📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 1 de 10
Existe uma pergunta que aparece com frequência surpreendente em grupos de discussão, rodas de conversa e fóruns da comunidade BDSM: “BDSM é sobre sexo?”. A pergunta parece inocente. Parece convidar à reflexão. Mas ela não é inocente. Ela é um sintoma.
É um sintoma porque ninguém pergunta se dançar tango é sobre intimidade. Ninguém pergunta se cozinhar para alguém é sobre afeto. Essas coisas são óbvias, e ninguém sente necessidade de negá-las. Mas quando o assunto é BDSM, uma parcela significativa da comunidade sente uma necessidade urgente de dizer: “não, não é sobre sexo”. E essa urgência de negar revela mais do que a resposta em si.
O que essa urgência revela é moralismo internalizado. Revela que, para muitas pessoas, “sexo” continua sendo uma palavra suja — algo de que é preciso se distanciar para ser levado a sério. E revela que a comunidade, apesar de se posicionar contra o estigma, frequentemente reproduz os mesmos mecanismos de hierarquia moral que a sociedade usa para oprimi-la.
Este texto não é uma resposta simples para a pergunta. É uma investigação sobre a pergunta em si: de onde ela vem, que estruturas históricas a sustentam, que interesses ela serve, e o que acontece quando uma comunidade inteira começa a pedir desculpa pelo próprio prazer.
O percurso da série vai da história à teoria, da teoria à política, e da política à prática. Vamos começar desmontando a distinção entre “erótico” e “pornográfico” como operação de classe — e mostrar como a própria palavra “pornografia” foi inventada para resolver um problema que não tinha nada a ver com conteúdo. Depois vamos desconstruir a equação sexo = coito como premissa heteronormativa, examinar como a crise da AIDS forçou a comunidade kink a “limpar” suas práticas para sobreviver, construir uma base teórica com Audre Lorde e Herbert Marcuse, analisar a armadilha da respeitabilidade, e terminar com a transgressão como essência.
Uma nota sobre assexualidade
A tese desta série não é que toda pessoa que pratica BDSM está fazendo sexo. Existem pessoas assexuais que praticam BDSM e que não experimentam atração sexual em nenhum momento. Existem demissexuais, gris-sexuais e outras configurações cuja relação com o prazer não passa pela genitalidade. Nenhuma dessas experiências é invalidada aqui.
O argumento é que o BDSM, enquanto fenômeno cultural e comunitário, opera no campo de Eros — e que Eros, como Audre Lorde e Herbert Marcuse nos ensinam, é uma força vital muito mais ampla do que o coito. A crítica é dirigida a um fenômeno estrutural — a política de respeitabilidade que leva a comunidade a negar sua própria sexualidade para ser aceita — e não a indivíduos que, por razões legítimas de segurança, trabalho ou família, escolhem não enfatizar o componente sexual de suas práticas.
Há uma diferença entre proteção individual e autonegação coletiva. Esta série analisa a segunda.
Esta série tem 10 partes e é publicada integralmente. Você pode ler em ordem ou entrar em qualquer capítulo.
Sobre esta série
BDSM e o Fantasma do Sexo é uma série de 10 textos que investigam por que a comunidade BDSM sente necessidade de se distanciar da própria sexualidade — e o que essa estratégia custa politicamente. A série parte do ebook homônimo de Lino Naderer e incorpora referências de Walter Kendrick, Audre Lorde, Herbert Marcuse, Gayle Rubin, Paul Preciado e outros.
📚 Série: BDSM e o Fantasma do Sexo · Parte 1 de 10