Parte 4 — O Desejo Secreto: a primeira biblioteca (2001–2011)

Em 2001, um grupo de voluntários que havia se conhecido no mIRC colocou no ar o Desejo Secreto — o maior repositório de educação BDSM em língua portuguesa já criado. Esta é a história do que construíram, e do que se perdeu quando foram embora.

Série: A Origem da Educação BDSM no Brasil. Partes anteriores: Parte 1 (1960–1985), Parte 2 (1986–1995), Parte 3 (1995–2001). Esta Parte 4 examina o Desejo Secreto em detalhe: o que foi, como funcionou e por que seu fechamento importa até hoje.

No início de 2001, um grupo de amigos que havia se conhecido nos canais de mIRC colocou no ar um site. Não tinham patrocinadores, não tinham orçamento e não tinham um modelo de negócio. O que tinham era, nas palavras de um dos fundadores, “a noção do quanto fazia falta uma fonte adequada e confiável sobre o assunto, um site informativo, educacional, que pudesse servir de referência quando alguém quisesse aprender mais.” (Desejo Secreto, compilação histórica)

O que nasceu dessa motivação simples se tornaria, na década seguinte, o maior repositório de educação BDSM em língua portuguesa já criado.


A equipe e a filosofia fundadora

O Desejo Secreto foi construído por um grupo pequeno: Lord Conrad, Liu (que mais tarde se tornaria Mégara), bee_a, Votan, Delmonica e Edghe, que posteriormente publicaria o livro Sem Mistério pela editora criada a partir do próprio site. Eram praticantes, não jornalistas ou acadêmicos. O que os distinguia era o compromisso com a qualidade da informação e com a atribuição de autoria, numa internet em que a cópia sem crédito já era prática comum.

O texto de abertura do site, escrito por Lord Conrad com o título “Uma ponte em dupla direção”, estabelecia o tom filosófico do projeto. Partindo de uma epígrafe de Sade — “eles favorecem vossas paixões; e essas paixões, cujos estigmas os tolos temem, são apenas a voz da Natureza” — Conrad definia o espaço como uma ponte: tanto para “aqueles que ainda são tímidos em relação às suas mais desvairadas fantasias” quanto para “aqueles que já elegeram o BDSM não somente como uma forma de vida, mas como uma razão de viver.” (Compilação Desejo Secreto)

A regra central era clara: “Que este espaço seja um ensejo à discussão, à difusão e à prática dos princípios do BDSM, sempre sob a regra do consenso.”

O que o site continha: uma biblioteca construída a muitas mãos

O Desejo Secreto era incomum para o padrão dos sites brasileiros da época porque priorizava conteúdo textual, educativo e referenciado. Seu acervo incluía:

  • A FAQ do soc.subculture.bondage-bdsm, traduzida com autorização formal do administrador Rob Jellinghaus. Era a principal FAQ em inglês do universo BDSM, cobrindo definições, segurança, safewords, técnicas e ética. O Desejo Secreto foi escolhido por Jellinghaus como tradutor oficial para o português.
  • Textos do projeto Revise F65, que lutava pela retirada de fetichismo e sadomasoquismo da lista de diagnósticos psiquiátricos do CID-10. Numa época em que “nem sonhava-se com a vinda do CID-11” (que só chegaria em 2018), traduzir esses textos era um ato de ativismo educativo.
  • Obras de autores internacionais traduzidas para o português: David Steinberg, Jack Rinella, Susan Wright, entre outros. Praticantes brasileiros que não liam inglês tinham ali acesso a décadas de reflexão da cena norte-americana e europeia.
  • O primeiro dicionário de termos BDSM em português do Brasil, que tentava criar uma base semântica comum para a comunidade lusófona — adaptando, não apenas traduzindo, conceitos que até então circulavam apenas em inglês.
  • Seções teóricas, filosóficas e de segurança: como diferenciar BDSM de abuso, confiança, moral e BDSM, técnicas de bondage, spanking e eletroestimulação, saúde (DSTs, HIV, fisting, velas, bondage seguro).
Um depoimento coletado na compilação histórica resume o que o site representava para uma geração: “Logo de cara eles nos davam um site que era um guia sobre BDSM. Passavam o link do site e falavam ‘vai lá, lê, estude e depois volte para tirar suas dúvidas’.”

A lista Yahoo e a comunidade que cresceu em torno do site

Além do conteúdo estático, o Desejo Secreto mantinha uma lista de discussão no Yahoo Grupos, criada em 2 de maio de 2001. A lista funcionava como o espaço dinâmico do projeto: debates, dúvidas, experiências compartilhadas, anúncios de encontros. Em janeiro de 2009 tinha 1.381 associados, um número expressivo para uma comunidade organizada em torno de um nicho específico.

A pergunta retórica da compilação histórica, ao mencionar esse crescimento, diz muito: “O que acharia Cosam Atsidas se tivesse vivo para ver isso?” O mesmo projeto que havia fracassado em 1983 por não conseguir manter uma rede de cem pessoas por correspondência havia, dezoito anos depois, reunido mais de mil pessoas numa lista de discussão online.

Reconhecimento acadêmico e a Companhia do Desejo

A relevância do Desejo Secreto não era apenas comunitária. A coletânea acadêmica Sadomasochism: Powerful Pleasures (2006), uma das principais referências internacionais sobre o tema, dedicou atenção específica ao site:

“Nos últimos dois anos, apareceram vários sites em português. Um deles, Desejo Secreto, o único até o momento com um claro propósito educacional, oferece um número razoável de textos teóricos.” (Sadomasochism: Powerful Pleasures, 2006)

Em 2002, o projeto extrapolou o digital. Nasceu a Companhia do Desejo, editora voltada para “erotismo e sua diversidade”, incluindo BDSM, sadomasoquismo, homoerotismo e fetiches. Seu único título publicado foi Sem Mistério: Uma abordagem (na) prática de bondage, dominação, sadismo e masoquismo, de Edghe, descrito como um livro com “explicações desmistificantes e educativas sobre o assunto.” A mesma coletânea acadêmica concluiu: “Com seus primeiros e excitantes passos, uma cultura BDSM brasileira nasceu.”

O declínio: o custo do voluntariado

O que destruiu o Desejo Secreto não foi falta de interesse do público. Foi falta de tempo dos voluntários.

Com o passar dos anos, as obrigações cotidianas foram absorvendo a capacidade de contribuição da equipe original. As atualizações, que haviam sido semanais, tornaram-se esporádicas. Membros fundadores se afastaram. A equipe que restou tentou manter o projeto, mas sem estrutura fixa isso se tornou cada vez mais difícil.

O paradoxo era cruel: mesmo com poucas atualizações, o site continuava sendo visitado por mais de 25 mil pessoas por mês. A demanda não havia diminuído. Era a oferta que havia secado.

“Porém, questões alheias à nossa vontade nos impedem de manter o site como gostaríamos. Enquanto isso, o conteúdo continua disponível à consulta de mais de 25 mil visitantes por mês.” (Equipe do Desejo Secreto, último comunicado)

O site ficou no ar por uma década, saiu sem anúncio formal, e deixou um vácuo. A compilação histórica organizada por Equina Nur de ALUCARD entre 2019 e 2020, usando extensivamente a Wayback Machine (151 versões arquivadas entre 2001 e 2011), é hoje o principal registro desse acervo.


O que o Desejo Secreto nos diz sobre educação kink

O Desejo Secreto provou que era possível construir, em português, uma infraestrutura educativa BDSM de qualidade reconhecida internacionalmente. Mas provou também os limites estruturais desse modelo: educação baseada em voluntariado, sem financiamento, sem institucionalização, é frágil. Depende da disponibilidade de pessoas específicas, e quando essas pessoas somem — por vida, por trabalho, por esgotamento — o projeto some com elas.

É por isso que o fechamento do Desejo Secreto não foi apenas a perda de um site. Foi a perda de uma década de conhecimento acumulado, de um glossário compartilhado, de uma referência comum. Praticantes que chegaram à cena após 2011 encontraram um ecossistema de informação mais amplo em quantidade, mas muito mais disperso em qualidade, sem o equivalente do que o Desejo Secreto havia sido para a geração anterior.

A Parte 5 e última desta série examina o que veio depois: o Portal Senhor Verdugo, o FetLife, o Kinktionary e os projetos contemporâneos, incluindo o bdsmbrasil.blog. E discute o que mudou e o que permanece em aberto na educação kink no Brasil.

Fontes

  1. Site Desejo Secreto. Compilação histórica organizada por Equina Nur de ALUCARD, 2019–2020. Arquivado no projeto BDSM Brasil.
  2. FACCHINI, Regina; MACHADO, Sarah Rossetti. Do Sadomasoquismo Erótico ao BDSM: Discursos de Legitimação, Direitos Sexuais e Convenções Sociais sobre Gênero e Sexualidade no Contexto Brasileiro Pós-Redemocratização. Cadernos Pagu, Unicamp.
  3. EDGHE. Sem Mistério: Uma Abordagem (na) Prática de Bondage, Dominação, Sadismo e Masoquismo. São Paulo: Companhia do Desejo, 2002.
  4. LANGDRIDGE, Darren; BARKER, Meg (org.). Sadomasochism: Powerful Pleasures. Haworth Press, 2006.
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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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