Faça o que Digo, Não o que Faço: A Hipocrisia Litúrgica

A hipocrisia litúrgica não é um desvio do sistema — é uma consequência previsível de um sistema sem mecanismos de responsabilização. Norma não escrita, sem processo, aplicada por quem já tem status: a liturgia protege quem detém poder e expõe quem não o têm.

Por Trás da Prática · Série: A Questão da Liturgia · Parte 3

Faça o que Digo, Não o que Faço: A Hipocrisia Litúrgica

A liturgia é frequentemente invocada para cobrar os outros e raramente para guiar a própria conduta — e isso não é coincidência.

Um dos argumentos mais persistentes em favor da liturgia é o de que ela promove virtude: respeito, responsabilidade, honra, cuidado. O texto “Ética e Liturgia” de Vulpes Az estabelece explicitamente esse paralelo — liturgia como a busca da boa convivência dentro da subcultura, o equivalente kink da boa ética aristotélica.

O problema não é o argumento. É a execução. Porque quem mais invoca a liturgia frequentemente é quem menos a pratica — e a estrutura da liturgia como norma não escrita, sem instância de responsabilização, torna exatamente isso previsível.

O padrão documentado

“Doms que pregam as tradições da verdadeira entrega, das posturas condizentes ao papel de submissos […] porém não podem ver uma submissa novinha, se dizendo iniciante, que logo abordam nos seus privados, sem se preocupar se estão sendo inconvenientes ou não. Inclusive subs encoleiradas foram abordadas e se sentem constrangidas.”
— Shalla_RN, FetLife

A estrutura que torna a hipocrisia previsível

O próprio Vulpes Az, defensor da liturgia, admite o problema:

“A liturgia não é positivada, ou seja, não é ‘escrita’ dentro de um código, tomo, bula, nem nenhum documento oficial do BDSM. É uma tradição viralizada que se replica através da vivência. […] Quando alguém comete um ato que vai contra esses princípios, a reprimenda vem pelo próprio ‘meio’.”

“A reprimenda vem pelo próprio meio” significa, na prática: quem tem mais status na comunidade define o que é litúrgico e quem merece reprimenda. Não há código escrito. Não há processo. Não há apelação.

A analogia do Old Guard americano — e seu alerta

“O que uma vez foi um termo de chacota entre homens gays tornou-se uma designação cobiçada tanto pela multidão homossexual quanto heterossexual. Old Guard é agora sinônimo de experiente, honorável, realizado e masterful. Porém, a designação é fácil de adotar e seu valor é dubítavel.”
— Ambrosio, Marginalia on the Old Guard, evilmonk.org, 2006

Quando a liturgia vira cobertura para abuso

“O BDSM litúrgico muitas vezes serve como base de abuso, por permitir que um abusador coloque acima das bases morais o seu protocolo pessoal.”
Ponto de atenção: Conhecimento da terminologia BDSM — inclusive litúrgica — não é evidência de caráter ou de prática segura. Abusadores aprendem vocabulário. Preste atenção em comportamentos, não em nomenclatura.
“Eu sei que tem muita gente de caráter duvidoso por aí, abusando a torto e a direito, e se dizendo litúrgico!”
— Sra Storm, Dom Barbudo, 2021
Em resumo: A hipocrisia litúrgica não é um desvio do sistema — é uma consequência previsível de um sistema sem mecanismos de responsabilização. Norma não escrita, sem processo, aplicada por quem já tem status: o resultado é que a liturgia protege os que detém poder e expõe os que não o têm.

Fontes consultadas

  1. Shalla_RN. Litúrgicos e o BDSM: em que ponto teoria e prática se dissociam. FetLife.
  2. Vulpes Az. Ética e Liturgia. iniciacaobdsm.blogspot.com, 2016.
  3. Sra Storm. Liturgia. Dom Barbudo, 2021.
  4. Lorde S. New X Old School (BDSM). FetLife, 2019.
  5. Ambrosio. Marginalia on the Old Guard, Leather Traditions, and BDSM History. evilmonk.org, 2006.
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Conhecimento critico para praticas conscientes. Escrito por Lino Naderer e afins.

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