Por Trás da Prática · Série: A Questão da Liturgia · Parte 2
A Bengala Normativa: Liturgia como Gatekeeping
Quando um conceito pessoal vira critério de legitimidade — e quem fica de fora do que os litúrgicos chamam de “BDSM de verdade”.
Existe uma diferença fundamental entre dizer “eu gosto de protocolo formal na minha relação” e dizer “quem não segue liturgia não é BDSMer de verdade”. A primeira frase descreve uma preferência pessoal legítima. A segunda faz gatekeeping — e gatekeeping com base em uma norma que, como vimos no texto anterior, nunca existiu fora do Brasil.
O mecanismo concreto do gatekeeping litúrgico
Gatekeeping é a prática de definir quem “pertence” a um grupo e quem não pertence. No contexto litúrgico, funciona assim: um conjunto de comportamentos que originalmente eram preferências de alguns grupos brasileiros de D/s formal passou a ser apresentado como o critério que separa o BDSM “legítimo” do resto.
“A liturgia — que se você não segue à risca, você é escorraçado do BDSM e tem seu nome posto na boca do sapo. […] discutimos tanto sobre o como devemos nos comportar, mas ignoramos formalmente as discussões sobre práticas.”
— jon_t_n, A bengala que se chama liturgia, FetLife, 2016
O gatekeeping litúrgico opera em pelo menos quatro formas concretas.
1. O tratamento forçado de “Senhor”
“Ninguém tem obrigação de tratar um Top por Senhor ou Senhora pelo simples fato de ele ser Top […]. Esse tipo de comportamento vem de pessoas que precisam o tempo todo de reconhecimento pra se ‘sentir’ Top.”
— Bia Baccellet, Rituais Individuais e Liturgia: Devo chamar de Senhor?, 2015
2. A exclusão de dinâmicas fora do D/s e S/M tradicionais
Como a liturgia surgiu em um contexto onde só se conheciam D/s e S/M, ela foi desenvolvida exclusivamente para esses formatos. Brats, tamers, switches, praticantes de pet play, littles, e dezenas de outras identidades kink simplesmente não cabem na taxonomia litúrgica.
3. A pressão sobre switches
Switches enfrentam pressão específica em ambientes litúrgicos. A liturgia tradicional pressupõe posições fixas: você é Top ou bottom, Dominante ou submisso. Quem não se encaixa nessa binaridade é tratado como imaduro, confuso, ou não comprometido.
4. O kinkshaming interno: “você é só um fetichista”
O uso de “fetichista” como derogatório dentro do BDSM é particularmente irônico porque o próprio nome da prática é um acrônimo de fetiches: Bondage, Disciplina, Sadismo, Masoquismo.
O que o gatekeeping custa
- Iniciantes que chegam ao BDSM e passam meses tentando se encaixar em formas de protocolo que não refletem seus desejos reais.
- Pessoas cujas dinâmicas não são D/s ou S/M que se sentem excluídas ou menosprezadas em espaços comunitários.
- O debate comunitário focado em “como devemos nos comportar” ao invés de em segurança, consentimento e prática responsável.
- A facilidade com que abusadores usam a liturgia como cobertura — pois se aprendem os sinais externos corretos, sua legitimidade é assumida.
Leia também — Série: A Questão da Liturgia
Fontes consultadas
- jon_t_n. A bengala que se chama liturgia. FetLife, 2016.
- Lorde S. New X Old School (BDSM). FetLife, 2019.
- Baccellet, Bia. Rituais Individuais e Liturgia: Devo chamar de Senhor? iniciacaobdsm.blogspot.com, 2015.
- Wiseman, Jay. SM 101: A Realistic Introduction. Greenery Press, 1998.
- Vulpes Az. Ética e Liturgia. iniciacaobdsm.blogspot.com, 2016.