primeira: meu mentor ultrapassou um limite que havia estabelecido. A segunda: meu segundo mentor mentiu sobre questões importantes após um bom início. A terceira (recente): fiz um jogo casual com alguém num evento que nunca discutiu limites nem safewords antes da cena — e os ultrapassou.

Limites são cruciais e devem ser respeitados absolutamente. Exige muito autoconhecimento reconhecer quando os limites são cruzados, e ainda mais coragem para confrontar as pessoas — mas é algo que você TEM QUE FAZER pela sua própria segurança.

Lição 5
Meus 5 Valores Sagrados

Um relacionamento não é só bondage e tapas — é muito mais. Construir confiança, se comunicar, respeitar os desejos e necessidades uns dos outros, respeitar limites, ser aberto sobre o que você quer ou não quer. Diria que essas coisas são ainda mais importantes numa dinâmica do que a “ação” em si.

Meus 5 valores sagrados: confiança, abertura, honestidade, comunicação e respeito. Há variantes desse conceito: os 3 Cs (clareza, consistência, compromisso). Contanto que use algo semelhante em cada dinâmica, todos os cinco precisam estar presentes para que qualquer dinâmica tenha uma chance de sucesso.

Lição 6
O Amor Existe

Por sorte ou destino, conheci meu ex-namorado pelo FetLife. Alguém da minha idade, completamente novo no mundo, sem experiência e muito introspectivo e tímido. Começamos como amigos já que nenhum de nós queria um relacionamento. Eu o introduzi no mundo, incuti meus 5 valores nele, o levei a muitos eventos. Uma coisa levou à outra e sem perceber lentamente nos apaixonamos.

Esse relacionamento me fez perceber muitas coisas. Comunicação é a chave de tudo. Me sentia confortável usando minhas safewords. Ele nunca me julgaria. Intimidade e aftercare são importantes! Erros e momentos awk acontecerão, mas eu não tinha medo disso com ele.

Ele me fez perceber que às vezes você precisa abrir seus olhos e não se fixar tanto no que acha que quer. É completamente aceitável estar com alguém que absolutamente não é o que esperava, contanto que você esteja confortável e feliz.

Lição 7
O Efeito Dunning-Kruger

Alguém me apresentou o “efeito Dunning-Kruger” num munch jovem. Posso me relacionar 100% — parece uma ilustração da minha jornada BDSM num gráfico.

Primeiro a fase de descoberta, muito empolgante. Seguida pela minha pesquisa e exploração online do que o BDSM realmente significava. Depois a percepção de que o BDSM é muito mais do que apenas impact e boa comunicação — a fase de “há mais nisso do que eu pensava”. E agora estou ciente de que meu conhecimento é mínimo, e há muito mais que aprendo todo dia. É uma jornada de aprendizado sem fim!

Conclusão

Estou falando de todos os erros que cometi, mas também aprendi muito com eles e posso usá-los para ajudar outros a não cometer os mesmos. Estou apenas aproveitando minha jornada — ainda cometo erros, ainda experiencio sessões “ruins” mesmo com minha parcela de “conhecimento” sobre mim mesma. Também não queria que minha jornada fosse diferente; cometer erros é fundamental para aprender e não teria me trazido onde estou hoje.
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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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