Desvio, Definido

Análise do conceito de desvio sexual — o que define uma prática como desviante, quem decide e por que essa classificação importa.

Desvio, Definido

Para desenvolver uma intuição sobre como o kink surge dentro da população, é útil entender melhor o que constitui uma população “normal” e as definições sociológicas e matemáticas de “desvio”.

Na sociologia, um desviante é um indivíduo que viola normas sociais, protocolos ou expectativas. O termo foi originalmente usado pelo sociólogo Émile Durkheim, que observou que mesmo sociedades perfeitamente normais apresentam algum nível de comportamento desviante — variando desde criminalidade simples, passando pela formação de subculturas (como gangues de rua ou irmandades maçônicas), até líderes revolucionários que rompem com o domínio colonial e iniciam revoluções.

“Desvio” intuitivamente remete a algo ruim, quebrado ou repreensível. É um termo carregado de conotações morais. No entanto, o conceito de desvio em Durkheim não era uma condenação, e sim uma descrição de como uma população expressa variações previsíveis — não de como indivíduos são “maus” por serem diferentes. O conceito se aplica tanto a mentes brilhantes e artistas famintos quanto a comportamentos criminosos.
As gangues do rock and roll na Inglaterra dos anos 1950 foram uma subcultura desviante que mais tarde deu origem à invasão britânica no cenário musical. Nem todo desvio é socialmente destrutivo ou moralmente errado.
Nesse sentido, o desvio não se trata de negar as normas vigentes, mas sim de oferecer alternativas ao status quo.

Para compreender como sociedades perfeitamente normais podem sobreviver — e até prosperar — com tantos indivíduos incomuns ou fora do padrão, é útil entender o significado das palavras “normal” e “desvio” em um contexto estatístico.

Considere, por exemplo, a altura.
Segundo o Centro de Controle de Doenças (CDC), o homem adulto americano típico mede 5 pés e 9 polegadas (cerca de 1,75m). Isso significa que essa é a altura média dos homens americanos — mas não significa que qualquer homem aleatório que você encontrar tenha exatamente essa altura.
O desvio padrão da altura da população masculina adulta é de 3,3 polegadas (aproximadamente 8,4 cm). Isso significa que 68% dos homens adultos americanos medem entre pouco menos de 5’6” (5’9” – 3,3”) e pouco mais de 6’0” (5’9” + 3,3”) — ou seja, entre aproximadamente 1,67m e 1,83m.

O desvio padrão

O desvio padrão é uma medida técnica que quantifica a diferença em relação à média. Um desvio padrão abrange pouco mais de sessenta e oito por cento da variação (por exemplo, a faixa de diferenças de altura); dois desvios padrão abrangem mais de noventa e cinco por cento da variação.
Desvio não é perversão, mas sim uma descrição da variedade em uma população normal.

Agora, nem toda variável em uma população é distribuída segundo uma curva normal. O sexo biológico não é uma média ao longo de uma faixa de valores, mas sim polarizado em masculino e feminino.
(Para ser exato, o sexo biológico não é estritamente binário. Um indivíduo intersexo não tem genitais totalmente masculinos nem totalmente femininos, mas genitais em algum ponto intermediário. E um hermafrodita tem ambos. Nenhum desses casos é antinatural — só são bastante raros. O próximo capítulo examina sexo, identidade e orientação com mais detalhes.)

A característica “gosta de apanhar” pode ou não estar distribuída normalmente em um continuum tipo sim – mais ou menos – talvez – não muito – não dentro da população americana.

Meu ponto é simplesmente este: o fato de você ver uma variação que não é socialmente sancionada (como o kink, a homossexualidade ou outras práticas sexuais alternativas), não significa que essa variação seja “anormal”.

Pode muito bem não ser amplamente discutida, reforçada pela cultura ou aprovada historicamente.
Pode ser objeto de desprezo e zombaria por parte da cultura dominante.

E só para deixar claro: em algum momento, isso também aconteceu com mulheres, pessoas negras, aborígenes, esquimós, homens que não tinham terras, gordos, disléxicos, irlandeses (sério, quem aguenta os irlandeses?), idosos, judeus, pessoas magras, japoneses, alemães, russos, poloneses, norte-coreanos, iraquianos, kurdos, políticos, banqueiros, advogados, empresários — e os irlandeses.
Mencionei aqueles irlandeses imundos do caralho?

A palavra “normal” é usada de maneira muito vaga na fala cotidiana.

“Sabe, as coisas que todo mundo concorda. O que todo mundo faz. Sabe — o normal.”
Eu sei.

São modelos e arquétipos amplamente difundidos.
Os mitos e tradições.
As histórias que vieram antes da pesquisa científica, do treinamento sobre diversidade e da disciplina “Tolerância 101” na orientação dos calouros.
As crenças, preconceitos e suposições que se acumularam ao longo de milhares de anos de história humana são o que hoje chamamos de normal.

  • É melhor você ser um homem bem homem ou uma mocinha bem mocinha, e você é “zoado” se não for assim. Falso, mas regularmente assumido.
  • Existe um astronauta zumbi judeu telepata que vai te manter vivo para sempre se você comer a pele dele e nunca se masturbar.
    Absurdo e perturbador, mas amplamente aceito.
  • Garotas são flores frágeis, e se você brincar de forma mais bruta, vai quebrá-las.
    Assustador para os meninos e triste para as meninas, mas comumente tomado como verdade.

Tudo perfeitamente normal.

Ou, se você permitir que sua mente se abra, verá que o “senso comum” da normalidade é extremamente tendencioso. Populações normais exigem a expressão de variações saudáveis (com algumas características incomuns surgindo, e alguns casos raríssimos que fazem o “médio” parecer estranho), mas as instituições sociais propagam narrativas conformistas que pretendem retratar “o que todo mundo faz”, independentemente de qualquer evidência empírica real.

Normal significa “uma distribuição populacional que possui a propriedade de seguir uma curva normal (em formato de sino)”.
Já o sentido moralista e julgador de ‘normal’ quer dizer: “do jeito que eu (ou meu Deus) acho que as coisas devem ser para todos por aqui.”

Uma vez que entendemos que normalidade e desvio são descrições estatísticas dos membros de qualquer população — e que os significados julgadores e pejorativos foram adicionados com o tempo — conseguimos lançar bastante luz sobre a prevalência do kink e suas consequências.

Quando usamos a palavra “normal” no discurso cotidiano, queremos transmitir a nuance de algo comum, convencional ou mediano.
Estamos tentando indicar: “aceito pelo público em geral como socialmente apropriado”.
Por esse critério, já foi considerado “normal” nos Estados Unidos queimar bruxas, internar japoneses e forçar homossexuais a se esconderem.
Isso não significa que era comum ou amplamente praticado.
Não era certo.
Mas era socialmente aceito.

“Normal” não significa que algo é mais prevalente do que as alternativas — e certamente não significa que é mais saudável.
O kink, por mais underground ou proibido que pareça, é tão normal quanto uma taça de vinho com a refeição durante a era da Lei Seca.

Aliás, o trabalho de um ativista social é mudar o que é socialmente aceito.
Você e eu não precisamos ser ativistas sociais para aproveitar um relacionamento kinky.

A beleza de uma experiência privada é que ela pode permanecer privada.
Não estou dizendo que o sexo deva ser um segredinho sujo, mas também não há mal nenhum em deixar que o que acontece a portas fechadas conserve um pouco de mistério e romance (depois que você terminar de ler este livro explícito, é claro).

A percepção de que ser um desviante saudável não é um defeito, não é uma doença e não é um problema a ser consertado traz um tipo particular de alívio.

Você pode até não ser terrivelmente mediano, mas, por Deus, você, desviante,
é perfeitamente normal.

📂 Você está em
…
📋 Neste artigo
  • Gerando índice…
🏷️ Termos
…
BDSM BRASIL BLOG

Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

NOVIDADES
ARTIGOS RECENTES