3. BDSM e o Fantasma do Sexo — Sexo não é coito

📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 3 de 10 ← 2. A invenção do “erótico” 4. O mantra “não é sobre sexo” e suas origens → A segunda operação moralista que sustenta a pergunta “BDSM é sobre sexo?” é a redução de sexo a coito. Quando a maioria das pessoas diz…

📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 3 de 10


A segunda operação moralista que sustenta a pergunta “BDSM é sobre sexo?” é a redução de sexo a coito. Quando a maioria das pessoas diz “sexo”, o que estão dizendo é “peneção pênis-vagina”. Essa equação não é natural. Ela é uma construção heteronormativa, e uma construção com consequências concretas.

Se sexo é penetração pênis-vagina, então duas mulheres que fazem sexo entre si não estão “realmente” fazendo sexo. Dois homens que se tocam, se lambem, se provocam sem penetração não estão “realmente” fazendo sexo. Uma pessoa que tem um orgasmo intenso durante uma cena de impact play, sem que ninguém tenha tocado seus genitais, não está “realmente” fazendo sexo. Perceba o absurdo: a definição dominante de sexo invalida a experiência sexual de milhões de pessoas.

Essa redução não é apenas imprecisa — é política. Ela serve para manter a heterossexualidade reprodutiva como norma e tudo mais como desvio, perversão, ou “não-sexo”. Quando a comunidade BDSM diz “nem todo BDSM é sobre sexo”, frequentemente está operando dentro dessa definição reduzida sem perceber. O que estão dizendo, na prática, é: “nem todo BDSM envolve penetração”. E isso é verdade. Mas isso não é a mesma coisa que dizer que BDSM não está inserido no campo da sexualidade.

Prazer queer e a explosão do conceito

Para comunidades LGBTQIA+, essa distinção é cotidiana e muitas vezes dolorosa. A sexualidade queer sempre operou fora do modelo penetração-reprodutiva. Olhares, toques, dinâmicas de poder, tensão erótica, rituais de entrega — tudo isso é sexo, no sentido mais profundo do termo. Reduzir sexo a coito é apagar a existência sexual de corpos e relações que nunca couberam nesse molde.

O próprio Freud, antes de se tornar o conservador que a história canonizou, já argumentava nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905) que a sexualidade humana nasce difusa: o bebê obtém prazer de múltiplas zonas do corpo, não apenas dos genitais. A civilização comprime essa sexualidade difusa na genitalidade procriativa. Marcuse leu isso e perguntou: e se essa compressão for desnecessária?

Paul B. Preciado, no Manifesto Contrassexual, vai além: argumenta que os órgãos sexuais são construções regulatórias — proteções de um regime político que precisa que o prazer seja canalizado para a reprodução e o consumo. Nesse sentido, toda prática que reorganiza o prazer fora do modelo genital-reprodutivo — incluindo o BDSM — é um ato de hackear os protocolos. Não é “não-sexo”. É sexo expandido.

O regime farmacopornográfico: quando o prazer virou instrução

Em Testo Junkie (2008), Preciado nomeou o que estava acontecendo: o “regime farmacopornográfico”. O capitalismo tardio não governa a sexualidade principalmente pela repressão. Governa pela produção — pela gestão farmacológica do desejo (Viagra, contraceptivos, antidepressivos) e pela pornografia como tecnologia de normalização: um manual que mostra ao corpo o que ele deve querer, como deve funcionar, com quem, em que posição. Nesse regime, a pornografia não é um excesso. É uma instrução. (Preciado, 2013)

E aqui o argumento sobre o BDSM fica desconfortável: uma comunidade que diz “não somos sexuais” pode achar que está escapando do regime farmacopornográfico. Mas o regime não precisa que você seja sexualmente ativo para te administrar. Ele precisa que você aceite seus termos — incluindo o termo que diz que a sexualidade precisa de justificativa. Quando o BDSM aceita que “não-sexual” é mais respeitável do que “sexual”, está jogando exatamente o jogo farmacopornográfico.

Ninguém fica excitado 24 horas por dia. Ninguém vive em estado de orgasmo permanente. Mas a energia que sustenta uma relação BDSM — o desejo, a tensão, a entrega, o prazer de servir ou de comandar — é energia sexual no sentido amplo. Não é coito. Não precisa ser coito. Mas é sexualidade. E a comunidade precisa parar de ter vergonha disso.


Sobre esta série

BDSM e o Fantasma do Sexo é uma série de 10 textos que investigam por que a comunidade BDSM sente necessidade de se distanciar da própria sexualidade — e o que essa estratégia custa politicamente. A série parte do ebook homônimo de Lino Naderer e incorpora referências de Walter Kendrick, Audre Lorde, Herbert Marcuse, Gayle Rubin, Paul Preciado e outros.

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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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