Estados alterados de consciência no BDSM

Um dos aspectos mais fascinantes do BDSM é sua capacidade de induzir estados alterados de consciência. Recentemente, esse tema tem atraído muita atenção no FetLife.com, mas, infelizmente, também gerou uma série de mitos pseudocientíficos e técnicas duvidosas para induzir a liberação de endorfinas e alcançar o tão cobiçado sub-space. Neste artigo, quero usar minha experiência como praticante de BDSM e como cientista pesquisador da neurofisiologia da dor para esclarecer um pouco dessa confusão.
Preciso começar com um aviso: praticamente não há pesquisas científicas sobre os fenômenos neuroquímicos que ocorrem em cenas sadomasoquistas. Além disso, há motivos para acreditar que esses fenômenos são bem diferentes das respostas comuns à dor, então boa parte do que direi aqui é especulativo. No entanto, embora ainda não estejamos prontos para descrever o que acontece no cérebro durante uma cena, podemos usar as evidências científicas disponíveis para desmentir alguns mitos existentes e estabelecer as bases para pesquisas sérias no futuro.

O que é um estado alterado de consciência? Consciência é o fato de estar ciente de tudo o que acontece, tanto no mundo exterior quanto dentro da nossa mente. Nossa consciência flui como um rio de experiências que forma a história de nossas vidas. Do nosso ponto de vista subjetivo, nossa consciência é tudo. Claro, objetivamente existe uma realidade externa, independente da nossa percepção. O que quero destacar é que nosso estado de consciência molda e colore os eventos da vida cotidiana. A realidade que percebemos é filtrada pela consciência: ela desaparece quando dormimos e ganha intensidade excepcional em situações de perigo, nas quais o cérebro se torna mais atento ao ambiente.
A qualidade da nossa consciência determina, em grande parte, nossa capacidade de ser feliz. Isso porque a consciência é moldada pelo nosso estado emocional, que pode fazer o mundo parecer um inferno ou um paraíso. Desde o surgimento da nossa espécie, os humanos tentam alterar a consciência — seja consumindo certas substâncias, seja passando por experiências extremas. O BDSM é um exemplo do segundo caso. Claro que nem toda atividade BDSM vai produzir um estado alterado de consciência, mas aquelas que produzem tendem a nos deixar lembranças inesquecíveis.
Aqui proponho uma classificação dos estados alterados de consciência que podem ser alcançados em uma cena de BDSM. Essa classificação baseia-se na minha experiência pessoal, em discussões com outras pessoas praticantes e no meu conhecimento de neurociência.
• Liberação de endorfinas.
As endorfinas são uma família de quase 40 neuropeptídeos capazes de ativar os mesmos receptores que a morfina e outros opiáceos. Existem quatro receptores opioides — três deles nomeados com letras gregas: mu, delta e kappa — que reduzem a dor, e o quarto, chamado receptor de nociceptina/orfanina, que na verdade aumenta a dor. Além de seu efeito analgésico, os receptores mu e delta induzem uma sensação de bem-estar ou euforia. Em contraste, os receptores kappa produzem um estado de angústia emocional chamado disforia.
As endorfinas são liberadas na corrente sanguínea pela glândula pituitária, mas isso não gera analgesia nem estado alterado de consciência, porque as endorfinas no sangue não atravessam a barreira hematoencefálica para agir no cérebro. As únicas endorfinas capazes de induzir um estado alterado são aquelas liberadas por neurônios dentro do cérebro. Além disso, as endorfinas são liberadas de forma independente em diferentes áreas cerebrais; portanto, não se pode falar em um estado geral de “liberação de endorfinas”, e sim em múltiplos estados dependendo de onde ocorrem.
De qualquer forma, podemos afirmar com segurança que a liberação de endorfinas durante uma cena BDSM reduz a dor e induz uma sensação de calma, relaxamento e até sonolência. O submisso volta sua atenção para dentro, desconectando-se do ambiente e entrando em um mundo de fantasia. Esse processo pode ser desencadeado pelo aumento gradual da intensidade da dor em um ambiente emocionalmente seguro, no qual o submisso possa absorver as sensações sem precisar reagir. A liberação de endorfinas pode ser observada como uma redução na frequência cardíaca.
• Liberação de noradrenalina.
A noradrenalina — ou norepinefrina — é um neurotransmissor que, assim como as endorfinas, é liberado por vias neurais de controle da dor e também produz analgesia. Suspeito que muitos estados de diminuição da sensibilidade à dor observados em cenas sadomasoquistas, frequentemente atribuídos às endorfinas, na verdade sejam gerados pela noradrenalina. Assim como ocorre com as endorfinas, não devemos confundir a liberação de adrenalina no sangue com a liberação de noradrenalina por vias neurais específicas no cérebro, embora ambas aconteçam frequentemente ao mesmo tempo.
A noradrenalina é liberada quando a dor está associada ao medo, em situações que exigem uma resposta do submisso. Existem conexões inibitórias entre as vias de controle da dor mediadas por endorfinas e as mediadas por noradrenalina, o que garante que esses dois sistemas não atuem simultaneamente. Embora ambos produzam analgesia, os estados que geram são muito diferentes.
A liberação de noradrenalina provoca um estado de alerta intensificado aos estímulos externos, que parecem mais intensos e vívidos. O submisso chora, se move, reage. Seu batimento cardíaco aumenta. Apesar da excitação fisiológica, esse estado pode ser tão eufórico e prazeroso quanto aquele induzido pela liberação de endorfinas.
• Sub-space.
O termo sub-space costuma ser usado de forma indistinta para se referir a qualquer um dos estados alterados de consciência descritos acima. No entanto, proponho que “sub-space” seja reservado para designar especificamente os estados mentais alcançados em cenas de Dominação e submissão (D/s), e não aqueles puramente gerados pela dor nas cenas sadomasoquistas.
Definiria o sub-space como um estado mental no qual a atenção do submisso está completamente voltada para o Dominante e para os sentimentos de entrega e obediência que ele ou ela evoca. Do ponto de vista da neurociência, parece provável que o sub-space esteja relacionado à liberação de ocitocina — o chamado “hormônio social” —, que induz confiança e vínculo. Pode também envolver liberação de dopamina no chamado “circuito do prazer”, que conecta a área tegmental ventral do corpo estriado ao núcleo accumbens.
O núcleo accumbens é o local de ação da maioria das drogas que causam dependência — como opiáceos, cocaína, anfetaminas e nicotina. A serotonina, um neurotransmissor de ação complexa por conta de seus múltiplos receptores, também pode estar envolvida nesse estado de calma e rendição.
Em contraste com os estados mediados por endorfinas e noradrenalina, o sub-space não é apenas uma resposta reflexa. Parece ser um estado emocional no qual se entra, em grande parte, de forma voluntária, e que apresenta muitas variações e níveis. Alcançar um sub-space profundo pode exigir um período de treino, construção de confiança e fortalecimento do vínculo entre o submisso e o Dominante.
• Top-space.
O termo top-space é mencionado com menos frequência que sub-space, mas não há dúvida de que ele existe — e é tão importante para o Top quanto o sub-space é para o submisso. Uma das características que definem um bom Top é a capacidade de ler as reações físicas do bottom e deduzir, a partir delas, o estado mental em que ele se encontra.
Tanto o Top em uma cena sadomasoquista quanto o Dominante em uma relação D/s precisam concentrar toda a sua atenção na pessoa com quem estão jogando, sentindo empatia e estabelecendo um vínculo estreito com o bottom. Por isso, o top-space provavelmente compartilha muitas características fisiológicas com o sub-space.
Talvez, nesse estado, a liberação de ocitocina seja acompanhada pela liberação de vasopressina — outro hormônio social, que induz sentimentos de posse e territorialidade, especialmente em machos. Em cenas sadomasoquistas nas quais o Top inflige muita dor ao bottom, pode ocorrer também uma liberação considerável de noradrenalina por empatia, o que provavelmente fortalece seu foco e controle sobre a cena.
• Sub-drop.
Muitos submissos e bottoms relatam entrar em um período de baixa energia, apatia e disforia após uma cena intensa de BDSM. Isso pode se dever a um efeito de abstinência dos neurotransmissores eufóricos liberados durante a cena. No entanto, o sub-drop pode ter causas mais complexas, já que, ao ser observado mais de perto, parece se manifestar de maneiras diferentes de pessoa para pessoa.
Alguns nunca o experimentam, enquanto em outros ele é bastante forte. Além disso, há pelo menos dois tipos de sub-drop: um que ocorre imediatamente após a cena e que pode ser resolvido com aftercare, e outro que aparece dois ou três dias depois e pode durar vários dias.
É importante não aceitar o sub-drop como algo normal e inevitável. Talvez a cena tenha despertado emoções profundas e antigas que o submisso precise examinar. Usando as informações apresentadas acima, o submisso pode refletir se a cena envolveu liberação de endorfinas, noradrenalina ou entrada em sub-space, e como o sub-drop se relaciona a cada um desses estados mentais. Assim, poderemos começar a construir uma compreensão mais clara de como o sub-drop se conecta aos diferentes estados alterados de consciência.
Conclusão.
Não devemos tratar os estados alterados de consciência alcançados em uma cena BDSM de maneira frívola, como se o BDSM fosse apenas mais uma droga. Afinal, se tudo o que buscamos é uma “viagem”, seria mais simples usar substâncias — e não passar pelo processo exigente e emocionalmente intenso de uma cena.
Acredito que os estados alterados de consciência no BDSM têm valor por causa de seu contexto — o de um relacionamento profundo e pessoal entre as pessoas envolvidas. Portanto, o ponto central não é qual neurotransmissor foi liberado, mas o significado que a cena trouxe para nossas vidas: talvez uma catarse, talvez o surgimento de questões psicológicas há muito enterradas, libertadas pela experiência.
Talvez tenhamos encontrado uma parte de nós mesmos que não conhecíamos antes. Cada vez mais, as pessoas compreendem o BDSM como um processo de autodescoberta e transformação pessoal — algo que enriquece nossas vidas e contribui para torná-las mais plenas e felizes.
autor – Hermes Solenzol
https://sexsciencespirit.blogspot.com/2014/11/altered-states-of-consciousness-in-bdsm.html
