3. Fantasia, Cena e Estrutura Relacional: três planos distintos
Uma das confusões mais comuns — e mais perigosas — no discurso sobre CNC é a fusão de três planos que operam de maneiras fundamentalmente diferentes.
A fantasia de CNC
É um evento cognitivo. Acontece na mente. Pode envolver cenários extremos que a pessoa jamais desejaria viver de fato. A fantasia não exige negociação com ninguém, não envolve risco físico, e não implica desejo de execução.
As pesquisas de Justin Lehmiller, que Shelby Devlin cita extensivamente, indicam que fantasias envolvendo elementos de força ou não-consentimento são extremamente comuns: cerca de dois terços das mulheres e metade dos homens pesquisados relataram alguma forma de fantasia de sexo forçado. Ter a fantasia não é patológico. É estatisticamente normativo.
Mas a fantasia tem uma característica que a torna traiçoeira como preditora da experiência real: na fantasia, tudo funciona. Não há constrangimento, desconforto, estranheza, não há dor que não seja erótica, não há medo que não seja excitante, não há consequência emocional que não se dissolva ao abrir os olhos. A fantasia é editada pelo cérebro para maximizar prazer e eliminar atrito. A realidade não oferece essa cortesia.
Quem usa a fantasia como blueprint para a prática está construindo a partir de um mapa que omite metade do terreno.
A cena de CNC
É um evento delimitado no tempo e no espaço. Tem negociação prévia, tem início marcado, tem fim previsto, pode ter safeword. É uma performance conjunta dentro de um enquadramento consensual.
A cena termina, os participantes retornam à dinâmica ordinária, e o que aconteceu dentro da cena é processado via aftercare e comunicação posterior. A cena é o equivalente BDSM de um filme: tem roteiro (mesmo que improvisado), tem “ação”, tem “corta”.
A cena tem duas vantagens que a fantasia não tem: consequência real (o corpo participa, as sensações são genuínas, o processamento emocional acontece) e contenção (tem início, fim, e estrutura de segurança). E tem uma desvantagem que a fantasia não tem: imprevisibilidade. Na cena, os corpos reais respondem de formas que a imaginação não antecipou.
O autor de Discipline faz uma observação perspicaz sobre o valor da cena como formato: ela funciona como “teste de campo” para desejos. “A grande coisa sobre roleplay é que tem começo, meio e fim: você pode experimentar algo, e se não funcionar, quando a cena acaba, você pode geralmente voltar ao modo como a relação estava no início.” Isso é especialmente valioso para CNC, onde o que está sendo testado é potencialmente intenso demais para ser incorporado diretamente como estrutura relacional sem antes ser experimentado como evento contido.
A estrutura relacional de CNC
É uma condição permanente ou semi-permanente. Não tem “início” e “fim” no sentido de uma cena. É uma reorganização da arquitetura de poder da relação em que determinadas áreas de decisão foram delegadas de forma abrangente.
Funciona mais como uma constituição do que como um contrato por evento. A experiência é difusa, contínua, e integrada ao cotidiano. Não produz picos de adrenalina como uma cena — produz uma tonalidade diferente na relação como um todo.
Por que a confusão entre os três planos é perigosa
Confundir esses três planos gera problemas concretos:
Alguém que confunde fantasia com desejo de execução pode se sentir patológico por ter pensamentos que são estatisticamente normais. Ou, no outro extremo, pode tentar executar literalmente uma fantasia que funcionava na imaginação e descobrir que, no corpo, é outra coisa.
Alguém que trata uma cena como se fosse uma estrutura relacional pode pular etapas críticas de construção de confiança. “Fizemos uma cena de CNC que foi incrível, então agora você pode me pegar quando quiser” — não. A cena demonstrou que a experiência é prazerosa. Não demonstrou que a arquitetura de poder contínuo funcionará igualmente bem.
Alguém que aborda uma estrutura relacional como se fosse uma cena pode subestimar a profundidade do compromisso envolvido. “Vamos experimentar CNC como dinâmica” sem a construção lenta de confiança, calibragem e meta-comunicação que uma estrutura contínua exige é construir sem fundação.
Para compreender o campo, é útil mapear os subtipos. Não se trata de uma taxonomia rígida — na prática, cenas frequentemente combinam elementos de múltiplas categorias — mas de um mapa que permite situar diferentes práticas dentro do espectro e, principalmente, permite que praticantes comuniquem com precisão o que desejam.
Rape play / Ravishment
A simulação de um encontro sexual forçado. Dentro dessa categoria, existe uma variação de tom que é pouco reconhecida e que importa muito na negociação.
O ravishment enfatiza o desejo irresistível: o dominante quer tanto a submissa que não se contém. Há sedução, há escalada, há um momento em que a resistência é vencida pelo desejo. O arco emocional é de rendição ao desejo — “eu não queria, mas quero”. A violência, quando existe, é instrumento da paixão, não fim em si mesma.
O rape play propriamente dito enfatiza a tomada de poder. A violência é o ponto. O medo é o ponto. A sensação de ser usada, objectificada, reduzida é o que produz o efeito. O arco emocional é de subjugação — “eu não quero, e isso não importa”.
Esses dois registros atendem a necessidades psicológicas fundamentalmente diferentes. A pessoa que deseja ravishment pode ficar traumatizada com rape play. A pessoa que deseja rape play pode achar o ravishment insuficiente. A negociação precisa ir além de “sexo forçado” e chegar ao tom, ao arco emocional, à qualidade da experiência pretendida.
A descrição do praticante Barak, citado no livro de Taormino, é iluminadora nesse ponto. Ele distingue entre um cenário de “date rape” coercivo, em que o objetivo eventual é satisfação mútua e a “vítima” é eroticamente seduzida através da resistência, e um cenário de consentimento completamente não-consensual, em que há “desconsideração específica pela satisfação do outro” e o mindset exige objectificação deliberada. São práticas radicalmente diferentes que vivem sob o mesmo rótulo.
Captura, sequestro e interrogatório
Cenários em que a pessoa é fisicamente contida, transportada, isolada ou submetida a pressão psicológica para “extrair” informação ou “quebrar” sua resistência.
A captura e o sequestro enfatizam a perda total de controle sobre o próprio corpo e destino. O bottom é levado, contido, colocado em situação de impotência. A excitação pode vir do medo, da adrenalina, da sensação de estar à mercê do outro, ou da eventual rendição.
O interrogatório adiciona uma camada de jogo psicológico. Existe um objetivo dentro da ficção (obter informação, obter confissão), e a cena se organiza em torno da tensão entre a resistência do bottom e a pressão do top. Os Brame documentam em Different Loving que cenários de interrogatório frequentemente continuam “até que o submissivo sinta que sua vontade foi dobrada” — e que essa experiência de ter a vontade dobrada, dentro de um contexto controlado, é profundamente satisfatória para praticantes que a buscam.
A complexidade dessas cenas está no fato de que frequentemente combinam componentes físicos (bondage, impacto, desconforto posicional) com componentes psicológicos (medo, incerteza, pressão verbal). A negociação precisa cobrir ambas as dimensões, e o top precisa ser capaz de gerenciar ambas simultaneamente — o que exige uma habilidade de “direção de cena” que vai muito além da competência técnica com cordas ou implementos.
Coerção psicológica
Cenários em que a “forçação” não é física, mas situacional: chantagem ficcional, abuso de autoridade performado (professor/aluna, chefe/empregada, médico/paciente), manipulação emocional dentro de um roteiro.
A violência aqui é intelectual e emocional, não corporal — o que não a torna menos intensa. Em muitos aspectos, a coerção psicológica pode ser mais perturbadora que a física, porque atinge camadas da identidade que a força bruta não alcança. Ser fisicamente contido é uma experiência do corpo. Ser psicologicamente manipulado é uma experiência do eu.
A educadora Shelby Devlin situa a coerção psicológica num espectro mais amplo de CNC, incluindo cenários em que o dominante “convence” o submissivo a consentir através de pressão situacional — uma dinâmica que replica, no espaço controlado da cena, mecanismos de poder que existem no mundo real (poder profissional, poder acadêmico, poder econômico). É edge play não apenas no sentido físico, mas no sentido sociopolítico: está brincando com fogo real.
Sleep play / Somnophilia consensual
Atos sexuais iniciados enquanto uma das partes está dormindo ou fingindo dormir. Essa modalidade tem uma particularidade que a distingue de outras formas de CNC: o bottom não está cognitivamente presente no momento do início do ato. Na maioria das outras formas de CNC, o bottom está plenamente consciente e “performa” resistência ou submissão. No sleep play, a consciência é genuinamente ausente no início — e a transição entre sono e vigília é, em si, uma experiência que pode ser desorientadora.
Isso exige negociação prévia extremamente detalhada, incluindo: quais atos são permitidos, uso obrigatório de lubrificante para penetração, condições para despertar (deve o top continuar após o bottom acordar? deve parar? depende da reação?), e um entendimento claro de que o bottom pode, ao acordar, sentir-se desorientado ou perturbado de formas que não antecipou — e que isso não é falha, é risco inerente à prática.
Struggle play / Resistência física
Cenas em que o bottom resiste fisicamente e o top precisa contê-lo pela força. O prazer está no embate corporal, na demonstração de poder físico, e na eventual subjugação.
Os autores de The New Bottoming Book abordam isso com clareza prática: a resistência física real é divertida mas não é simples. Não é fácil — e às vezes é quase impossível — subjugar alguém que resiste com toda sua força. Isso significa que a cena precisa de algum tipo de “desequilíbrio” planejado: o bottom pode cortar sua própria força, ou usar uma desvantagem inicial (um membro já contido) que permita resistência genuína sem tornar a contenção impossível.
Há também uma questão fisiológica relevante: o rush de adrenalina que acompanha a resistência física pode ser incompatível com abertura sensorial e erótica. Algumas pessoas precisam de uma transição entre a fase de luta e a fase de rendição erótica — e essa transição pode precisar ser construída dentro do “roteiro” da cena.
CNC como estrutura relacional contínua
Este é o tipo menos discutido publicamente e mais complexo. Aqui, CNC não é um evento com início e fim, mas uma condição permanente da dinâmica. O bottom concedeu consentimento abrangente para que o top exerça determinados poderes a qualquer momento, sem negociação específica para cada ocasião.
É o território do Total Power Exchange (TPE) e de dinâmicas 24/7 que incluem CNC como elemento estrutural. A formulação varia: “você pode usar meu corpo quando quiser”, “suas decisões sobre X não precisam de minha aprovação”, “eu consinto antecipadamente com o que você decidir dentro dos parâmetros que já estabelecemos”.
Esse tipo de CNC gera desconforto em parte da comunidade porque parece se aproximar perigosamente de abdicação de direitos. A resposta que os praticantes dão é que o consentimento abrangente não é irrevogável — pode ser retirado a qualquer momento pela dissolução da dinâmica — e que funciona dentro de um campo de confiança construído ao longo de tempo. Voltaremos a isso quando abordarmos a verossimilhança estrutural.
Como atravessar dor, conflito e falha sem colapsar em culpa, acusação ou silêncio
No BDSM ético, cenas não terminam quando o corpo para. Elas continuam no sistema nervoso, na memória emocional, no vínculo e na forma como a experiência é integrada.
A reparação pós-cena não é um favor, nem um gesto de “boa vontade”. Ela é parte da responsabilidade ética de quem escolhe práticas intensas.
PASSO 1 — Pausa reguladora (não converse no pico emocional)
📌 Objetivo: evitar que a conversa vire descarga emocional ou julgamento.
Após uma cena intensa, podem ocorrer:
sub drop
dom/top drop
vergonha tardia
confusão emocional
reativação de trauma
👉 Regra de ouro: Não tente “resolver” nada enquanto o corpo ainda está em alerta.
O que fazer:
hidratação
descanso
contato corporal acordado (se desejado)
silêncio respeitoso
combinar um horário futuro para conversar
O que NÃO fazer:
discutir “quem errou”
justificar a cena
acusar
exigir explicações imediatas
Schulman lembra: conversas feitas no pico emocional produzem punição, não entendimento.
PASSO 2 — Autorreflexão antes do diálogo
📌 Objetivo: separar dor, expectativa e responsabilidade.
Antes de conversar, cada parte deve se perguntar sozinho:
Para quem sentiu dor:
O que exatamente doeu: o ato, o significado ou o depois?
Isso foi violação de limite ou frustração de expectativa?
Algo foi implícito e nunca verbalizado?
Estou buscando compreensão ou punição?
Para quem conduziu a cena:
Algum sinal foi ignorado?
Houve ambiguidade na negociação?
Algo poderia ter sido melhor cuidado depois?
Estou disposto a escutar sem me defender?
👉 Reparação começa antes da conversa.
PASSO 3 — Abertura da conversa (forma importa mais que conteúdo)
📌 Objetivo: criar um espaço seguro para escuta real.
Frases que abrem diálogo:
“Quero conversar sobre algo que ficou em mim depois da cena.”
“Não estou te acusando, quero entender e elaborar.”
“Algo me atravessou e preciso falar com cuidado.”
Frases que FECHAM diálogo:
“Isso foi abusivo.”
“Você me traumatizou.”
“Você deveria saber.”
“Todo mundo sabe que isso é errado.”
Schulman é clara: linguagem acusatória chama punição, não reparação.
PASSO 4 — Nomear a experiência sem transformar em julgamento
📌 Objetivo: distinguir impacto de intenção.
Estrutura recomendada:
O que aconteceu (fato)
Como isso foi sentido
O que isso significou
O que precisa agora
📌 Exemplo:
“Quando você usou aquela frase na cena, eu consenti naquele momento. Depois, senti vergonha e uma queda emocional forte. Percebi que isso tocou algo antigo em mim. Queria conversar sobre como lidar com isso se acontecer de novo.”
👉 Isso não criminaliza, mas responsabiliza.
PASSO 5 — Escuta ativa (sem defesa, sem explicação precoce)
📌 Objetivo: validar a experiência sem reescrever a realidade do outro.
Quem escuta deve:
não interromper
não justificar imediatamente
não minimizar (“não foi nada”)
não patologizar (“isso é coisa sua”)
Frases éticas de escuta:
“Entendo que isso foi pesado para você.”
“Obrigada/o por confiar isso a mim.”
“Quero entender melhor.”
👉 Validar sentimento não é admitir abuso. É reconhecer humanidade.
PASSO 6 — Assumir responsabilidade sem colapsar em culpa
📌 Objetivo: diferenciar responsabilidade de autoflagelação.
Responsabilidade saudável diz:
“Posso ter subestimado esse impacto.”
“Isso não foi minha intenção, mas aconteceu.”
“Quero ajustar.”
Culpa tóxica diz:
“Sou um monstro.”
“Nunca mais faço nada.”
“Então tudo foi errado.”
📌 Schulman alerta: culpa performática não repara nada. Ela só desloca o foco para quem se culpa.
PASSO 7 — Reparação concreta (não simbólica)
📌 Objetivo: transformar aprendizado em ação.
Perguntas-chave:
“O que te ajudaria agora?”
“O que precisamos mudar?”
“Isso vira limite, ajuste ou exclusão da prática?”
Exemplos de reparação:
redefinir linguagem permitida
criar check-in pós-cena obrigatório
mudar tipo de aftercare
suspender uma prática específica
renegociar a dinâmica
👉 Reparação sem mudança é só discurso.
PASSO 8 — Integração pós-conversa
📌 Objetivo: fechar o ciclo sem ressentimento.
Após a conversa:
não ficar reprocessando acusações
observar o corpo e o vínculo
checar alguns dias depois
permitir que a experiência amadureça
Às vezes, a conclusão será:
“Seguimos com ajustes.” Outras vezes:
“Essa dinâmica não é mais saudável para mim.”
Encerrar não é fracasso. Fracasso é repetir dano sem escuta.
PASSO 9 — Quando a reparação NÃO é suficiente
📌 Importante: este guia não se aplica quando há:
violação clara de consentimento
medo contínuo
coerção
padrão repetido de dano
retaliação por falar
Nesses casos, a prioridade é proteção, não reparação relacional.
Schulman enfatiza: diálogo não pode ser exigido de quem está em risco.
Onde a dor constrói sentido — e onde ela destrói pessoas
O BDSM trabalha deliberadamente com elementos que, fora de contexto, se parecem com violência: dor, humilhação, dominação, medo encenado, perda de controle simbólica. Mas aparência não é essência. O que define a ética não é o que se faz, e sim como, por quê e dentro de que estrutura de poder.
Confundir dano simbólico consensual com violência real não protege ninguém. Pelo contrário: dissolve os critérios que permitem identificar abuso de verdade.
1. O que é dano simbólico consensual
Dano simbólico consensual é aquele que:
é negociado explicitamente
ocorre dentro de um enquadramento ritualizado
tem função erótica, psicológica ou relacional
é limitado no tempo e no contexto
preserva a autonomia profunda da pessoa envolvida
Ele não é um “acidente” da cena — ele é parte do jogo.
Exemplos claros de dano simbólico consensual:
Dor física negociada em impacto, bondage ou edge play
Humilhação verbal dentro de um personagem acordado
Uso de linguagem degradante consensual
Simulações de controle, punição ou desigualdade
Jogos de medo, rendição ou vulnerabilidade
Aqui, o “dano” não visa destruir o outro, mas ativar sentidos, emoções e estados internos.
📌 Como aponta Schulman, o sofrimento não é automaticamente prova de abuso. No BDSM, isso é ainda mais evidente: muitas experiências profundamente significativas passam necessariamente pela dor.
2. O papel do enquadramento simbólico
No BDSM, nada acontece “no vazio”. Existe um enquadramento simbólico, que transforma atos potencialmente violentos em experiências ritualizadas.
Esse enquadramento inclui:
negociação prévia
consentimento informado
papéis claros (Top/bottom, Dom/sub, personagens)
safewords ou mecanismos de interrupção
aftercare
integração pós-cena
É esse conjunto que desativa a violência real.
📌 Um tapa fora da cena pode ser agressão. 📌 O mesmo tapa, dentro de um acordo, pode ser intimidade profunda.
O gesto não muda. O significado muda completamente.
3. Violência real: quando o simbólico colapsa
Violência real no BDSM não é definida pela intensidade do ato, mas pela quebra da estrutura que sustenta o consentimento.
Ela ocorre quando há:
violação de limites acordados
ignorar safewords ou sinais claros de retirada de consentimento
coerção emocional (“se você não fizer, vou te abandonar”)
uso da dinâmica para controlar vida, identidade ou rede social
desumanização sem possibilidade de saída
repetição de dano sem escuta ou ajuste
Aqui, o dano não é simbólico. Ele é instrumental: serve para dominar, silenciar ou destruir a autonomia do outro.
4. Dor não é o critério — poder é
Esse é um erro comum, inclusive dentro da cena: achar que a diferença entre BDSM e abuso está no quanto dói.
Não está.
A diferença está em:
quem pode dizer não
o que acontece quando alguém diz não
quem define os limites
se há possibilidade real de retirada
se o vínculo permite reparação
Schulman enfatiza: abuso envolve assimetria de poder usada para negar a realidade do outro. No BDSM ético, a assimetria existe — mas é negociada, temporária e reversível.
5. Quando alguém se machuca, mas não houve violência
Isso é delicado — e precisa ser dito com responsabilidade.
É possível:
alguém sofrer emocionalmente
alguém se arrepender
alguém descobrir um limite depois da cena
alguém se sentir envergonhado, exposto ou confuso
Sem que isso configure violência.
📌 Exemplo comum Uma pessoa consente com humilhação verbal. Durante a cena, tudo flui. Depois, surge vergonha intensa e queda emocional.
Isso exige:
acolhimento
conversa
ajuste
cuidado
Não exige, automaticamente:
acusação
punição
exclusão
Schulman alerta que transformar sofrimento em acusação automática impede elaboração. No BDSM, isso bloqueia aprendizado e maturidade emocional.
6. O erro de tratar dano simbólico como agressão retroativa
Um risco crescente na cena é o que podemos chamar de criminalização retroativa da experiência.
Funciona assim:
A cena foi consensual.
A pessoa sofre depois.
A dor é reinterpretada como prova de violência.
O outro é rotulado como abusador.
Isso ignora algo fundamental: 👉 consentimento não é garantia de ausência de dor, é garantia de escolha.
Escolher algo intenso envolve risco emocional. Eliminar esse risco não torna o BDSM mais seguro — torna-o inviável.
7. Quando o discurso da proteção vira controle moral
Aqui, a análise de Schulman se encaixa perfeitamente no BDSM.
Quando toda dor é tratada como violência:
a cena passa a ser regulada pelo medo
Tops têm receio de qualquer intensidade
bottoms perdem agência sobre seus próprios limites
comunidades recorrem a cancelamento em vez de mediação
Isso cria uma cultura onde:
errar é imperdoável
aprender é perigoso
conversar é arriscado
E isso não protege vítimas reais — apenas cria silêncio e ressentimento.
8. Como diferenciar na prática
Perguntas-chave para avaliar a situação:
Houve negociação explícita?
O consentimento podia ser retirado?
O safeword foi respeitado?
Houve escuta após o desconforto?
Existe padrão repetido de dano?
A pessoa tinha liberdade real de sair?
Se a resposta for majoritariamente sim, estamos falando de dano simbólico consensual que precisa de elaboração, não de violência.
Se a resposta for majoritariamente não, estamos diante de abuso real.
Síntese ética
BDSM não é ausência de dano — é dano com sentido, limite e cuidado
Violência real começa quando o simbólico é usado para negar humanidade
Dor consensual pode transformar
Violência destrói
Confundir as duas coisas enfraquece tanto a ética quanto a proteção
Consentimento em Relacionamentos de Troca de Poder
Kayla Lords e John Brownstone
Speaker 1 [00:00]
Speaker 2 [00:11]Você está ouvindo o mini episódio número 54 do podcast Loving BDSM. Kayla Lords aqui com o único, o inigualável… já tomou café o suficiente?
Speaker 1 [00:19]Tô chegando lá.
Speaker 2 [00:19]Ok, continua, continua tomando. John Brownstone. Um grande obrigado aos nossos apoiadores lá no patreon.com/KaylaLords por tornarem esse episódio possível.Essa semana, a gente vai falar sobre algumas coisas que você precisa lembrar sobre consentimento em um relacionamento de troca de poder.Não é tão diferente do consentimento em qualquer outro tipo de relação, mas às vezes, relações D/s precisam de um lembrete.Bem-vindos ao Loving BDSM Podcast. Se é a sua primeira vez ouvindo, que bom ter você aqui. Se você já voltou mais uma semana, bem-vinde de volta. Volte sempre e sinta-se à vontade para adicionar o podcast no seu app favorito.Você também pode seguir o show no Twitter, no Fetlife como Loving BDSM, no Instagram como @lovingbdsmpc — eu vou odiar pra sempre esse nome. Também tem o @lovingds1 ou no YouTube em youtube.com/lovingbdsm. Todos os links estão nas notas do episódio em lovingbdsm.net.
Speaker 1 [01:08]Consentimento e negociação acontecem todos os dias.
Speaker 2 [01:11]Muita gente acha que sentou pra negociar sua troca de poder, teve uma, duas, talvez até três conversas inteiras…
Speaker 1 [01:18]Tipo “pronto, resolvido”.
Speaker 2 [01:19]E acabou.
Speaker 1 [01:20]É… não.
Speaker 2 [01:20]“Já negociamos, então nunca mais precisamos renegociar.” Mas, na real, você renegocia todo dia.É sutil, mas todo dia.Todo dia, um submisso tem que decidir: “Eu vou fazer aquilo que eu disse que faria?”Todo dia, o dominante tem que pensar: “Eu vou cumprir aquela regra, aquele protocolo, aquela expectativa? Eu vou fazer aquilo que eu disse que faria?”Então, na verdade, vocês estão negociando constantemente, um com o outro e consigo mesmos.E em qualquer momento, pode ser que algo precise mudar no que vocês achavam que ia funcionar na relação D/s.Alguém pode precisar dizer: “Não quero mais isso” ou “Esse momento não é o certo.” E isso é negociação.Porque negociação é só uma palavra chique pra uma conversa.Então você está sempre fazendo isso — às vezes de forma mais sutil, às vezes mais evidente — mas é todo dia.
Speaker 1 [02:09]Submissives podem dizer não.
Speaker 2 [02:11]Eu queria não ter que dizer isso, queria que fosse óbvio. Mas sim, um submisso pode dizer não.O jeito que esse “não” soa e como ele é dito pode variar dependendo do que vocês negociaram na relação.No nosso caso, a gente não tem horários fixos pra discutir a situação da nossa troca de poder — só fazemos isso quando queremos.Se tem algo no horizonte, a gente conversa.Se estamos no meio de um momento intenso, uma cena, sei lá, e algo não parece certo pra mim, algo está estranho…Eu posso optar por sair daquilo.Agora, se eu disser “não” pra algo que normalmente diria “sim”, isso já significa que vai ter uma conversa depois, né?Mas eu não perdi o direito de dizer “não” só porque, uma vez, eu disse “sim” pra ser submissa.
Speaker 2 Eu não assinei um contrato que diz que, agora que sou submissa, não posso mais dizer “não”. Isso não existe. E se alguém está dizendo que você, como submisso(a), não pode dizer “não”? Corre.
Speaker 1 [03:03] Corre. Vai embora.
Speaker 2 [03:04] Vaza. Corre. Porque isso não é consensual. Isso não é troca de poder. Isso é abuso. Agora, isso não quer dizer que a conversa vai ser fácil. Se você diz “não” pra uma coisa que antes era “sim”, isso talvez cause uma reação. Talvez gere frustração. Talvez exija mais diálogo. Mas isso não invalida o seu direito de dizer “não”. O mesmo vale pro dominante. Se algo não está funcionando, se alguma parte do protocolo, do contrato, da rotina não está legal, ele também pode parar e dizer: “Ei, precisamos conversar sobre isso.”
Speaker 1 [03:30] E isso acontece com a gente.
Speaker 2 [03:32] Direto. A gente já teve momentos em que você, como dominante, falou: “Olha, isso aqui não está funcionando. Vamos mudar.” Às vezes você pergunta: “Como você se sente com isso?” E às vezes só diz: “Vamos fazer de outro jeito.” E depois discutimos.
Speaker 1 [03:44] É um processo. Um fluxo constante.
Speaker 2 [03:45] Exato. Não é estático. Não é uma vez e pronto. Você vai precisar revisitar conversas, reafirmar consentimentos, fazer ajustes. E não tem nada de errado com isso. Isso não significa que o relacionamento está quebrado. Na verdade, significa que ele está vivo. Que vocês estão prestando atenção um no outro.
Speaker 1 [04:01] Que vocês se importam.
Speaker 2 [04:02] Sim. Que vocês se importam. Que vocês querem fazer dar certo. E isso exige trabalho. E, honestamente, às vezes a gente esquece disso. Acha que, só porque já tivemos “a conversa”, nunca mais precisamos ter de novo.
Speaker 1 [04:12] Mas as pessoas mudam.
Speaker 2 [04:13] As pessoas mudam, as circunstâncias mudam, os limites mudam, o conforto muda, a química muda… Então a negociação — que, de novo, é só uma conversa — precisa acontecer de novo. E às vezes, sim, é sobre consentimento. “Eu ainda quero fazer isso?” “Isso ainda me dá prazer?” “Isso ainda me faz sentir seguro(a), respeitado(a), valorizado(a)?” E se a resposta for não… Então você tem que falar sobre isso.
Speaker 2 [continuação] E sim, pode ser desconfortável. Pode ser difícil falar: “Ei, isso que a gente sempre fez… não tá mais funcionando pra mim.” Mas vale muito mais a pena ter essa conversa do que continuar fazendo algo que te machuca, te incomoda ou te faz se sentir mal.
Speaker 1 [04:48] Ou que acaba criando um ressentimento.
Speaker 2 [04:50] Isso! Porque você continua dizendo “sim” só porque acha que “deveria”, mesmo querendo dizer “não”. E aí você começa a se ressentir da pessoa. E ressentimento é veneno pro relacionamento.
Speaker 1 [05:00] Sim, e mesmo do lado do dominante… Se eu me sentir obrigado a continuar fazendo algo que não funciona mais pra mim, também vou começar a me sentir mal. E aí isso afeta tudo.
Speaker 2 [05:10] E é por isso que a gente diz: negociação e consentimento são constantes. Não é um item riscado da lista. É algo que faz parte da vida do relacionamento D/s. Todo dia, em pequenas ou grandes formas. E sim, submissives podem dizer não. Dominantes também. E todo mundo tem o direito de mudar de ideia.
Speaker 1 [05:28] E isso não invalida o que foi antes.
Speaker 2 [05:30] Exato. Mudar de ideia não significa que você estava errado antes. Só significa que você é humano. E está prestando atenção em si mesmo. E se você está numa relação onde a outra pessoa não aceita isso? Onde o “não” é desrespeitado? Onde mudar de ideia é visto como traição?
Speaker 1 [05:45] Isso é um grande sinal de alerta.
Speaker 2 [05:47] É hora de reavaliar tudo. Porque um relacionamento D/s saudável se baseia em confiança, comunicação e consentimento contínuo. Sem isso? É só controle e abuso disfarçados de D/s.
Speaker 1 [05:59] E ninguém merece isso.
Speaker 2 [06:00] Exato. Todo mundo merece estar numa relação onde se sinta seguro(a), ouvido(a) e respeitado(a). Seja como submisso(a), dominante ou switch. Negocie sempre. Converse sempre. E lembre que o “não” também é parte do consentimento.
Speaker 2 Se tem algo que queremos que você tire desse episódio curto é isso: Negociação não é só uma etapa do começo. É parte do relacionamento inteiro. Consentimento não é dado uma vez e pronto — ele é reafirmado todos os dias. E submissives sempre podem dizer não.
Speaker 1 [06:21] Sempre.
Speaker 2 [06:22] Dominantes também. E isso não te torna menos submisso ou menos dominante. Te torna responsável. Maduro. Cuidadoso. E respeitador da outra pessoa. Então é isso. Mini episódio de hoje — lembrete rapidinho.
Speaker 1 [06:35] Mas importante.
Speaker 2 [06:36] Muito importante. Pra quem tá começando, pra quem já tá no meio do caminho, pra quem vive isso há anos. A gente precisa sempre lembrar dessas coisas. E, como sempre, obrigado por ouvir. Se você quiser apoiar o que a gente faz, pode fazer isso no patreon.com/KaylaLords. E não esquece de seguir a gente onde você escuta podcasts, ou nas redes sociais.
Speaker 1 [06:54] E se cuida.
Speaker 2 [06:55] Se cuida, mesmo. A gente se vê na próxima.
O que atrai as pessoas para o sexo kinky? Com certeza deve envolver traumas de infância e pornografia na internet… Brincadeira. Pensamento crítico é sempre bem-vindo, mas essa é bem óbvia: as pessoas gostam de kink porque… gostam.
Como outras formas de atividade sexual, o kink está ligado à excitação, estímulo, prazer e gratificação física. Algumas pessoas simplesmente “nascem kinky”, enquanto outras descobrem esse lado ao longo do desenvolvimento sexual — talvez brincando de caubóis e índios com os vizinhos na infância. Você pode estar em um casamento feliz, com os filhos já criados, e só então perceber que adora uma boa sessão de flogging antes de dormir e um espartilho de couro. Gostos kinky são amplamente difundidos, naturais e normais. (O que é “normal” será definido com mais precisão no próximo capítulo.)
Mas kink é bem diferente de gratificação instantânea ou hedonismo desenfreado. O sexo kinky envolve dinâmicas de poder interpessoal, emoções humanas primitivas, autoconhecimento e intimidade. Aqui estão algumas razões frequentemente mencionadas por quem prefere o sexo kinky. Veja se alguma delas ressoa com você.
Prazer
O prazer é, sem dúvida, o motivo mais comum, mais convincente e mais importante que as pessoas apontam para suas inclinações kinky. Geralmente, há recompensas psicossexuais intensas específicas dos atos sexuais kinky. Esses prazeres muitas vezes (mas não sempre) têm origem em experiências da infância ou em relacionamentos anteriores, nos quais elementos do sexo kinky estavam associados à antecipação, estímulo e orgasmo. Muitas pessoas descobrem que expressam melhor sua sexualidade quando incorporam um ingrediente kinky, do que quando se restringem ao sexo mais tradicional ou “baunilha”. A satisfação de impulsos psicológicos profundos e necessidades emocionais fornece uma fonte inesgotável de prazer vinda de todo tipo de prática kinky.
Por mais contraintuitivo que pareça, prazeroso não significa necessariamente agradável. Uma experiência muito desagradável pode produzir um prazer intenso — pela antecipação, pelo estímulo sensorial real e pela satisfação de ter vivido aquele encontro com seu parceiro. Grande parte do sexo kinky envolve sentir prazer por meio de algum tipo de dor. Caçadores de adrenalina não pulam de aviões ou andam em montanhas-russas pelo conforto sereno da experiência. Da mesma forma, uma pessoa kinky pode extrair imenso prazer da dor física, do controle psicológico, do autossacrifício e da disciplina.
Esse tipo de busca por prazer vem com o mesmo aviso que vale para qualquer coisa sexual: se você não gosta do que está fazendo, pare. Seu corpo se comunica com sua mente por meio do seu estado físico, e sua intuição é bem eficiente. Se algo parece fundamentalmente errado (ou seja, você sente como se estivesse sendo esfaqueado, mas não está), provavelmente está causando algum dano à sua saúde física ou bem-estar emocional. Cabe a você determinar o quanto tolera coisas que não gosta. No meu caso, aprendi a gostar da sensação de desconforto social. Eu transformo isso em um jogo: conhecer estranhos, provocar debates acalorados, discutir assuntos tabus — porque isso me ajuda a crescer como pessoa. Assim como ir à academia dói enquanto seus músculos se rompem (não sou masoquista, não gosto de dor pelo simples prazer da dor), se você quer estar em forma, vai ter que suportar o desconforto para alcançar resultados satisfatórios.
Se expor a desafios pode trazer o prazer de se conhecer melhor. Soa como um caminho para o despertar espiritual, não é? Pois adivinha só…
Tente Qualquer Coisa Pelo Menos Uma Vez
Uma namorada que tive na faculdade era selvagem. Ela era viciada em estímulo, tinha sobrancelhas furadas, cabelo roxo e topava qualquer parada. O bondage começou como uma curiosidade mútua e acabou virando um padrão sexual entre nós.
Transávamos na mesa de centro, na sala de jantar, nas escadas da biblioteca, fazíamos “sexo surpresa” depois do trabalho — e quase sempre havia alguma corda ou tipo de restrição envolvida. Ela também gostava de me amarrar, usar brinquedos e fazer sexo oral. Desde que não viole o seu eu mais profundo, descobrir sua sexualidade significa que quase tudo está liberado.
💡 DICA: Quando não houver corda disponível, uma faixa elástica baratinha (tipo Ace bandage) funciona muito bem como restrição improvisada.
Descoberta Pessoal
Converse com pessoas que levam um estilo de vida kinky por algum tempo e você logo ouvirá que o kink proporciona um tipo de crescimento e desenvolvimento pessoal. Superar suas suposições convencionais sobre sexo exige compreender o que significa ser um animal pensante. Isso envolve encarar seus próprios instintos e condicionamentos culturais, confrontar seus preconceitos, reavaliar seus valores mais básicos e lidar com toda a bagunça mental que se alojou dentro da sua cabeça ao longo dos anos.
O kink vai contra normas culturais de uma maneira que pode ajudar você a se entender melhor — e também a sociedade da qual faz parte. Um amigo uma vez me disse: “Minha família era tão reprimida que esse tipo de coisa nunca teria sequer passado pela cabeça de alguém!”. Famílias tradicionais tendem a parecer uma utopia à la Leave It To Beaver, mas, na realidade, imagens sexuais provocantes também passavam pela cabeça da mamãe, do papai, da vovó e do vovô. Mas se você veio de uma família que reprimiu tudo o que dizia respeito à sexualidade (como a minha), provavelmente nunca nem cogitou que poderia falar sobre sexo — muito menos amarrar seu parceiro no pé da cama.
Fui criado no catolicismo, com toda a culpa e vergonha que você esperaria encontrar em um lar disfuncional. Católicos (praticantes ou não) estão entre as pessoas mais kinky que conheço — talvez por terem sido doutrinados numa visão de mundo em que o ser humano é caído, falho e pecaminoso. As freiras deixavam claro que minha ereção durante a aula de geometria era consequência (entendeu?) do pecado original na minha alma. A repressão de todas as formas de sexualidade fora do casamento e sem fins reprodutivos pode acabar provocando fetichização — intensificada justamente pelo tabu em torno do sexo. Eu mesmo adoro uma saia xadrez de colegial… embora prefira vê-la na minha namorada stripper, e não numa colegial de verdade. (Vale lembrar: quinze anos dá cadeia na maioria dos estados americanos.)
Seja qual for a razão — religiosa ou pessoal — , essa repressão e supressão da curiosidade sexual básica (alimentadas por emoções sociais como vergonha e constrangimento) interrompe uma exploração saudável e não tradicional do sexo. Evitar o tema em conversas educadas torna o sexo um tabu, e reprimir os impulsos sexuais nos ensina a temer a violação desses tabus. Alguns tabus têm origem biológica (como a aversão natural ao incesto — pense em mexer na gaveta de calcinhas da sua tia-avó… eca), mas a maioria simplesmente pune expressões sexuais que não são socialmente aceitas.
O kink pode surgir justamente como uma resposta a essa repressão.
Expressão Sexual
Em um relacionamento saudável, o kink pode ser incorporado de forma natural à expressão do desejo sexual. Aquilo que pode parecer abusivo para um observador externo é, na verdade, uma performance extremamente excitante para quem está envolvido — desde que o ato seja realizado com consentimento informado. Isso significa que os parceiros concordam com plena consciência das consequências do que estão prestes a fazer (ou seja, nada de surpresas tipo final de episódio de Além da Imaginação quando já estão na cama).
Nessas condições, violência, agressividade e controle podem estimular a excitação sexual, ao invés de causar dano. Tudo depende do contexto, da comunicação e do consentimento entre as partes envolvidas. Aqui está a tradução desse trecho mais longo, que continua o tema da expressão sexual no contexto do kink:
Muitas vezes, a excitação sexual é intensificada por situações kinky, objetos ou recompensas antecipadas. Embora o comportamento sexual humano seja difícil de separar claramente entre natureza e cultura, pesquisadores de comportamento animal já fizeram estudos sobre isso com… bem, com pássaros. Especificamente, eles estudaram codornas japonesas. Os cientistas condicionaram as codornas a associar a visão de um cachorro de pelúcia (sim, isso mesmo) com a oportunidade de acasalar. E adivinha? Após cinco dias de reforço, apenas ver o cachorro de pelúcia já deixava as codornas excitadas.
Embora seres humanos sejam muito mais complexos, não é de se surpreender se você sentir um “quentinho” ao ver um suéter de angorá que te lembre aquele que sua tia jovem e exuberante usava quando te deu atenção especial na sua festa de 10 anos. Isso também explica como certas pessoas desenvolvem fetiches por coisas como calças de couro ou meias de seda. Se você associa salto alto a algo sexy e reforça isso nas suas fantasias (por exemplo, usando saltos na cama), não vai demorar muito para que esses saltos se tornem um gatilho erótico.
Atividades sexuais intensas podem oferecer uma válvula de escape expressiva para as tensões do estado de consciência cotidiana — aquele estado hiperatento e autoconsciente (às vezes chamado de “estado do ego” por estudiosos da consciência). Filmes, drogas, álcool e esportes radicais alteram a química cerebral — literalmente mudam o estado do cérebro. O sexo também pode provocar esses estados alterados. Para algumas pessoas, os elementos de fantasia e tabu do sexo kinky geram uma descarga química ainda maior do que o sexo convencional. O sexo não convencional pode ajudar a pessoa a se reconectar com seu instinto sexual mais básico, que é frequentemente suprimido, esterilizado e domesticado no dia a dia.
Vale lembrar que, na concepção de Freud, os impulsos sexuais e agressivos de uma pessoa entram em conflito com sua mente racional. Essa tensão entre instintos animais e comportamento racional geraria ansiedade — que seria aliviada por uma liberação catártica explosiva. Embora suas ideias sobre o cérebro tenham sido desacreditadas cientificamente, a intuição de Freud sobre o comportamento humano era bastante sólida. É comum que sexo e agressividade se misturem nas fantasias de uma pessoa excitada, mesmo que realizar literalmente muitas dessas fantasias seja perigoso ou impraticável. O fascínio por comportamentos perigosos ou irresponsáveis é, por si só, algo intensamente (e assustadoramente) excitante. O kink permite que sexo e agressividade encontrem uma saída segura e construtiva.
Por exemplo, fantasias sobre (e tabus contra) o estupro — a essência da violação por meio de sexo não consensual — fornecem a base para o chamado “ravishment roleplay”: uma simulação consensual do ato de ser dominado à força, que pode gerar uma excitação sexual intensa quando explorada de forma responsável.
Estímulo Sensorial
As brincadeiras kinky são geralmente vistas como uma espécie de preliminar entre parceiros que leva ao sexo, mas, para um número surpreendentemente grande de pessoas da cena kink, o sexo genital é totalmente incidental — e até desnecessário.
Essa constatação me surpreendeu durante minha primeira visita a uma dungeon. As pessoas se referiam aos seus possíveis parceiros sexuais (ou não) como parceiros de jogo, e faziam perguntas como: “Como você gosta de brincar?”. Nesse ambiente, era normal perguntar de forma direta: “Tenho curiosidade sobre você: você é top ou bottom? Veio aqui para aprender ou se estimular? Tudo bem pra você se houver penetração?”. Essa naturalidade nas negociações sexuais revela a essência da coisa: o sexo em si é opcional, e muita gente se satisfaz com a intensidade da experiência mental e física.
Existem muitas pessoas kinky que separam excitação de orgasmo. As brincadeiras eróticas permitem exatamente essa separação. Beijos, carícias, amassos no sofá podem ser extremamente prazerosos mesmo sem levar ao orgasmo. Eles provocam excitação, provocam e instigam — como aquele papo safado ao telefone. Segundo algumas medidas, homens pensam em sexo a cada 52 segundos. Brincar eroticamente sem chegar ao clímax é mais uma forma de vivenciar esse tipo de excitação sexual.
Estímulos sensoriais intensos (como spanking, mordidas, chicotadas) liberam endorfina e dopamina no cérebro, transformando a dor física em uma ferramenta para induzir um estado alterado de consciência. Dependendo da intensidade, isso é chamado de impact play (jogo de impacto), e pode variar de tapinhas leves até chicotadas e surras mais pesadas. Muitas vezes, não é que levar um tapa “seja gostoso” como uma massagem — é simplesmente algo que se sente intensamente. Estímulo físico puro pode ser prazeroso mesmo que não seja “agradável” no sentido comum. É como comer pimenta, ouvir uma música triste ou assistir a um filme trágico: aquilo “dói”, mas dói de um jeito bom.
Vale destacar que as memórias de experiências prazerosas e dolorosas tendem a depender muito mais da intensidade do que da duração. Um estudo sobre memória e felicidade mostrou que as pessoas costumam aproveitar uma viagem tropical de uma semana tanto quanto uma de duas semanas — desde que não haja experiências realmente distintas ou novas na segunda semana. Durante a segunda semana (da viagem mencionada), mais do mesmo não aumenta o prazer, porque, em retrospectiva, simplesmente não lembramos da duração com tanta clareza. Para muitas pessoas kinky, o ato de ter os sentidos aguçados é muito mais excitante do que uma noite de amor suave à luz de velas. (Aliás, seu parceiro kinky pode preferir usar essas velas para jogá-las derretidas sobre a pele nua. Isso é quente… literalmente.)
Apreciar experiências dolorosas não tem tanto a ver com a dor em si, mas com a meta-sensação — a valorização da intensidade da sensação. Corda áspera. Correntes de metal geladas. Couro liso e apertado. O impacto de uma mão aberta. Saber que a intenção do seu parceiro é sexual dá uma profundidade erótica à dimensão puramente sensorial do encontro.
Experiência Mental
Para quem nunca passou pela “cabeça kinky” (ou seja, o estado mental associado ao sexo kinky), pode ser surpreendente saber que grande parte do apelo do kink é de natureza mental. Quando comecei a conversar sobre kink com outras pessoas e elas descreviam esse estado mental eletrizante — que não envolvia orgasmo — , eu achava que estavam malucas. Eu estava mais interessado no espacinho apertado e molhado entre as pernas do que nesse espaço mental esquisito entre as orelhas.
No entanto, as pessoas frequentemente experimentam uma sensação de euforia, bem-estar, excitação e “fluxo” ao praticar atos sexuais kinky — seja na antecipação do evento (com prazer vindo de uma espécie de “pré-consumo” da experiência), durante a prática kinky (ao dominar alguém e afirmar sua vontade sobre essa pessoa, ou ao se submeter e ceder à vontade do outro), ou depois, ao saborear mentalmente o que aconteceu.
De fato, dominantes frequentemente perdem a noção do tempo enquanto se concentram intensamente na tarefa — seja amarrar o parceiro ou dar palmadas. Quando estou como top, me pego refletindo no fundo da mente sobre a dinâmica de estímulo-resposta do meu parceiro: quando eu faço cócegas aqui, bato ali, acaricio aquilo, que tipo de sentimentos ou reações posso provocar? Fico extremamente alerta e atento aos detalhes — como um artesão praticando sua arte.
Em contraste, submissivos geralmente experimentam algo chamado subspace — um estado de paz, serenidade e introspecção, semelhante à meditação.
Fora do quarto, parceiros kinky podem estabelecer regras e protocolos baseados na vontade do dominante e na obediência do submisso. Desafiar essas regras pode resultar em disciplina — que pode ser punitiva ou estimulante, dependendo do tipo de consequência e do temperamento dos parceiros de jogo.
O parceiro dominante pode, por exemplo, ordenar que o submisso termine cada frase com “Senhor” ou “Senhora”, como sinal de deferência e obediência. A falha em usar o tratamento adequado resulta em punição, e, nesse caso, todo o arranjo funciona como uma jornada erótica de poder, criando uma hiperconsciência da relação sexual entre dominante e submisso.
A dimensão mental e química do sexo é frequentemente ignorada. O sexo desencadeia reações químicas complexas no cérebro e no corpo. Ele libera dopamina e serotonina, dois neurotransmissores associados ao prazer, como forma de “recompensa” do corpo pelo acasalamento. Também há liberação de ocitocina — o chamado “hormônio do amor” ou “hormônio do aconchego” — , que está envolvido no parto, na amamentação e pode contribuir para o vínculo entre parceiros após o orgasmo.
Todas essas reações químicas estão ligadas aos instintos humanos de busca por recompensa, que foram úteis quando certos recursos eram escassos (como o açúcar e a gordura na dieta dos primeiros caçadores-coletores). Hoje, no entanto, nossos impulsos descontrolados podem nos prejudicar mais do que ajudar.
Embora o sexo e o amor não possam ser reduzidos apenas a reações químicas, o que torna nossas experiências sensoriais tão potentes é o significado que atribuímos a elas. Em outras palavras: não é surpresa que grande parte do prazer do sexo kinky — assim como o sexo em geral — esteja, de fato, na sua cabeça.
Aceitação e Pertencimento
Algumas pessoas são atraídas pela comunidade fetichista justamente pelo senso de comunidade que ela promove. Há quem se aproxime desse universo mesmo tendo uma sexualidade que seria, de outro modo, considerada “baunilha”. Por motivos sociais ou políticos, essas pessoas se identificam com indivíduos kinky, ainda que não tenham real interesse em sexo kinky. Góticos, metaleiros e punks, por exemplo, apropriaram-se de elementos do kink e do fetiche tanto para marcar suas comunidades em oposição à cultura dominante quanto para expressar possíveis inclinações sexuais alternativas.
A comunidade fetichista oferece um sistema de apoio tão forte que muitas pessoas recorrem a ela em busca de amizade e pertencimento, mesmo que seu interesse específico em práticas sexuais kinky seja baixo.
Às vezes, pessoas se envolvem com o sexo kinky para compensar sentimentos de baixa autoestima. Acreditam que estar dispostas a “topar tudo” as tornará mais atraentes para possíveis parceiros, pensando: “Posso não ser nota 10, mas pelo menos 6+kinky = 9.” Quando essas pessoas passam a reconhecer o que gostam em si mesmas e aprendem a compartilhar isso com os outros, frequentemente vivem experiências físicas muito satisfatórias.
Tenho uma amiga que era submissa, curtia bondage leve e brincadeiras com fantasias, mas não era particularmente hardcore. Ela se casou com um parceiro “baunilha” incrível e praticamente se afastou da cena kink. Ainda assim, todos os anos ela vai à mesma convenção, encontra o mesmo grupo de pessoas, visita o espaço de brincadeiras. Aquilo é empolgante, estimulante e familiar para ela. Lá, ela é aceita.
Algumas pessoas se sentem atraídas pela comunidade fetichista porque ela é underground, intensa, marginal. Elas pertencem a um grupo exclusivo de desviantes sexuais. Outras, como eu, acreditam que o kink é comum e saudável — e que só é “underground” porque faltam educação e espaço para debate público. Para nós, a aceitação e o pertencimento vêm de um relacionamento satisfatório.
E sim, certamente existem vítimas de abuso, crianças negligenciadas, pessoas com sobrepeso, rejeitadas socialmente e outros “desajustados feridos” que encontram na comunidade fetichista uma forma de reparar danos emocionais — assim como encontramos pessoas emocionalmente feridas em todas as partes da sociedade. O kink não atrai mais “malucos e esquisitos” do que o supermercado da esquina, embora os retratos exagerados da “prostituta abusada que virou dominatrix e acabou com um assassino do machado” exibidos em canais como o Lifetime façam parecer o contrário.
Mas não se surpreenda se você encontrar pessoas incomumente abertas sobre sua sexualidade na comunidade. Elas estão acostumadas a serem aceitas como são. Você aprenderá mais sobre essa mentalidade sem julgamentos e sem defesas — algo comum na comunidade fetichista — no capítulo A Mentalidade Kinky.
Novidade
Para alguns de nós, a emoção da sexualidade kinky está justamente na novidade da experiência — seja cortando bambu fresco, visitando uma dungeon do bairro pela primeira vez, ou explorando a caixa de brinquedos de um novo parceiro. A simples sensação de excitação sexual e possibilidades que um novo parceiro pode despertar — o que chamamos de “energia de novo relacionamento” — pode impulsionar uma fase intensa de exploração sexual conjunta.
Os avanços tecnológicos modernos nos tornaram mais conscientes do que nunca sobre a variedade de possibilidades sexuais à nossa disposição. Onde antes existiam apenas litografias obscuras do Kama Sutra e pequenos filmes pornôs proibidos, quem cresceu nos anos 70 (época dos cinemas adultos e revistas picantes) e nos anos 80 (com a popularização do videocassete) testemunhou uma explosão de filmes e vídeos kinky. Essa proliferação de pornografia excitante e fácil de copiar expôs as pessoas a uma ampla gama de comportamentos sexuais não convencionais — envolvendo bondage, troca de poder, humilhação e muito mais. O primeiro contato com isso pode ser sombriamente atraente… ou totalmente repulsivo — mas, na maioria das vezes, é altamente provocador.
Dito isso, pornografia é entretenimento, mas não é exatamente educativa. O que vemos nos filmes é uma ficção produzida (ok, muitas vezes mal feita e apressada), com maquiagem exagerada e diálogos constrangedores. Ainda assim, a pornografia nos apresenta possibilidades sexuais. Quando pessoas curiosas começam a explorar seus gostos por sexo mais agressivo, navegando os limites do consentimento, controle e força, elas podem sentir a emoção da descoberta — e uma nova consciência sobre como essas possibilidades inesperadas podem guiar sua exploração romântica.
Depois do fim de um relacionamento muito longo, eu procurava alguém com quem brincar — alguém que me desafiasse e me tirasse da rotina romântica em que eu me sentia preso. Uma noite, saí com amigos e comecei a conversar com uma garota deslumbrante que tinha uma atitude deliciosa de “não tô nem aí”. Brinquei com ela e com seus amigos. Ela se esforçava para chamar minha atenção — sendo insistente, me interrompendo enquanto eu falava. Eu a parei, olhei diretamente nos olhos e, com toda a seriedade, soltei uma daquelas frases clássicas de “artista da conquista”: “Não sei quem é seu namorado, mas ele claramente não está te dando palmadas o suficiente.” “Você não faz ideia!”, ela retrucou com um sorriso. “Na verdade, eu sei. Pena que acho que você é mais kinky do que eu posso lidar…” Ela respondeu na hora: “Querido, eu não perco tempo com homem que não sabe tomar controle!”
O relacionamento que construímos nos levou a testar os limites um do outro, compartilhar nossos gostos e desgostos, provocar reações mútuas e ter sexo incrível. Aquilo me recarregou de verdade.
Talvez neste momento você esteja apenas kink-curioso. Talvez meias arrastão, jaquetas de couro e algemas despertem muito sua excitação. Qualquer que seja sua motivação, lembre-se de um princípio básico:
BRATs, SAMs e BREAK-MEs — Comportamentos Insurgentes
Nas posições de SWITCH e de BOTTOM, dentre as inúmeras possibilidades de comportamento que elas suportam, existem 3 tipos que causam amor e ódio dentro da subcultura BDSM:
–Brat
–Sam
–Break-me
Que por serem comportamentos insurgentes acabam sendo repudiados por muitos TOPs.
Costuma-se dizer que todo comportamento insurgente é um comportamento BRAT, e atribui-se imediatamente a relação de disciplina, o que acaba causando um certo desconforto em muitas BOTTOMs submissas, pois as tira de dentro de uma relação de dominação e submissão e as coloca em uma relação onde não se encaixam por completo.
Para se entender as relações possíveis é preciso entender cada um dos comportamentos insurgentes, e para isso vamos começar entendendo o BRAT.
BRAT (Peste) BRAT é uma gíria americana erroneamente traduzida para o português como sendo pirralho (seu significado ao pé da letra), mas que na verdade significa “PESTE”, por ser um comportamento petulante, onde o SWITCH/BOTTOM, se diverte com provocações e insolências para com o TOP, o que muitos TOPs acham sexy e divertido.
A linha entre a insolência e o desrespeito é o que separa o BRAT dos outros comportamentos, já que o BRAT não possui um limite e vai buscar até no desrespeito, desafiar o TOP, não pelo castigo que lhe será infringido e sim pelo prazer de incomodar o mesmo.
A relação BRAT/TAMER é uma relação de disciplina, logo o TOP da relação não espera por submissão e sim por insurgências.
SAM e BREAK-ME
Apesar de estarem em uma condição diferente da de BRAT, quase em oposição a essa condição, as motivações do SAM e Break-me são ligeiramente diferentes.
SAM — Smart Assed Masochist (masoquista espertinha)
O SAM é o SWITCH/BOTTOM que estará tentando provocar punição, porque sua forma preferida de fetiche é dor física ou emocional. Eles são masoquistas que precisam de tratamento sádico, e se comportar como um PESTE é uma forma de fantasia interpretada para conseguir o que querem.
Esse comportamento deve ser apresentado na relação de forma consensual, porém por falta de conhecimento, na maioria das vezes é considerado um defeito e classificado inclusive como um comportamento BRAT, porém o SAM não sente prazer em contrariar ou irritar o TOP e quando percebem que o mesmo está se sentindo desagradado, mudam sua postura para não atrapalhar a relação.
BREAK-ME (me obrigue)
O Break-me sente prazer em ser dominado com força. Eles empurram para trás, resistem a dominação, e precisam ser superados, muitas vezes com uma luta física. Seu papel é o “parceiro relutante”, mesmo que ambas as partes saibam como a luta vai acabar.
Diferente do SAM o BREAK-ME vai continuar aprontando para ser dominado a força, mas diferente do BRAT o seu prazer não está em irritar o TOP, e sim em resistir a ele para que tenha sua vontade dobrada a força.
SAMs e BREAK-MEs são facilmente confundidos com BRATS, mas são comportamentos comuns em relações de DOMINAÇÃO e SUBMISSÃO enquanto o comportamento BRAT não se encaixa nesse modelo de relação, tendo seu próprio modelo de relação dentro do TAMER/BRAT.
Não há nada de errado em uma submissa apresentar um comportamento insurgente o problema é que o pouco conhecimento de TOPs/SWlTCHers/BOTTOMs sobre essas questões leva a rotulação errônea dos mesmos e classificações pejorativas dos que os apresentam.
Previamente discutido e consensualmente acordado, qualquer arranjo pode ser prazeroso dentro do universo de possibilidades que existem na subcultura BDSM.
Então parem de implicarcom os PESTES e vamos nos divertir!
Lorde San Disciplinador
Obs: Só eu pessoalmente deixo um adendo quanto ao texto, que é uma visão interessante, porém o “desrespeito” por parte do brat se dá num campo acordado e negociado os limites a respeito.
Encontro Pony – Relacionamentos se fazem de encontros, acordos e relações de benefícios e mútuos
Quando uma pessoa monogamica ouve a palavra relacionamento o que lhe vem a cabeça é relacionamento amoroso a idéia de “relacionamento sério”, geralmente estável e duradouro com um parceiro, seja namorado, noivo ou marido, mas não ficante, estando ligada a ideia de relacionamentos a relacionamentos românticos.
Quando uma pessoa da não monogamia hierarquica ouve falar de relacionamento provavelmente já vamos ter formas distintas de se observar as coisas a começar pela quebra da ideia de relacionamento romântico, sendo o amor romântico algo já questionado na não monogamia, ela pode pensar na sua ou suasrelações principais, pode pensar no lugas que os PAs ocupam nisso¹, unicórnios², casinho, ficante, pessoa que ficou na festa, etc, vamos abrir um leque de entendimento, seja ela ainda estando presa ao conceito de relação como algo estável e duradouro ou abrindo a ideia para as formas de relação além disso.
Quando falamos de não monogamia anárquica, vamos discutir a quebra da ideia de relacionamento restrito a ideia de relacionamento romântico sendo algo superior aos relacionamentos familiares, de amizade, profissional, etc, numa tentativa de entender e equilibrar esses pilares na vida e o tempo e energia que devemos despender nessas relações e quebrando certas ideias dos papeis exercidos por cada uma dessas relações.
Foi um pouco demorado chegar até aqui, mas quero mostrar que a ideia de relação, relacionamentos formas e formatos de relação não é estático, vai estar atrelado a tantos outros conceitos que trazemos da vida.
Um problema que temos desde sempre nos meios sociais, seja qualquer meio é o sequestro de significados, ainda vou fazer um texto falando sobre isso, palavras e significados tem poder, para um ser chamado de vadia é uma ofensa, para outro dá tesão e para um terceiro te brocha dependende de quem, como e onde é dito. Como fazemos parte de um meio que fetichiza o poder a disputa pelo “significado correto” tem muito peso aqui em detrimento de uma pluralidade de ideias, valores e significados.
Muito me incomoda o sequestro do conceito de relacionamento e reduzi-lo a idéia de relacionamento “estável”, principalmente num meio que não se propõe a ser monogamico e isso é perigoso, da abertura para um enorme leque de julgamentos das relações, parecendo exagero mas não diferente do sequestro que os conservadores fazem da palavra “casal” ou “família”.
Não quero entrar em semântica, recorrer aos dicionários ou algo assim, temos acesso a internet e isso tomaria um espaço que “um google” resolveria, mas procure por “significado”, “origem da palavra” e dicionários consagrados, os caminhos para a ideia de relacionamento como sendo pessoas que se unem com os mesmos objetivos e interesses. Ora, não seria toda negociação BDSM um mediador para a definição dos mesmos objetivos e interesses entre os que negociam?
Quando alguém do BDSM restringe a idéia de relacionamento a D/s, ou pior ao encoleiramento ou idéia de posse ou chamando de “relacionamento duradouro”, oras, se eu tiver um play partner durante 2 anos, não seria isso duradouro? Se uma pessoa encoleira alguém após uma semana pode passar a ser chamado de duradouro? Fica o questionamernto. No final nada difere do que os baunilhas colocam como “relacionamento sério”, ainda está invalidando outras formas de se relacionar quando mesmo que não propositalmente “sequestra” o significado do que é se relacionar pessoas que se unem com os mesmos objetivos e interesses.
Dito isso gente, play partner é relacionamento, enquanto você está jogando com alguém numa cena você está se relacionando, Tamer e brat, pet e dono, sádico e masoquista, Daddy e little girl são formas de se relacionar, seu contato, sua negociação são o estabelecimento de um relacionamento, não importanto se é só para uma sessão, se é para play partner se é para troca de poder parcial ou total.
BDSM é plural, Relação é todo o contato de troca que fazemos com o outro (nem que seja troca de insultos kk), o que pensamos sobre relacionamento deve se afastar do conceito monogâmico de “relacionamento estável” principalmente afunilando para a idéia de que só a relação de Dominação e submissão de troca de poder total ou parcial podem te oferecer isso.
Então é isso gente, beijão do tio Lino, se puderem dividam o que pensam a respeito nos comentários ^^