Liturgia Não Existe: A Invenção Brasileira

Liturgia é um fenômeno exclusivamente brasileiro, criado nos anos 1980-90 em condições de isolamento informacional. Como prática pessoal de protocolo, é legítima. Como norma universal, é um mecanismo de exclusão — e um historicamente invertído: quem é chamado de ‘New BDSM’ pratica conforme as fontes originais internacionais.

Por Trás da Prática · Série: A Questão da Liturgia · Parte 1

Liturgia Não Existe: A Invenção Brasileira

Como um termo exclusivo do Brasil tomou conta do debate sobre protocolos — e o que ele esconde ao fazer isso.

Sobre esta série
Seis textos que examinam o conceito de liturgia no BDSM brasileiro — sua origem histórica, seus usos legítimos, e os problemas graves que surgem quando passa de preferência pessoal a princípio universal.

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A conclusão é incômoda, mas não tem como fugir dela: liturgia é um fenômeno exclusivamente brasileiro. E isso importa mais do que parece.

Como o BDSM chegou ao Brasil — e por que chegou tarde

Para entender a liturgia, é preciso entender o contexto histórico em que o BDSM se consolidou no Brasil. O BDSM como subcultura organizada surgiu nos EUA na década de 1940, a partir da leather culture de veteranos da Segunda Guerra Mundial. Segundo Guy Baldwin — autor, ativista e testemunha ocular da história — a primeira base moral elaborada para distinguir o BDSM do sadomasoquismo da leather culture foi apresentada em 1983 numa convenção leather.

O Brasil, por sua vez, vivia sob ditadura militar até 1985. Material informativo sobre sexualidade era escasso, censurado ou inexistente. Quando o BDSM chegou ao país na segunda metade dos anos 1980, chegou com enorme defasagem informacional e sem acesso às fontes originais:

“O BDSM Brasileiro assumiu características particulares como a adoção da palavra liturgia para descrever um conjunto de protocolos, rituais e etiquetas, porém só se conhecia os relacionamentos de Dominação/Submissão e Sadismo/Masoquismo — e esse conceito de liturgia só pode ser aplicado nesses dois formatos de relacionamento.”
— Lorde S., New X Old School (BDSM), FetLife

Isso é crucial. A liturgia não foi uma invenção mal-intencionada. Foi uma adaptação honesta feita em condições de isolamento informacional. O problema é o que aconteceu depois: o termo se petrificou e passou a ser apresentado como universal e obrigatório — mesmo depois que o isolamento acabou.

O que o mundo chama de protocolo

  • Protocol — código de comportamento definido e aplicado numa relação ou ambiente.
  • Ritual — ação repetida com intenção, de forma regular, que ancora o estado mental da dinâmica.
  • Etiquette — normas de comportamento social num espaço kink.
  • Structure — o framework de regras e expectativas que sustenta a dinâmica cotidiana.
“É válido informar que o termo ‘Liturgia’ não é utilizado no BDSM lá fora. O que chamamos, aqui no Brasil, de Liturgia, lá fora é separado em ‘Protocolos’, ‘Rituais’ e, menos expressivamente, ‘Estrutura’.”
— Rasputin, Liturgia: O que é, no que consiste, pra quê?, 2015

O paradoxo histórico: quem é o “Old School” de verdade?

“Os novos praticantes têm buscado conhecer como é o BDSM no formato que foi criado, desprezando a liturgia BDSM brasileira. São esses novos praticantes que seguem aquilo que seria o BDSM Old School, já que praticam segundo as regras que foram criadas em sua origem — em detrimento do BDSM litúrgico, que é o New BDSM que não segue aquilo que foi criado originalmente.”
— Lorde S., FetLife

Dois usos de liturgia — um legítimo, um problemático

Liturgia como prática pessoal é legítima. Se você e seu parceiro criaram um conjunto de rituais, protocolos e etiqueta que dá sentido à dinâmica de vocês — isso é exatamente o que toda relação BDSM deveria ter.

Liturgia como norma universal é o problema. O momento em que “minha prática de protocolo” se torna “o verdadeiro BDSM requer liturgia” é o momento em que o conceito se torna uma ferramenta de exclusão.

“Imagine você que a gente precisou dar um novo significado para uma palavra e supervalorizar ela pra tentar normatizar todo mundo. Sim, a liturgia, que se você não segue à risca, você é escorraçado do BDSM.”
— jon_t_n, FetLife
Em resumo: “Liturgia” é um termo exclusivo do BDSM brasileiro, criado em condições de isolamento informacional. Como prática pessoal de protocolo e ritual, é legítima. Como norma que define quem pratica BDSM “correto”, é um mecanismo de exclusão.

Fontes consultadas

  1. Lorde S. New X Old School (BDSM). FetLife, grupo BDSM Brasil, 2019.
  2. Rasputin. Liturgia: O que é, no que consiste, pra quê? dilemasdeumdominiciante.blogspot.com, 2015.
  3. jon_t_n. A bengala que se chama liturgia. FetLife, 2016.
  4. Baccellet, Bia. Rituais Individuais e Liturgia — Devo chamar de Senhor? iniciacaobdsm.blogspot.com, 2015.
  5. Baldwin, Guy. Ties That Bind. Daedalus, 1993.
  6. Ambrosio. Marginalia on the Old Guard, Leather Traditions, and BDSM History. evilmonk.org, 2006.
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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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