6. BDSM e o Fantasma do Sexo — Eros difuso — a energia que não pede permissão

📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 6 de 10 ← 5. O mantra como artefato histórico 7. A armadilha da respeitabilidade → Quando falo do erótico, falo da afirmação da força vital […] daquela poderosa energia criativa, cujo conhecimento e uso estamos agora reivindicando em nossa linguagem, nossa história, nossas danças,…

📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 6 de 10


Quando falo do erótico, falo da afirmação da força vital […] daquela poderosa energia criativa, cujo conhecimento e uso estamos agora reivindicando em nossa linguagem, nossa história, nossas danças, nossos amores, nosso trabalho, nossas vidas.

Audre Lorde, Uses of the Erotic: The Erotic as Power (1978)

Em 1978, Audre Lorde apresentou um ensaio que mudou fundamentalmente a forma como podemos pensar sobre erotismo: Uses of the Erotic: The Erotic as Power. O argumento central é tão simples quanto radical: o erótico não é sexo. O erótico é uma força vital que permeia toda a existência humana — e a sociedade deliberadamente o confinou ao quarto para poder controlá-lo.

Para Lorde, a palavra erótico vem do grego eros, a personificação do amor em todos os seus aspectos — nascido do Caos, encarnação de poder criativo e harmonia. O erótico se manifesta quando você escreve algo que te preenche, quando você dança de um jeito que te conecta ao corpo, quando você olha nos olhos de alguém e sente a tensão da possibilidade. Ele se manifesta, sim, no sexo — mas também no trabalho, na arte, na luta política, na intimidade sem toque.

A confiscação política do erótico

A jogada brilhante de Lorde é mostrar que a sociedade separou o erótico de todas as outras áreas da vida justamente para enfraquecê-lo como força política. Quando o erótico fica confinado ao quarto, ele pode ser regulado, controlado, moralizado. Quando ele vaza para o trabalho, para a política, para a forma como nos relacionamos — ele se torna perigoso. Porque uma pessoa que sabe o que é satisfação real não aceita migalhas.

Lorde faz uma distinção fundamental entre o erótico e o pornográfico — mas de forma inversa ao senso comum. Para ela, a pornografia não é o excesso do erótico. A pornografia é a negação do erótico: sensação sem sentimento, estímulo sem profundidade, corpo sem presença. A pornografia, nesse sentido, é o que acontece quando o erótico é despojado de tudo que o torna transformador e reduzido a um produto de consumo.

A relevância política de Lorde para a comunidade BDSM é direta e profunda. Quando uma dominatrix conduz uma cena com presença total, quando um submisso se entrega a um estado de vulnerabilidade que não seria possível em nenhum outro contexto, quando dois corpos negociam consentimento em tempo real com uma atenção que a maioria das relações “vanilla” nunca alcança — isso é Eros em sua expressão mais potente. E é exatamente por ser potente que a sociedade quer que tenhamos vergonha.

Marcuse: a repressão excedente

Três décadas antes de Lorde, Herbert Marcuse já havia construído a análise estrutural que sustenta esse argumento. Em Eros e Civilização (1955), Marcuse parte de Freud para mostrar que a civilização transformou a sexualidade humana de um princípio autônomo numa função especializada a serviço da reprodução. Toda a energia criativa e erótica que antes se expressava de múltiplas formas foi comprimida na genitalidade procriativa e o excedente canalizado para o trabalho alienado.

Marcuse cunhou um conceito central para entender o BDSM: repressão excedente (surplus repression). A ideia é que a civilização impõe mais repressão do que é objetivamente necessário para funcionar — e esse excedente serve para manter hierarquias de dominação. Quando a comunidade BDSM internaliza a lógica de que “isso não é sexual” para ser aceita, ela está exercendo repressão excedente sobre si mesma.

A distinção de Marcuse entre sexualidade e Eros é a chave teórica que resolve o aparente paradoxo. Sexualidade é um aspecto de Eros. Mas Eros inclui muito mais: todos os impulsos afirmadores de vida, toda a energia que nos move em direção ao prazer, à conexão, à criação, à beleza. Uma cena de bondage onde não há toque genital, uma dinâmica D/s que se expressa em olhares e palavras, um ritual de humilhação erótica que nunca chega ao coito — tudo isso opera no campo de Eros. E Eros é, por definição, sexual no sentido amplo.

O corpo sem órgãos: o que pode um corpo BDSM

Deleuze e Guattari, em Mil Platôs, propõem um conceito que parece abstrato mas fica muito concreto quando você pensa numa cena de BDSM: o “corpo sem órgãos”. Não um corpo sem órgãos literalmente — um corpo que não se organizou segundo a função predeterminada. Um corpo como potencial puro, um campo de intensidades, definido pelo que ele pode afetar e ser afetado.

“O que pode um corpo?” é a pergunta. Não: para que serve este corpo? Não: o que este corpo quer no sentido reprodutivo-genital? Mas: que conexões este corpo é capaz? Que intensidades? Que formas de dar e receber, de mover e ser movido?

Um corpo amarrado em corda não está “substituindo” o sexo genital. Está se organizando em torno de outros eixos de intensidade — a corda, o frio, a imobilidade, a atenção total de quem segura. Um corpo que recebe chicotadas nas costas em estado de transe está vivenciando algo que o mapa farmacopornográfico simplesmente não tem como nomear. Esses corpos não são não-sexuais. São sexuais de um jeito que o roteiro padrão não contempla.

A ponte com a assexualidade

É aqui que a experiência assexual no BDSM encontra não apenas espaço, mas fundamentação teórica sólida. Uma pessoa assexual praticando BDSM não está fazendo algo “fora do campo sexual”. Ela está exercendo Eros de uma forma que não passa pela atração sexual genérica mas que continua sendo uma expressão legítima de prazer, entrega e potência vital. Hardy e Easton, em The Ethical Slut, já reconhecem isso explicitamente: há assexuais que apreciam formas não-genitais de erotismo — e isso não é uma contradição, é uma ampliação do que entendemos por sexualidade.

O problema, portanto, nunca foi dizer que BDSM envolve sexualidade. O problema sempre foi reduzir sexualidade a coito. Quando você expande o conceito para incluir Eros em sua totalidade, não há nenhum conflito entre dizer “BDSM é uma prática sexual” e acolher pessoas ace na comunidade. A tensão só existe quando você opera com a definição empobrecida.


Sobre esta série

BDSM e o Fantasma do Sexo é uma série de 10 textos que investigam por que a comunidade BDSM sente necessidade de se distanciar da própria sexualidade — e o que essa estratégia custa politicamente. A série parte do ebook homônimo de Lino Naderer e incorpora referências de Walter Kendrick, Audre Lorde, Herbert Marcuse, Gayle Rubin, Paul Preciado e outros.

Começar do início

Ver a série completa

📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 6 de 10

📂 Você está em
📋 Neste artigo
  • Gerando índice…
🏷️ Termos
BDSM BRASIL BLOG

Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

NOVIDADES
ARTIGOS RECENTES

Descubra mais sobre BDSM BRASIL BLOG

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo