Parte 5 (final) — Institucionalização, FetLife e o presente (2005–hoje)

Do Clube Dominna ao FetLife, do Portal Senhor Verdugo ao bdsmbrasil.blog: o que sessenta anos de educação kink no Brasil nos ensinaram sobre como construir — e como perder — conhecimento comunitário.

Série: A Origem da Educação BDSM no Brasil — parte final. Partes anteriores: Parte 1 (1960–1985), Parte 2 (1986–1995), Parte 3 (1995–2001), Parte 4 (o Desejo Secreto). Esta parte conclui a série examinando o que veio depois e o que o percurso inteiro nos diz sobre educação kink no Brasil.

Quando o Desejo Secreto saiu do ar, em algum momento da primeira metade dos anos 2010, a cena brasileira já havia mudado bastante. Havia mais praticantes, mais espaços, mais conteúdo. O que havia mudado também era a estrutura: a educação kink no Brasil havia se fragmentado em dezenas de fontes menores, sem o peso de referência centralizada que o Desejo Secreto havia sido.

Para entender onde chegamos, é preciso acompanhar o que foi construído no intervalo.


Os primeiros espaços físicos em São Paulo (2002–2010)

A pesquisa de campo de Regina Facchini (Unicamp) documenta uma proliferação de espaços presenciais em São Paulo a partir de 2002. O grupo SoMos havia se reunido em bares e restaurantes de bairros de classe média paulistanos até o final dos anos 1990. No final dessa década, surge o bar Valhala: o primeiro espaço específico para a prática de SM em São Paulo, combinando um bar com um dungeon separado, equipado para práticas. Funcionou ligado ao SoMos até 2002.

Em 2004 surge o Clube Dominna, que funcionou com espaço próprio até 2010 e foi acompanhado em pesquisa de campo por Facchini e por Gregori. É nesse clube que Wilma Azevedo dá, em 2010, uma palestra sobre sua trajetória — fechando, de certa forma, o círculo que havia começado com suas colunas na Ele & Ela nos anos 1980.

O final dos anos 2000 vê surgir outros espaços: o Libens (2008–2009), o projeto Luxúria, festas fetichistas com periodicidade regular, e a Dungeon/Porão (desde 2012, com frequência quinzenal e depois mensal). A cena sai de um único grupo fundador para um ecossistema de iniciativas independentes e sobrepostas.

O Portal Senhor Verdugo: herdeiro e sistematizador

No ambiente online, o principal projeto que herda o papel educativo do Desejo Secreto é o Portal Senhor Verdugo. Diferente do Desejo Secreto, que nasceu de um grupo de amigos movidos por militância comunitária, o Portal tem um perfil mais institucional: descreve-se como “porta de entrada ao universo BDSM no Brasil”, com rede social integrada, classificados e conteúdo educativo.

A missão declarada é “divulgar o BDSM no Brasil e conscientizar que fetiche não se pratica com violência ou desrespeito; tudo que envolve fantasias deve ser vivido de forma sã, segura e consensual.” O vocabulário é o SSC — mas desta vez sem qualquer ambiguidade sobre a origem: é explicitamente apresentado como princípio fundador, não como resultado de debate interno.

O Portal cumpre funções similares às de associações educativas em outros países: sistematização histórica (textos sobre a origem do BDSM no Brasil e no mundo), glossários e artigos sobre consentimento, segurança e etiqueta, e um ambiente de socialização que integra prática com conteúdo educativo. Em descrições externas, é frequentemente chamado de “grande referência de estudo” e “porta de entrada não só para iniciantes, mas também para mais experientes na busca de conhecimento fundamentado, sério e consistente.”

FetLife, Orkut e a educação informal em escala global (2005–presente)

Em meados dos anos 2000, enquanto cresciam os espaços físicos e o Portal Verdugo consolidava sua presença online, outra infraestrutura se tornava relevante: as redes sociais. Facchini e Machado documentam que comunidades no Orkut se tornaram espaços importantes de troca a partir de meados dos anos 2000.

A virada mais significativa veio com o FetLife, lançado em 2008. A maior rede social kink do mundo trouxe para praticantes brasileiros acesso direto a comunidades anglófonas, grupos temáticos, conteúdo de usuários e, eventualmente, o Kinktionary: um glossário colaborativo construído pela própria comunidade global ao longo de anos, documentando centenas de roles, práticas e identidades kink.

O FetLife alterou a dinâmica da educação kink no Brasil de formas que ainda estamos processando. Por um lado, democratizou o acesso: qualquer pessoa com internet pode hoje encontrar conteúdo sobre virtualmente qualquer prática, em português ou inglês, gratuitamente. Por outro lado, pulverizou a curadoria: não há mais um Desejo Secreto que filtre, organize e atribua fontes. O volume cresceu exponencialmente; a qualidade média caiu.

Em 2026, um praticante iniciante que busca informação sobre BDSM em português encontra centenas de fontes. A maioria não cita fontes, não distingue opinião de fato, não contextualiza risco. O problema da educação kink no Brasil hoje não é falta de conteúdo — é falta de curadoria.

O que permanece constante: três padrões de 60 anos de história

Ao examinar o percurso inteiro — de Wilma Azevedo nos anos 1960 ao FetLife nos anos 2010 — três padrões se repetem com uma consistência que não pode ser acidental.

Primeiro: a educação kink no Brasil sempre emergiu pela margem. Não nasceu de instituições acadêmicas, não foi financiada por políticas públicas, não foi reconhecida por movimentos sociais maiores como parte de sua agenda. Cada projeto que examinamos nesta série — as colunas de Wilma, o SoMos, o Desejo Secreto — nasceu de pessoas que resolveram fazer sozinhas o que precisava ser feito, sem esperar condições ideais.

Segundo: o voluntariado sem infraestrutura cria projetos brilhantes e frágeis. O Desejo Secreto foi, por uma década, a melhor fonte de educação BDSM em língua portuguesa. Saiu do ar porque as pessoas que o mantinham ficaram sem tempo. O SoMos durou dez anos e sumiu sem sucessor formal. O Fantasy Club de Wilma durou um ano. O padrão é sempre o mesmo: surge um projeto excelente, dependente de pessoas específicas, sem mecanismo de continuidade, e some quando essas pessoas se afastam.

Terceiro: cada geração começa do zero. Praticantes que chegaram à cena após 2011 não tiveram o Desejo Secreto como referência. Os que chegaram após 2002 não conheceram o SoMos. Cada geração redescobre as mesmas perguntas — o que é consentimento, como negociar uma cena, o que é safeword — sem ter acesso fácil ao que a geração anterior havia construído. A memória da comunidade é estruturalmente curta.

O que isso significa para o presente

Esses três padrões não são inevitáveis. São resultados de escolhas — ou da ausência delas. A história da educação BDSM no Brasil é, em grande medida, a história de como projetos excelentes não construíram a infraestrutura necessária para sobreviver além das pessoas que os fundaram.

O que seria diferente num projeto construído com consciência dessa história? Provavelmente: documentação sistemática (não apenas conteúdo, mas registros sobre como o conteúdo foi produzido), formatos que permitam contribuição distribuída sem depender de um núcleo central, e algum mecanismo de transmissão entre gerações.

Não é uma tarefa simples. Mas é a tarefa que a história impõe a quem quer continuar o trabalho que Wilma Azevedo começou há sessenta anos com uma coluna numa revista erótica: tornar o BDSM acessível, compreensível e seguro em português.


Sobre esta série

Esta série de cinco textos foi produzida a partir de fontes primárias e secundárias, incluindo textos da própria Wilma Azevedo, a compilação histórica do site Desejo Secreto organizada por Equina Nur de ALUCARD (2019–2020), pesquisa acadêmica publicada nos Cadernos Pagu (Unicamp) por Regina Facchini e Sarah Rossetti Machado, e o livro autobiográfico de Glauco Mattoso. O acervo completo está disponível na biblioteca do projeto BDSM Brasil.

Fontes desta série

  1. AZEVEDO, Wilma. Nova definição do Sadomasoquismo. Texto sem data. Acervo BDSM Brasil.
  2. AZEVEDO, Wilma. Sadomasoquismo sem Medo. São Paulo: Iglu, 1998.
  3. FACCHINI, Regina; MACHADO, Sarah Rossetti. Do Sadomasoquismo Erótico ao BDSM: Discursos de Legitimação, Direitos Sexuais e Convenções Sociais sobre Gênero e Sexualidade no Contexto Brasileiro Pós-Redemocratização. Cadernos Pagu, Unicamp.
  4. MATTOSO, Glauco. Manual do Podólatra Amador. São Paulo: Casa do Psicólogo/All Books, 2006.
  5. Site Desejo Secreto. Compilação histórica organizada por Equina Nur de ALUCARD, 2019–2020. Arquivado no projeto BDSM Brasil.
  6. EDGHE. Sem Mistério: Uma Abordagem (na) Prática de Bondage, Dominação, Sadismo e Masoquismo. São Paulo: Companhia do Desejo, 2002.
  7. LANGDRIDGE, Darren; BARKER, Meg (org.). Sadomasochism: Powerful Pleasures. Haworth Press, 2006.
  8. ZILLI, Bruno. A “Arte do Sexo Seguro”: Pedagogia e Prazer no BDSM, 2007.
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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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