Traduzido por sub_versa
Essa é uma cópia do Um ensaio sobre “os velhos dias” de Jay Wiseman. Você pode encontrar diversos outros artigos informativos pelo Sr. Wiseman no site JayWiseman.com. Ele também é o autor de SM 101: A Realistic Introduction (SM 101: Uma introdução realista), um ótimo livro para aqueles interessados no BDSM. O livro foi publicado por Greenery Press.
Por algum tempo já, especialmente no último ano mais ou menos, várias afirmações sobre as tradições, costumes e ensinamentos da dita “Velha Guarda” chamaram a minha atenção. Muitas dessas afirmações me fizeram revirar os olhos e soltar um suspiro cansado. Eu também confesso que eu tenho me divertido de forma satírica com isso (como se eu pudesse negar). Espero que ninguém tenha se ofendido seriamente com isso.
Eu já mencionei isso antes e vou mencionar de novo agora, eu vejo a “Velha Guarda” ser romantizada e idealizada de forma parecida com como os cowboys do velho oeste foram idealizados e romantizados. Infelizmente, a razão disso é em grande parte idêntica — muitas das pessoas que poderiam esclarecer as coisas estão hoje mortas.
Um de meus escravos comentou recentemente comigo que pessoas, especialmente pessoas marginalizadas (como nós sadomasoquistas) querem ter uma história, e que se essas pessoas não tem uma história elas vão criar uma e se convencer de que ela é verdadeira. Eu acredito que eu vejo mais do que alguns traços disso no que está acontecendo em relação a “Velha Guarda”.
Então, antes que os meus neurônios que estão rapidamente indo embora se deteriorem demais, deixe-me ver se eu consigo contribuir com algo que possa ser ao menos um pouco útil.
Parafraseando uma citação de um filme recente, “o que nós realmente sabemos?”. Em outras palavras, o que eu sei porque eu realmente presenciei, e não porque alguém me falou? Aliás, eu evitaria fazer afirmações fortes sobre os ensinamentos, tradições e costumes da “Velha Guarda” até que você possa citar dois, e de preferência três fontes independentes para a sua informação – todas dispostas a serem nomeadas. Algumas pessoas que eu conheço bem o suficiente para considerar dignas de confiança nesse tema são Race Bannon, Guy Baldwin, Joseph Bean, Tony DeBlase, Peter Fisk, Pat Califia, Alan Selby e Gayle Rubin.
Aliás, há uma boa recomendação geral que é buscar informação de diversas fontes se você quer informações relacionadas ao SM. Hoje em dia, eu acho que essa informação é particularmente importante em relação às tradições da “Velha Guarda”. De qualquer forma, aqui estão alguns dos meus pensamentos sobre como eram “aqueles tempos”.
Eu me aproximei da comunidade SM pela primeira vez em 1975 quando eu — muito nervosamente– comecei a atender eventos no Backdrop. Eu fui no meu primeiro evento na Janus em 1977 ou 1978 (me esqueci qual). Fontes que eu considero confiável me contaram que o Backdrop foi criado (possivelmente sob o nome Menlo Park School of Bondage) por Robin Roberts em 1968. Eu acredito que a loja conhecida como A Taste of Leather surgiu em 1967. Já o San Francisco Sex Information (SFSI) surgiu em 1972 se minha memória está correta.
Aliás, eu acredito que pode-se argumentar que Robin Roberts foi o pai da parte “relativamente hétero” da comunidade BDSM da Bay Area. Muitas das prodommes mais antigas de hoje em dia e algumas pessoas que fundaram organizações SM recebemos nosso “treinamento básico” do Morgan. Até hoje ele não recebeu o respeito e reconhecimento que merece por isso.
Bem, meu bom amigo Bill Burns iniciou em 1977 a organização dominada por mulheres chamada de Service of Mankind Church. Eu iniciei em 1977 a organização dominada por homens The Gemini Society. Naqueles tempos, muitos homens submissos não gostavam de estar “em seu papel” se homens dominantes estavam presentes, então em várias festas misturadas do Backdrop os tops masculinos frequentemente ficavam em uma área e as tops femininas em outra área bem separada.
E o que eu me lembro daqueles tempos?
Bom, na minha opinião, a coisa mais importante de se entender daqueles tempos é que o SM era muito mais tabu e demonizado do que hoje em dia. Lembre-se que naqueles tempos ser “apenas” gay já era considerado evidência de que você é mentalmente doente.
Ser envolvido com SM era considerado uma evidência de que você é ainda mais doente. Um manual de treinamento da polícia publicado em 1972 se eu me lembro corretamente, por exemplo, aconselha os oficiais em treinamento que uma pessoa que possui fotos sadomasoquistas “deve ser presa sob qualquer desculpa”.
Um livro popular chamado “The Sensuous Woman” recomendava aos seus leitores que se um amante em potencial quisesse brincar com chicotes e correntes a melhor coisa a fazer é (a) recusar e (b) pedir para essa pessoa procurar por ajuda profissional. Um livro sobre sadomasoquismo que eu encontrei na biblioteca continha várias imagens de coisas como corpos de mulheres assassinadas com mais de cem facadas.
Então, embora houvesse discussões sobre coisas como o significado de uma coleira, quem deve se situar onde em uma relação com quem, qual era um dia bom para se prender ou chicotear e coisas do tipo, nós passávamos muito tempo tentando reassegurar novatos de que eles não são doentes ou loucos. Essa era a maior questão. A boa notícia é que a revolução sexual do “amor livre” estava em curso; a notícia ruim era que ela não incluía sadomasoquismo.
Se você quer ter uma ideia sobre como o sadomasoquistas eram vistos naquela época, tente imaginar qual seria a reação popular hoje em dia a pessoas que pregassem que relações entre parentes de sangue – mães, pais, irmãos, irmãs, filhos, filhas são aceitáveis desde que sejam consensuais.
Você pode também ter uma boa ideia de como nós éramos vistos de forma negativa naquela época lendo a primeira edição de Coming to Power. A seção sobre as negociações entre o grupo SM de mulheres chamado The Outcasts e as pessoas que administravam o Prédio de Mulheres para que as participantes do The Outcasts pudessem se encontrar lá é particularmente esclarecedora. Referências sobre como o contingente SM era tratado na Marcha do Dia da Liberdade Gay também esclarecem muita coisa.
Sadomasoquistas eram frequentemente tratados apenas um pouco menos mal do que a NAMBLA (basicamente, o pessoal pedófilo). Então o primeiro ponto a se colocar, na minha opinião, é que o SM era muito mais tabu e marginalizado na minha opinião. Muito mais.
Uma colocação relacionada ao ponto que mencionei acima é que como o SM era visto de forma muito mais negativa naquela época, acredito que era preciso de muito mais coragem para entrar em contato com a comunidade do que hoje em dia e ainda mais coragem para abrir uma casa de SM ou administrar uma. Afinal de contas, lembre que o “establishment” inteiro estava afirmando que se engajar com o SM, mesmo que de forma consensual, era evidência de uma doença mental séria. Era preciso muita coragem para enfrentá-los e dizer “Não! Você está errado!”. Apenas por isso já devemos respeito aos pioneiros do meio por terem a coragem de estar presentes.
Outra colocação relacionada: 1973 foi o “Ano Internacional da Mulher”, e vibes feministas estavam muito fortes na época. Entre outras coisas, essa foi mais ou menos a época em que a N.O.W (Organização Nacional das Mulheres) adotou uma posição oficial anti-SM, uma posição que só agora está sendo desafiada. Dessa forma, mulheres que queriam adotar um papel submisso tinham que enfrentar ainda mais negatividade do que sadomasoquistas no geral.
Uma última colocação relacionada ao ponto que falei acima é que as pessoas “Velha Guarda” que existiam naquele momento não se viam dessa forma no geral. Ao invés disso, como diz a letra, eles eram “apenas um grupo de pessoas fazendo o melhor que podiam”
O ponto número dois seria que a comunidade da forma que ela era, era muito, muito menor do que é hoje. Era muito difícil achar pessoas com os mesmos interesses. Subponto: a primeira razão pela qual o que nós chamamos de sistema de mentorado existia naqueles dias é em grande parte porque não havia alternativa. Você não podia enviar pessoas procurando por conhecimento para lugares como o Janus, QSM ou Differences pela boa razão que esses lugares não existiam.
O terceiro ponto é que nós não tínhamos tanto conhecimento como temos agora. Muitas das coisas que estão sendo ensinadas hoje foram dolorosamente aprendidas, geralmente por tentativa e erro. E como as pessoas praticantes de SM (chamar o que existia na época de comunidade é forçar a barra um pouco) estavam muito mais isoladas e tudo era mais underground, era muito mais difícil de achar bons professores, livros confiáveis e outras formas de informação úteis.
Esse alto grau de isolamento e a fragmentação são as principais razões pelas quais eu vejo com suspeita qualquer afirmação de que os ensinamentos da “Velha Guarda” fosse um corpus unificado em torno do qual havia um consenso. Se já houve algo como “Os Dez Mandamentos do SM” eu nunca ouvi falar.
Sobre os ensinamentos e costumes da “Velha Guarda”: quando eu comecei a ir aos eventos do Janus (que na época era um evento por mês), o público era mais ou menos composto de 85%de homens gays, 13% de lésbicas e um pouquinho de gente hétero como eu. Entre outras coisas, significava que “nós” tínhamos que ser cuidadosos com o que nós fazíamos e falávamos. Apesar de que na teoria o Janus era uma organização pansexual (eu não acho que a palavra “pansexual” era muito usada na época), ela era tinha uma atmosfera gay e leather bem forte. Dessa forma, ser discreto, relativamente quieto e cortês era uma boa ideia se você fosse hétero.
Mesmo nessa atmosfera, havia uma certa divisão no meio leather gay entre os leathers “altamente ritualizados” e os leathers “casuais da Califórnia”. Curiosamente, uma das coisas que gerava um debate constante e vigoroso na época é se era ou não apropriado para um bottom iniciar conversa com um top. Se me lembro bem, nunca se chegou a um consenso.
Minha definição pessoal de BDSM que é um “denominador comum mais simples” é “dominação e submissão ritualizadas”. Eu percebo que hoje em dia, assim como na época, alguns de nós querem muito mais ritual associado ao nosso BDSM do que outros. Eu, pessoalmente, estou muito mais para o estilo “casual de califórnia” como muitos de vocês sabem. Eu também percebo as pessoas “ritualísticas” enxergando as vezes as pessoas “casuais” como se elas não tratassem o SM com o respeito que este merece, enquanto as pessoas “casuais” veem às vezes as pessoas “ritualísticas” lidando com si mesmas e com SM com muito mais seriedade do que deveriam.
Sobre a afirmação de que “pessoas que não seguiam os ensinamentos da Velha Guarda eram excluídas da comunidade” – não é assim que eu me lembro das coisas. O que eu me lembro é que naquela época, assim como agora, quando alguém era considerado perigoso, outras pessoas avisavam os outros sobre ela.
E assim como agora, embora geralmente bem intencionado, esse processo de aviso não era acompanhado de objetividade ou de algum processo apropriado para conferir a sua veracidade. Eu também me lembro que, assim como agora, pessoas consideradas desejadas e populares conseguiam se safar repetidamente de situações que fariam com que uma pessoa menos desejável e popular fosse excluída.
Havia uma espécie de credo popular que era melhor começar no papel de submisso. Mas isso não era algo que todos concordavam. Eu me lembro de alguém fazendo essa afirmação em um evento da Janus por volta de 1980 e um leather grande com aparência de machão replicou falando bem alto “Bobagem!”. Ninguém correu para discordar dele.
Meu ponto final é a implicação nem sempre tão sutil de que esses supostos ensinamentos da “Velha Guarda” eram de alguma forma melhores que os ensinamentos “regulares”. Isso me faz coçar a cabeça um pouco. Teve algum tipo de declínio “pós-Velha Guarda” em ensinamentos ensinamentos SM, tradições, costumes e outras coisas que eu não percebi?
Quando que “a comunidade” entrou em declínio? Alguns praticantes mais antigos dizem privadamente que “a comunidade” entrou em declínio quando “todos esses malditos héteros” começaram a aparecer. Eu já ouvi esse lamento de mais de um veterano que sentia que eu não era como “o resto deles”.
Então é isso. Para recapitular meus pontos principais:
1- O SM era muito mais tabu e mais condenado do que é agora. Mulheres hétero que queriam ser submissas eram particularmente condenadas.
2- A “comunidade” SM – como ela era – era muito menor e mais underground do que ela é agora, e os diferentes grupos tendiam a ser menores e mais isolados do que hoje em dia.
3- Nós não entendíamos tanto quanto nós entendemos agora, e o conhecimento que existia era mais difícil de achar – fora o conhecimento por tentativa e erro. Quase todos os livros, casas, etc que existem hoje não existiam na época.
4- O “ensinamento” principal daquela época era que ter interesse em BDSM por si só não significava que uma pessoa tem um problema mental sério.
5- Naquela época, fora o “sim, o SM tem que ser consentido”, havia um grande espectro de opiniões e muito debate sobre quase todas as questões técnicas e interpessoais relacionadas ao SM.
Como diz a letra da música:
Ele disse: “Eles eram apenas um bando de pessoas fazendo o melhor que podiam.
Sim, eles eram apenas um bando de pessoas fazendo o melhor que podiam”.
Então ele disse que eles “fizeram bonito e caminhando bem”
-Jim Croce (eu acho)