📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 7 de 10
Com a base dos capítulos anteriores — a invenção da distinção erótico/pornográfico como operação de classe, a desconstrução de sexo como coito, a genealogia higienista do mantra, e a teoria de Eros como força vital — podemos olhar com mais precisão para um fenômeno que atravessa não apenas o BDSM mas várias práticas culturais que nasceram no terreno do prazer e da sexualidade.
Gayle Rubin e a hierarquia de valor sexual
Em 1984, Gayle Rubin publicou Thinking Sex, um ensaio que mapeou o que ela chamou de hierarquia de valor sexual das sociedades ocidentais. No topo da pirâmide estão as práticas consideradas “boas”, “normais” e “naturais”: sexo heterossexual, monôgamo, procriativo, entre adultos casados, em ambiente privado. Na base estão as práticas estigmatizadas: BDSM público, sexo comercial, fisting, práticas com múltiplos parceiros, fetiches não-normativos.
O insight de Rubin é que essas práticas não são simplesmente toleradas ou proibidas — elas negociam sua posição na hierarquia. E a estratégia mais comum de “subir” nessa escala é se desvincular dos elementos que o mainstream considera mais inaceitáveis. O pole dance tenta subir dizendo “somos esporte, não strip”. O shibari tenta subir dizendo “somos arte, não fetiche”. Segmentos do BDSM tentam subir dizendo “nem tudo é sobre sexo”.
O erótico como nova sala trancada: a higienização que vem de dentro
Há uma versão específica desse jogo de respeitabilidade que merece ser nomeada diretamente: o uso da palavra “erótico” como substituto higienizante de “sexual”.
Quando um praticante de BDSM diz que sua prática é “erótica, não pornográfica”, não está apenas buscando respeitabilidade genérica. Está replicando o movimento exato do Gabinetto Segreto: criando sua própria sala trancada, com sua própria lista de quem pode entrar. A galeria que exibe shibari como arte é “erótica”. A pessoa que amarra pelo prazer sem filtro é “sexual” — e portanto constrangedora. O século XIX chamava de “iluminados” e “vulgares”. A comunidade BDSM contemporânea chama de “responsáveis” e “exagerados”. O erótico é o pornográfico da burguesia kink.
E aqui o DSM entra de novo. O DSM-5 distingue parafilia aceitável de transtorno parafílico patológico. A comunidade BDSM acolheu essa distinção com alívio. Mas ao fazê-lo, aceitou o manual como árbitro legítimo de sua normalidade. (Marques da Silva, 2015) É a mesma lógica que Rubin descreveu na pirâmide: não se trata de derrubar a hierarquia, mas de subir nela.
A dívida com as origens
Mas aqui está o que frequentemente é esquecido: todas essas práticas têm uma dívida com as pessoas que nunca tiveram o privilégio de esconder o componente sexual. O pole dance existe como forma cultural porque mulheres rebolaram na barra de strip club, tiraram a roupa para ganhar dinheiro e expressaram sua sexualidade num espaço onde isso era permitido. O shibari ocidental existe porque pessoas amarraram e foram amarradas pelo prazer que isso gerava. O BDSM comunitário existe porque pessoas queer — especialmente homens gays do leather — lutaram pelo direito de viver suas práticas sexuais abertamente, muitas vezes ao custo de suas carreiras, famílias e liberdade.
“Turismo sexual” cultural: apropriar-se dos frutos da transgressão alheia enquanto nega a própria transgressão. Os artistas do shibari ganham festivais e workshops legais. Os “depravados” que amarram pelo tesão continuam estigmatizados. O BDSM “educativo” ganha espaço na mídia. O BDSM sexual continua sendo motivo de demissão.
Kimberly Springer, em The Color of Kink, mostra como essa dinâmica é ainda mais opressiva para mulheres negras: a política de respeitabilidade na comunidade BDSM reproduz a mesma lógica que historicamente exigiu de mulheres negras que provassem sua “moralidade” para serem levadas a sério. A “limpeza” da sexualidade nunca é neutra — ela reproduz hierarquias de raça, classe e gênero.
Quando o BDSM diz “nem tudo é sobre sexo” — o resultado individual pode ser proteção. A pessoa ganha aceitação, acesso a espaços, segurança social. Mas o resultado estrutural é que a sexualidade é reafirmada como algo vergonhoso, algo de que é preciso se distanciar. E isso não protege a comunidade — isso a afunda.
Sobre esta série
BDSM e o Fantasma do Sexo é uma série de 10 textos que investigam por que a comunidade BDSM sente necessidade de se distanciar da própria sexualidade — e o que essa estratégia custa politicamente. A série parte do ebook homônimo de Lino Naderer e incorpora referências de Walter Kendrick, Audre Lorde, Herbert Marcuse, Gayle Rubin, Paul Preciado e outros.
📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 7 de 10