
A Anatomia de uma Cena
Por Rev em 10 de novembro de 2014
O Espiral de Aprendizagem de M. Resnick, desenhado por Vivian @chezvivian
Se você ainda não me ouviu dizer isso, aqui vai de novo: gostar de BDSM não significa que você precisa gostar de sadomasoquismo ou de “fazer cenas”. Fazer cenas não significa que você precisa gostar de sadomasoquismo. E, por fim, gostar de sadomasoquismo não significa que você precisa gostar de dominação e submissão.
A sigla “BDSM” representa bondage, dominação, submissão, sadismo e masoquismo. Você não precisa praticar tudo para fazer parte. Isso aqui é para você e sua(s) parceria(s) — você pode pegar do buffet o que quiser.
“Cena” é um termo comum no universo BDSM. Basicamente, significa interações com alguém que envolvem dinâmicas BDSM — qualquer combinação ou versão dessas dinâmicas que você e sua parceria desejarem. Pode ir desde algo planejado com dias de antecedência, com detalhes escritos e negociados cuidadosamente, até uma interação espontânea, negociada rapidamente ou conduzida no improviso. E tudo o que estiver entre esses extremos.
Não Existe Uma Fórmula Definitiva Para Construir Uma Cena
Essa é uma dúvida que eu tive quando era novato — e sei que está na cabeça de muita gente. Por isso, considere este texto como um esboço básico sugerido. Como sempre, experimente os ingredientes que chamarem sua atenção, adapte-os às suas necessidades e desejos, ajuste ao longo do caminho. Esse é o seu processo, a sua interação, com sua parceria (ou parcerias). No fim das contas, trata-se de conexão, de ter uma experiência compartilhada, de criar o tipo de interação que vocês desejam, em um ambiente de consentimento. Isso vai variar de acordo com a pessoa, o momento e o seu humor no dia. Se você tentar seguir uma receita à risca, pode acabar parecendo engessado e desconfortável. Isso talvez seja difícil de evitar quando você está experimentando coisas novas ou jogando com alguém novo, mas quanto mais você conseguir relaxar e curtir, melhor será para todo mundo.
E lembre-se sempre: humor é algo positivo.
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Elementos Básicos de Uma Cena
Vamos partir do ponto em que você conheceu alguém e decidiram jogar juntos. Lembre-se: a cena pode ser interrompida a qualquer momento, se algo parecer errado, inseguro ou se alguém disser “vermelho” por qualquer razão (“vermelho” é a palavra de segurança universal para “fim da cena”, mas fiquem à vontade para escolher outra — desde que todos saibam o que significa).
Negociação
Essa etapa é essencial. Dependendo do que vocês vão fazer, pode ser tão simples quanto “Quero te bater” e “Ok, vamos”. Ou pode começar por e-mails trocados, com planejamento de uma cena de bondage elaborada com floggers, venda nos olhos, Wagner tocando “An Webers Grabe” e um frango de borracha. O objetivo da negociação é descobrir o que vocês querem fazer juntos, o que absolutamente não querem, quais serão as palavras de segurança, onde vão jogar, perceber a vibe da outra pessoa, avaliar a experiência de cada um, etc. Isso é especialmente importante se vocês forem novos no BDSM ou um com o outro. (Para mais sobre isso, veja o texto da Norische.)
Preparar o Espaço
O ambiente pode influenciar bastante a cena. Pense em: música? iluminação? brinquedos? aftercare? água? privado ou público? materiais de sexo seguro? Talvez você não lembre de tudo, mas quanto mais coisas prever, menos distrações depois. E sempre dá para mandar a parte sub buscar o que faltar — o que pode ser especialmente divertido se ela estiver algemada, vendada ou engatinhando.
Segurança
De novo, depende do tipo de jogo. Se for usar cordas, por exemplo, tenha uma tesoura de segurança por perto caso precise cortar algo rápido. O ideal é fazer uma pesquisa básica sobre o tipo de prática que vocês vão experimentar, assim você sabe o que é necessário. Ter um kit de primeiros socorros por perto sempre é uma boa ideia.
(P.S.: Sabia que se você assinar o Dominant Guide por e-mail, recebe um folheto gratuito de segurança? Inclui primeiros socorros para diversas situações e conselhos importantes para emergências mais sérias. Fica a dica!)
Conexão
Esse é um componente super importante para mim em qualquer cena — seja algo mais leve, como um serviço casual, ou algo profundo e emocional com alguém especial. Se você já tem intimidade com sua parceria, essa conexão flui naturalmente. Se estiver começando, vale testar: olhar nos olhos, respirar junto, guiar o corpo do outro como numa dança… Essas são só algumas ideias. Pense no que funciona pra você — pode variar de pessoa para pessoa, de dia para dia.
Aquecimento
Nem toda cena precisa disso, depende do estilo de jogo e do efeito desejado. Mas geralmente, quando começo devagar e vou aumentando gradualmente, consigo levar minha parte sub mais longe e por mais tempo. Se começo pesado, ela pode se desgastar rápido e precisar parar cedo. Nem sempre, mas costuma ser assim.
Escalada
Aqui começamos a intensificar a cena depois do aquecimento. Comandos mais firmes, práticas mais ousadas, sensações mais intensas. Em outras palavras, posso ser mais “má”, bater com mais força, exigir mais.
Zona Âmbar
Minha parte favorita. É aquele ponto de tensão prazerosa, bem antes do clímax. Adoro manter minha sub naquele limite em que ela se pergunta se consegue aguentar mais — e então eu diminuo, alivio, dou um momento de pausa (mas sem parar totalmente), e depois volto a intensificar. Faço isso algumas vezes. No meio dessas pausas, sussurro no ouvido, acaricio onde bati, digo que a amo, pergunto como ela está… Aprendi quando era novata que isso é como “reabastecer o banco de tapas”. Ou seja: se você aplicar estímulo intenso sem parar (garras, mordidas, floggers, humilhação…), o corpo e a mente não conseguem mais processar, e a pessoa precisa parar. Mas se você alternar com momentos de cuidado, a tolerância aumenta — e dá pra continuar por mais tempo.
Cada pessoa tem sua própria zona amarela. Cabe a você prestar atenção, observar, pedir feedback. E ajustar conforme o dia, o estado emocional, o nível de intimidade, etc.
Clímax / Crise
Essa parte não é obrigatória numa cena, mas eu gosto. Gosto de ir até o ponto em que minha sub não consegue mais. Nem sempre chegamos lá, mas muitas vezes sim. Pode envolver choro, gritos, pedidos de misericórdia, o uso da palavra de segurança, ou apenas dizer “chega” — o importante é que seja claro.
Resolução
Semelhante ao que acontece depois de um orgasmo. É o momento de reconexão. Costuma ser importante ficar perto, já que a parte sub pode estar muito sensível, emocional, vulnerável. Não é hora de sair para atender o telefone ou limpar os brinquedos. Ela está voltando para o “mundo real”, às vezes de um estado profundamente alterado. É essencial manter o “espaço seguro” até que ela esteja de volta ao equilíbrio.
Aftercare
Nem todo mundo precisa, nem sempre. Vai depender da pessoa, da intensidade da cena e do que foi combinado. Mas eu recomendo que isso seja discutido antes de começar. Algumas pessoas precisam, outras não querem. Alguns Dominantes precisam receber aftercare também. Conversem sobre isso: se um precisa e o outro não quer/curte, pode alguém assumir esse cuidado? Pode cada um cuidar do próprio aftercare? Se não houver solução, talvez não seja uma boa jogar juntos.
Aftercare pode incluir água, algo para comer, abraços, conversar sobre a cena, um ombro amigo, ou qualquer outra coisa que ajude a lidar com o que vier depois.
Follow-up
Gosto de entrar em contato no dia seguinte ou poucos dias depois para saber como a pessoa está. Pode ser uma ligação, e-mail, encontro para um café, o que funcionar. Especialmente se pretendo jogar de novo, o feedback ajuda a melhorar futuras cenas. No mínimo, é uma boa oportunidade para agradecer. E talvez combinar a próxima… ou não.
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E aí está, meu esboço bem solto de como pensar uma cena. Vai depender de você, da sua parceria, do momento e do tipo de prática. Muito disso envolve estar presente, confiar na intuição e ouvir — tanto as palavras quanto a linguagem corporal da outra pessoa. Não é ciência exata. E os “jeitos certos” de fazer são tão diversos quanto as pessoas que praticam. Com o tempo, experiência e atenção, você chega onde quer chegar. Não tem atalho. E erros vão acontecer, não importa há quanto tempo você está na cena.
Mas espero que isso te ajude a entender um jeito de estruturar uma cena e como ela pode se desenvolver.
Como sempre, a experiência vai variar.
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Crédito da imagem: Espiral de Aprendizagem de M. Resnick, desenhado por Vivian @chezvivian
http://www.coetail.com/chezvivian/page/5/