📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 5 de 10
No post anterior, vimos como o mantra “BDSM não é sobre sexo” emergiu de condições históricas específicas: a luta contra a psiquiatrização, a desmedicalização do acrônimo, e a crise da AIDS. Aqui examinamos o que acontece quando uma estratégia de sobrevivência vira dogma — e o que os dados empíricos realmente mostram.
O mantra como artefato histórico
O problema é que o que era estratégia virou dogma. O que era ferramenta de sobrevivência virou identidade. Uma geração de praticantes cresceu ouvindo “BDSM não é necessariamente sobre sexo” como se fosse uma verdade atemporal, sem saber que essa frase nasceu como resposta a condições históricas específicas de persecuição.
Esse é o mesmo movimento que Kendrick documenta na história da pornografia: cada geração de guardiões do Museu Secreto esquecia por que a sala havia sido trancada e passava a acreditar que a separação era natural, necessária, óbvia. O Gabinetto Segreto de Nápolis existiu por mais de um século antes de ser aberto ao público geral, em 2000. Cem anos de curadores convictos de que a separação era correta — quando a separação havia sido criada para resolver um problema que já não existia mais.
Emma L. Turley, em Unperverting the Perverse (2024), analisa precisamente esse fenômeno: como a normalização do BDSM sacrifica a transgressão para ganhar aceitação social, e como esse processo privilegia alguns tipos de BDSM — os “limpos”, os “não-sexuais”, os apresentáveis — enquanto marginaliza os que insistem na dimensão sexual explícita. Margot Weiss, em Techniques of Pleasure, documenta o resultado: uma comunidade BDSM que se tornou progressivamente branca, de classe média e mercantilizada — exatamente o que a política de respeitabilidade produz.
Dave Holmes e colegas usam Deleuze e Guattari para mostrar que práticas como fisting, percussão e piercing entre homens representam “linhas de fuga” contra a territorialização social do prazer genital dominante. A dessensualização, argumentam, surge como resposta a estigmas — mas ao ser adotada como identidade, ela recoloniza o próprio prazer que deveria libertar.
O dado empírico: nem todo SM é sexual, e isso não resolve o problema
Há um dado que merece atenção honesta: muitos praticantes de SM, de fato, não experimentam suas atividades como sexuais. Não é discurso político. É descrição fenomenológica.
Staci Newmahr, socióloga, passou quatro anos em trabalho de campo etnográfico numa comunidade SM urbana nos EUA. O que ela documentou desconforta os dois lados do debate: em cenas onde o participante ativo usava luvas de chumbo para açoitar o parceiro no ritmo da Carmina Burana, não havia beijos, não havia contato genital. Participantes jogavam com pessoas por quem não sentiam atração sexual. Depois da cena, iam jantar. Newmahr descreve o SM como “lazer sério” (serious leisure) — uma prática que exige habilidade especializada, tempo dedicado, pertencimento comunitário, e produz benefícios específicos além de qualquer cena individual. (Newmahr, 2010)
Isso importa porque mostra que a pergunta “BDSM é ou não é sobre sexo” sempre foi um falso binário. Há SM que é profundamente sexual. Há SM que não é. Há SM onde a mesma prática é sexual para um participante e não para outro. O problema nunca foi a diversidade de experiências — o problema foi usar essa diversidade como argumento para rebaixar a sexualidade a algo de que a comunidade não precisa ser dona.
O jazz é profundamente sensual. As artes marciais têm contato corporal intenso e energia entre corpos. Nenhuma precisa se declarar “não-sexual” para reivindicar legitimidade. A comunidade BDSM tomou um caminho diferente — e esse caminho tem custos.
Sobre esta série
BDSM e o Fantasma do Sexo é uma série de 10 textos que investigam por que a comunidade BDSM sente necessidade de se distanciar da própria sexualidade — e o que essa estratégia custa politicamente. A série parte do ebook homônimo de Lino Naderer e incorpora referências de Walter Kendrick, Audre Lorde, Herbert Marcuse, Gayle Rubin, Paul Preciado e outros.
📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 5 de 10