8. BDSM e o Fantasma do Sexo — O custo político do distanciamento

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📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 8 de 10


Esta análise não é um julgamento moral sobre indivíduos. Existem razões legítimas pelas quais pessoas se distanciam do componente sexual de suas práticas: proteção no trabalho, segurança familiar, acesso a espaços públicos. A crítica aqui não é à motivação individual. É ao efeito estrutural.

E o efeito estrutural é destrutivo. Cada vez que a comunidade se explica dizendo “não, isso não é sexual”, ela reforça a premissa de que o sexual é inaceitável. Ela concede ao moralismo a vitória mais importante possível: a definição dos termos. Se você aceita que “sexual” é uma categoria que desqualifica, você já perdeu. Não importa o que você consiga negociar depois — você está operando dentro do campo semântico do oponente.

Lorde viu isso com clareza: a supressão do erótico é a estratégia mais eficiente de toda opressão, porque transforma a pessoa em cúmplice da própria diminuição. Quando você internaliza que o erótico é perigoso, vergonhoso, algo a ser contido, você aceita viver com menos do que pode ter.

Marcuse completaria dizendo: essa autonegção não é natural. Ela não é necessidade civilizatória. Ela é repressão excedente — repressão que vai além do que é necessário para a convivência social e serve apenas para manter a hierarquia do status quo. A comunidade BDSM não precisa negar sua sexualidade para existir. Ela precisa expandir o que a sociedade entende por sexualidade.

Paul Preciado, em Testo Junkie, situa a AIDS como o momento em que o regime farmacopornográfico reconfigurou sua gestão dos corpos queer. Nos anos 1970, o regime administrava a sexualidade pela produção — liberação sexual, era de ouro do pornô. Nos anos 1980, passou a administrá-la pela necropolítica: certos sexos tornaram-se literalmente associados à morte. A resposta da comunidade BDSM — “isto não é sexo” — foi, nesse contexto, uma resposta biopolitica de sobrevivência. Entender isso não é justificar o recuo político. É reconhecer que a emergência aguda já passou.

E aqui reside a ironia histórica mais importante: se não fosse a luta de pessoas que reivindicaram o BDSM explicitamente como sexualidade válida — os ativistas leather, as feministas pró-sexo, as trabalhadoras sexuais que se recusaram a pedir desculpa, os editores do SAMOIS que publicaram Coming to Power em 1981 reivindicando o SM lésbico como prática sexual radical — não haveria nem espaço para o argumento “ai, nem todo BDSM é sobre sexo”. Esse argumento só existe porque outras pessoas pagaram o preço de dizer que sim, é sobre sexo, e que sexo é legítimo.


Sobre esta série

BDSM e o Fantasma do Sexo é uma série de 10 textos que investigam por que a comunidade BDSM sente necessidade de se distanciar da própria sexualidade — e o que essa estratégia custa politicamente. A série parte do ebook homônimo de Lino Naderer e incorpora referências de Walter Kendrick, Audre Lorde, Herbert Marcuse, Gayle Rubin, Paul Preciado e outros.

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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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