texto original
https://sexsciencespirit.blogspot.com/2014/06/the-seven-elements-of-submission.html
Embora muito já tenha sido escrito sobre as diferentes técnicas usadas em bondage e sadomasoquismo, pouco esforço foi dedicado a sistematizar as dinâmicas de um relacionamento de Dominação/submissão (D/s). O D/s é muito mais complexo do que o Dominante simplesmente dar ordens que a pessoa submissa deve obedecer. Ele começa quando o Dominante e a submissa concordam que desejam seguir esse caminho — mas esse é apenas o primeiro passo de uma longa jornada. O D/s se desenvolve lentamente, ao longo de um tempo considerável, em que ambas as partes trabalham ativamente para se abrir e conquistar a confiança uma da outra.
Aqui, vou me referir ao Dominante como um homem e à submissa como uma mulher, por simplicidade e por preferência pessoal; no entanto, tudo o que direi pode ser aplicado a qualquer gênero em ambos os papéis. Algumas coisas que direi podem parecer extremas, até mesmo brutais. É preciso lembrar que um relacionamento D/s se afasta radicalmente dos princípios que guiam uma relação “convencional”, como igualdade, autonomia pessoal, independência e respeito. Esses valores ainda estão presentes, mas transformados — moldados pelo fato de que a submissa entrega uma parcela significativa de poder ao Dominante, tornando o relacionamento inerentemente desigual.
A sub perde parte de sua autonomia; e o uso de dor, contenção e humilhação pode parecer, à primeira vista, uma ausência de respeito. Claro que tudo isso deve ocorrer dentro das fronteiras do princípio “seguro, são e consensual”. A sanidade é uma preocupação especial no D/s, pois essas práticas podem facilmente descambar para abuso psicológico. É necessário estar atento a qualquer coisa que prejudique a autoestima e a dignidade essencial da pessoa submissa, ou que crie dependência emocional. Tratarei desses riscos em outro texto.
Proponho aqui que um relacionamento D/s envolva sete elementos distintos: obediência, entrega, serviço, disciplina, punição, conduta e manipulação mental (“mind-fucking”).
1 – Obediência
Obediência é, de forma simples, seguir as ordens do Dominante.
É o aspecto mais evidente de uma relação D/s: um comanda e o outro deve obedecer.
Um bom Dominante escolhe com cuidado quais ordens dará, levando em conta as necessidades da submissa e o desenvolvimento da relação. A sub é um adulto plenamente formado, com uma vida complexa — portanto, uma ordem mal pensada pode causar estragos na vida dela.
Por outro lado, se uma sub percebe que não consegue cumprir uma ordem, ou sente necessidade de discutir, resistir ou usar sua palavra de segurança, a confiança no Dominante pode se abalar.
Uma boa estratégia é delimitar uma área da vida da submissa que estará sob o controle do Dominante — a mais óbvia sendo sua sexualidade.
Em contrapartida, sua vida profissional deve ser considerada fora dos limites do Dom.
O mesmo vale para as relações pessoais existentes: o Dominante não deve tentar controlá-las, se não por outro motivo, pelo fato de que isso traria para a dinâmica D/s pessoas que não consentiram em participar dela.
2 – Entrega
Entrega significa que a submissa deve estar aberta — física e mentalmente — ao Dom.
Um bom ponto de partida é o Dom afirmar seu direito de tocar a sub de forma íntima quando e onde desejar: seu umbigo, suas narinas, seu ânus — qualquer parte.
O corpo da sub está à disposição dele, para que desfrute e estimule com prazer ou dor, conforme seu critério.
Essa entrega física vem acompanhada de uma abertura mental, em que a sub, aos poucos, revela suas fantasias secretas, seus medos e desejos.
Novamente, o sexo é um bom ponto de partida, mas isso naturalmente se estende a outras áreas da vida dela.
Da parte do Dominante, é essencial evitar julgamentos.
Impor vergonha ou culpa à submissa seria uma traição à confiança dela.
Ela se tornou enormemente vulnerável — e, se sentir que suas confidências estão sendo usadas contra ela, reagirá se fechando e levantando barreiras.
A entrega definitiva acontece durante o ato sexual. Aqui, é preciso abandonar todo pudor: não estamos falando de sexo baunilha.
A sub não será “amada”; ela não vai apenas “fazer sexo”.
Ela será fodida, com todas as conotações de força e humilhação que isso implica.
Ela pode ser tomada de modo rude por trás, sem poder ver o rosto do Dom.
Pode ser amarrada em uma posição humilhante e exposta, incapaz de negar o acesso do Dom ou sequer de se mover em busca de prazer próprio.
Pode ser forçada a assistir, num espelho, à sua própria degradação.
Pode gostar do que acontece, pode não gostar — ou sentir ambas as coisas ao mesmo tempo — conforme a vontade do Dom.
E, naturalmente, só gozará com a permissão dele.
3 – Serviço
Serviço significa que a submissa trabalha para agradar e satisfazer os desejos do Dominante.
Enquanto a entrega é majoritariamente passiva, o serviço é ativo.
Ele vai além da mera obediência, porque exige que a sub antecipe as vontades do Dom.
Por outro lado, o Dominante deve ter cuidado para não sufocar a criatividade dela com um controle excessivo.
A sub precisa pedir permissão antes de prestar um serviço, ou sugeri-lo de forma humilde.
Uma sub bem treinada no serviço permite ao Dominante relaxar e aproveitar o relacionamento D/s sem precisar estar constantemente decidindo o que fazer em seguida.
4 – Disciplina
Disciplina é o conjunto de exercícios pelos quais o Dominante afirma plenamente seu controle sobre o corpo e a mente da submissa.
O modo mais evidente de fazer isso é por meio de uma cena em que ele a submete a várias fases de dor e prazer, até que ela se torne totalmente maleável à sua vontade.
É aqui que o D/s se entrelaça com o sadomasoquismo.
Tanto a dor quanto o prazer têm a propriedade da salience — eles impõem sua presença à consciência, obrigando-a a se concentrar.
Por isso, servem como a porta perfeita para que o Dom invada a mente da sub, afirmando implacavelmente seu poder.
Mas a disciplina vai muito além da dor e do prazer, e também além das cenas.
O Dom pode prescrever tarefas e exercícios que a sub deve realizar dentro e fora de sua presença, como forma de treinar sua submissão.
Esses exercícios podem incluir, por exemplo:
– exercícios sexuais, como contrações vaginais (Kegel) ou o uso de um plug anal;
– treinos físicos;
– leituras obrigatórias;
– horários fixos de sono e acordar;
– mudanças na dieta;
– escrever em um diário;
– períodos de trabalho concentrado sem distrações.
Para submissos homens, práticas de castidade e controle de ereções ou ejaculações são formas comuns de disciplina.
Embora alguns exercícios de disciplina possam ser desagradáveis, seu propósito não é punir, mas treinar a submissa e fortalecer sua submissão.
5 – Punição
A punição ocorre porque a submissa deve enfrentar as consequências de suas falhas — seja no relacionamento D/s, seja em sua vida fora dele.
O Dom pode repreendê-la verbalmente, impor dor física ou exigir que cumpra uma tarefa desagradável.
Esse é um tema delicado, pois vivemos em uma sociedade que pune em excesso — uma cultura que, desde a infância, nos associa culpa e vergonha à desobediência ou ao erro.
Por isso, o significado da punição precisa ser cuidadosamente definido desde o início, enfatizando seu valor terapêutico, como catarse e expiação.
Muitas pessoas no universo D/s descobrem prazer erótico em punir ou ser punidas — e isso deve ser encorajado e explorado.
Dentro do contexto D/s, a punição pode ser profundamente gratificante.
Primeiro, porque é uma forma poderosa de o Dom afirmar sua autoridade, o que pode preencher a mente da sub com reverência.
Segundo, porque envolve o aspecto de cura que mencionei antes.
Com a ajuda do Dom, a submissa traz à tona sentimentos de culpa e vergonha — não apenas por erros recentes, mas também por pecados e traumas de sua vida passada.
A humilhação e a dor da punição desgastam essas emoções negativas, polindo e purificando o ego.
Para que esse processo seja verdadeiramente curativo, é essencial que a punição termine com um momento de aftercare — o cuidado posterior — em que o perdão do Dom ajude a sub a se perdoar também.
Assim, qualquer falta cometida é expiada, pode ser deixada para trás, e a submissa se sente limpa, purificada e livre de culpa.
Ela aceitou suas fraquezas, testemunhou o poder de seu Dom sobre ela e, paradoxalmente, ao se render a ele, libertou-se de seus próprios demônios internos.
6 – Conduta
Conduta — ou demeanor — significa que a submissa aprende a se portar e se comportar de um modo que reflita um estado mental submisso.
Nem todas as submissas têm o mesmo tipo de conduta; cada uma expressa, à sua maneira, o que submissão significa para ela e para seu Dominante.
Algumas são dóceis e humildes; outras são orgulhosas e travessas (brats).
O Dominante define quais comportamentos são aceitáveis ou não, conforme a natureza da relação.
A conduta apropriada nasce da personalidade da sub e é refinada pelo treinamento, resultando em uma postura que revela, a olhos treinados, a profundidade e a beleza da relação D/s.
Por exemplo:
– uma submissa pode abaixar os olhos na presença do Dom, caminhar atrás dele e só falar quando for solicitada;
– outra pode erguer o queixo, desafiá-lo com o olhar, enfrentá-lo com ousadia e expressar livremente suas opiniões.
Ambos os estilos são válidos; representam apenas formas diferentes de entrega, serviço e disciplina.
7 – Manipulação mental (Mind-fucking)
A manipulação mental — ou mind-fucking — consiste em jogos psicológicos que o Dominante realiza com a submissa para levá-la a um estado de derrota e rendição.
Não precisa ser algo complexo; até uma provocação sutil já é um tipo de mind-fuck.
No entanto, as cenas D/s mais intensas utilizam essa técnica para conduzir a pessoa submissa a um sub-space profundo — aquele estado alterado de consciência onde ela se perde em rendição.
Essa é a culminação do treinamento dos seis elementos anteriores.
O mind-fuck exige criatividade do Dom; é aqui que ele demonstra sua verdadeira maestria.
Não existem receitas prontas — ele deve ser moldado à personalidade e ao estado emocional da sub naquele momento específico.
Uma boa estratégia é identificar os pontos de resistência, os conflitos internos da submissa, e então trazê-los à tona.
Para ter sucesso, o Dominante precisa dedicar-lhe atenção total, lendo-a com cuidado e sensibilidade.
Mas sem a colaboração voluntária da sub, o processo falha.
O mind-fuck não é algo que o Dom faz com a submissa, mas algo que eles criam juntos.
Por mais habilidoso que seja o Dominante, ele não conseguirá manipular a mente da sub se ela não se render ou não tiver disciplina suficiente para acompanhá-lo.
Um exemplo clássico é o jogo de forçá-la a escolher entre duas opções igualmente desagradáveis.
Se ela estiver num estado rebelde e recusar o falso dilema, o processo se quebra.
Como o mind-fuck traz à superfície resistências, conflitos e feridas, ele também pode ser um momento de autodescoberta — um passo no processo de autotransformação.
Conclusão
Desenvolver os elementos da submissão requer tempo e esforço.
O Dominante precisa conquistar a confiança da submissa e guiá-la com cuidado em cada etapa.
Por isso, o relacionamento D/s deve ser visto como um treinamento — um caminho de aprendizado mútuo, crescimento e prazer.
Todo o processo deve ser vivido com intensidade, mas também com alegria e profunda satisfação pessoal para ambos.
Como tantas coisas na vida, o que realmente importa é a jornada, não o destino —
até porque, no fundo, talvez não exista destino algum.