📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 2 de 10
Erótica é simplesmente pornografia de classe alta — melhor produzida, melhor concebida, melhor executada, melhor embalada, projetada para um público melhor.
Andrea Dworkin, Pornography: Men Possessing Women (1981)
Antes de falar sobre BDSM, precisamos falar sobre uma distinção que a maioria das pessoas aceita sem questionar: a separação entre “erótico” e “pornográfico”. Essa separação parece natural. Parece óbvia. Mas ela não é nenhuma das duas coisas. Ela é uma invenção histórica, e uma invenção com endereço de classe.
A palavra “pornografia” vem do grego pornographos, que significava literalmente “escritura sobre prostitutas”. Na Antiguidade, textos como os de Luciano de Samósata no século II d.C. descreviam orgias sem conotação pejorativa. O conteúdo sexual fazia parte do tecido cultural — não era uma categoria separada, não precisava de eufemismo. Na Índia, os templos de Khajuraho exibiam cenas de contato sexual como expressão religiosa. No Japão, o shunga circulava como arte e instrução sexual sem estigma. O sexo explícito não era uma categoria problemática — até que a Europa moderna decidiu que precisava ser.
A pornografia como categoria regulatória
Em 1857, a Inglaterra aprovou o Obscene Publications Act. No mesmo ano, Gustave Flaubert foi julgado por Madame Bovary em Paris. A palavra “pornografia” no seu sentido moderno aparece pela primeira vez nesse período, usada inicialmente para descrever os afrescos eróticos descobertos nas escavações de Pompeia. Lynn Hunt, em A Invenção da Pornografia, argumenta que a pornografia como categoria regulatória foi inventada em resposta à ameaça percebida da democratização da cultura. A questão nunca foi o sexo em si. A questão era quem tinha acesso a ele.
O que definia se algo era “erótico” ou “pornográfico” nunca foi a qualidade do material. Foi quem consumia. Fanny Hill (1749) circulava entre cavalheiros como literatura. O mesmo tipo de conteúdo, impresso em panfletos baratos para operários, era obscenidade. Henry Spencer Ashbee, o maior colecionador de pornografia da era vitoriana, organizou uma bibliografia monumental do material que ele mesmo consumia — enquanto campanhas de “pureza social” perseguiam livreiros que vendiam o mesmo conteúdo a preços populares.
A distinção erótico/pornográfico sempre foi uma operação de classe disfarada de julgamento estético: os ricos consumiam “arte”, os pobres consumiam “perversão”. O conteúdo era o mesmo. A embalagem era diferente.
O Museu Secreto: quando a categoria virou arquitetura
Há um detalhe histórico que ilumina tudo isso com clareza. Quando as escavações de Pompeia desenterraram afrescos e objetos com representações explícitas, as autoridades do século XIX não sabiam o que fazer com eles. Os romanos que os produziram os exibiam em paredes comuns, em casas de banho, em locais públicos — sem hierarquia, sem vergonha, sem sala separada. Mas o século XIX precisava criar uma.
A solução foi o Gabinetto Segreto — o “Museu Secreto” do Museu de Nápolis, fundado em 1819. Acesso restrito a “homens de posição e instrução reconhecidas”. Mulheres e crianças, formalmente excluídas. Pobres, excluídos pelo preço da entrada e pela exigência de demonstrar “maturidade intelectual”. Em Paris, a Bibliothèque Nationale tinha sua versão textual: o Enfer — literalmente, o “Inferno”. Fundado sob Napoleão, reunia os livros que o Estado conservava mas não mostrava. O catálogo separado só foi publicado em 1913. Quase cem anos de leitores que não sabiam o que estavam perdendo. (Kendrick, 1987)
O que esses dois espaços mostram é que a categoria “pornográfico” foi inventada antes de qualquer coisa chamada pornografia no sentido moderno. Ela foi inventada para responder a uma pergunta que não tinha nada a ver com conteúdo: quem tem o direito de ver?
O cinema, o erótico e o pornográfico: uma distinção que nunca foi sobre conteúdo
Em 1964, o Justice Potter Stewart escreveu a frase mais honesta já produzida pelo judiciário americano sobre pornografia: “Eu sei quando vejo”. Não “viola o padrão X”. Não “ultrapassa o limiar Y”. Simplesmente: eu reconheço. Porque as pessoas que reconhecem pornografia de erótica são pessoas que já foram ensinadas a reconhecer. A operação de classe, tornada explícita.
A Nouvelle Vague francesa era “erótica”. Brigitte Bardot era “sensual”. Godard era “provocador”. A mesma nudez em um filme exibido numa sala barata para um público da classe trabalhadora era “pornográfica”. Mesmos corpos. Contextos sociais radicalmente diferentes.
Depois veio algo que não havia acontecido antes: a era de ouro do cinema pornô nos EUA (1972–1984). Deep Throat, Behind the Green Door, The Devil in Miss Jones — filmes explícitos exibidos em salas de cinema comuns. Pela primeira e talvez única vez na história ocidental, a pornografia estava genuinamente acessível à classe trabalhadora, em público, sem credencial intelectual. Era o Museu Secreto com as portas abertas. A mídia chamou de porno chic.
Não durou. O videocassete trouxe o pornográfico de volta para dentro de casa. A epidemia de AIDS re-saturou o corpo sexual de culpa e morte. A Comissão Meese (1986) foi o fechamento oficial do parêntese. O acrônimo BDSM emerge nos fóruns Usenet nos anos 1990. Exatamente no aftermath.
O reflexo na comunidade BDSM: o erótico como nova sala trancada
Esse histórico importa porque a comunidade BDSM, muitas vezes sem perceber, reproduz essa mesma lógica. Quando alguém diz “isso é erótico, não é pornográfico” — ou “isso é arte, não é sexo” — está usando a mesma ferramenta que os moralistas vitorianos inventaram: criar uma versão “aceitável” do prazer para separar-se da versão “vulgar”.
Quando a comunidade BDSM enquadra suas práticas como “eróticas” em vez de “sexuais”, está replicando o movimento exato do Gabinetto Segreto: criando sua própria sala trancada, com sua própria lista de quem pode entrar. O rigger que apresenta seu trabalho em galerias de arte é “erótico”. A pessoa que amarra pelo tesão puro é “sexual” — e portanto constrangedora. O século XIX chamaria de “iluminados” e “vulgares”. A comunidade BDSM chama de “responsáveis” e “exagerados”. A gramática mudou. A estrutura é a mesma.
No Brasil, essa dinâmica se manifesta com clareza em espaços comerciais: sex shops vendem “produtos eróticos”, nunca “pornográficos”. Festas kink se apresentam como “exploração sensorial”, não como “orgias consensuais”. A linguagem foi domesticada para não assustar — e nessa domesticação, a potência transgressora do prazer é progressivamente esterilizada. O erótico virou o pornográfico da burguesia kink.
Sobre esta série
BDSM e o Fantasma do Sexo é uma série de 10 textos que investigam por que a comunidade BDSM sente necessidade de se distanciar da própria sexualidade — e o que essa estratégia custa politicamente. A série parte do ebook homônimo de Lino Naderer e incorpora referências de Walter Kendrick, Audre Lorde, Herbert Marcuse, Gayle Rubin, Paul Preciado e outros.
📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 2 de 10